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Correio Braziliense

34ª Feira do Livro de Brasília destaca a formação de leitores

O encanto pela literatura desde a infância ganha forte protagonismo no evento


postado em 09/06/2018 07:30 / atualizado em 08/06/2018 19:11

Os livros de Tino Freitas mostram que boas histórias podem ser contadas a todas as idades (foto: Jhonatan Vieira/Esp. CB/D.A Press - 19/10/16)
Os livros de Tino Freitas mostram que boas histórias podem ser contadas a todas as idades (foto: Jhonatan Vieira/Esp. CB/D.A Press - 19/10/16)

Leitura é hábito e prática, mas também fantasia e diversão.  Esse trapézio pode percorrer vários caminhos para ser formado. Pensando nisso, os curadores da 34ª Feira Internacional do Livro de Brasília decidiram colocar a formação de leitores como foco da programação e escolheram o tema Literatura infantil: A invenção do sonho. Vamos brincar de inventar? como sugestão de que ler pode começar como uma grande brincadeira.
 
E aí, é preciso considerar todo tipo de mídia, da contação de histórias às redes sociais e publicações on-line que arregimentam milhares de jovens leitores em um mundo que nem sempre transborda para o livro convencional.

Na programação da feira, há duas dedicadas à literatura jovem e à internet. A primeira delas está programada para segunda-feira e reúne Luiz Humberto França, Leonardo Neto, Bárbara Morais e Clara Arreguy. A outra, no próximo sábado, vai tratar de blogs e literatura para jovens adultos com Paulo Souza, Luciano Vellasco, Marina Oliveira e Bruno Reis.
 
Encontro de leitores jovens promovido pelo blog Academia Literária do DF (foto: Luciano Vellasco/Divulgação)
Encontro de leitores jovens promovido pelo blog Academia Literária do DF (foto: Luciano Vellasco/Divulgação)
 

“ O que importa é despertar o gosto, instigar a curiosidade, proporcionar prazer na leitura. Sempre oferecendo o livro como um aliado em sua construção de uma mente mais inteligente, esperta, capaz de entender o mundo e de buscar soluções” 
Clara Arreguy


Paulo Souza, 28 anos, é estudante de engenharia civil e começou o blog Ponto para ler com a intenção de facilitar o caminho entre os leitores e os clássicos da literatura universal. “A ideia era mostrar que a literatura não é uma coisa maçante e que tem muito conhecimento e coisas que as pessoas vivem no dia a dia”, explica. “E, às vezes, a linguagem mais simples consegue trazer os leitores que não leriam certos livros.”

Leitura, Paulo lembra, é uma coisa introspectiva e solitária, diferente do mundo compartilhado da internet. Mas é possível unir os dois. “A internet está aí para mostrar que você não é o único a sentir as coisas que sente quando lê”, diz Paulo, que criou também um canal no YouTube dedicado a entrevistas.
 
Autor de um livro de contos e com um romance pronto para ser publicado, ele lembra que há um mundo de publicações e leitores nas plataformas digitais como Wattpad e KDP, que é ignorado pelas grandes editoras, mas atrai milhares de adeptos vorazes e fiéis.

Essas redes sociais de livros são fundamentais na formação de leitores e hoje, boa parte deles passa por lá. Paulo conta que tem muito retorno dos jovens com depoimentos de que não leriam de jeito nenhum um certo cânone se não fosse a maneira como o blogueiro apresentou a história. Informação simples, ele aponta, é tudo na formação de um leitor.
 

Muitas possibilidades 

Jhonatan Vieira/Esp. CB/D.A Press - 19/10/16
Jhonatan Vieira/Esp. CB/D.A Press - 19/10/16

 

Luciano Vellasco é blogueiro desde 2013, quando criou a Academia Literária do DF com o objetivo de fomentar a literatura e promover a ideia de que livros são essenciais para a formação das pessoas. “Conheci editores, livreiros, agentes literários, autores e muita gente que tinha gosto pela literatura. Meu projeto faz cinco anos no mês que vem e foram anos de muito aprendizado e alegrias”, diz o blogueiro.

Ele lembra que booktubers e blogueiros literários são, antes de tudo, ávidos leitores. A intenção é compartilhar experiências pessoais com os livros com outros jovens e incentivar a circulação das obras. “Muitas vezes, o simples fato de dizermos em uma resenha que determinado livro é bom motiva os nossos seguidores a irem até a livraria”, destaca. Para ele, é importante desmistificar a ideia de que jovem só lê “coisas de jovens”.
 
É possível encontrar, nas redes, espaços especializados em clássicos, fantasia, quadrinhos, romance, poesia ou ficção, a lista de possibilidades é grande. “Eu não gostava de ler, pelo mesmo motivo que muitos jovens: o processo de ensino das escolas empurram livros que não dialogam com o momento em que vivemos. Hoje, trabalhamos no blog para desconstruir o preconceito de que debates sobre literatura são maçantes e entediantes.”, afirma Luciano.

Para ele, o ideal é trabalhar com obras contemporâneas, que dialoguem com o mundo atual e com o mundo experimentado em cada faixa etária. Crianças e adolescentes vivem, atualmente, em um ambiente extremamente conectado e dialogar com esses ambientes a partir da criação literária é um caminho para estimular a leitura entre os jovens.

Tino Freitas, um dos grandes nomes contemporâneos da literatura para crianças, lembra que, entre as páginas, os autores oferecem aos leitores de qualquer idade a possibilidade de exercitar a criação. “Incentivar a leitura desde a infância oferece a todos nós a possibilidade de vivermos num mundo mais justo”, destaca. Para ele, as redes sociais ajudam muito a ampliar o olhar do leitor com um grande alcance.

Tino destaca que o livro como o conhecemos hoje, após a invenção da roda, é uma das tecnologias mais antigas ainda em uso. “Eu acredito que o ser humano é o elo mais importante para conectar leitores. Ao ver alguém que se admira, que se ama, que leia com paixão, é muito provável que se queira partilhar daquela experiência”, destaca o autor. Ele lembra que a influência se dá na partilha, na conversa em que o livro entra como um elemento importante. Um livro sempre é novo para quem o abre a primeira vez, independente da idade.
 
Jhonatan Vieira/Esp. CB/D.A Press - 19/10/16
Jhonatan Vieira/Esp. CB/D.A Press - 19/10/16
 
 

Blogs, perfis e canais literários 
 

 Nesse cenário, o crescimento de blogs, perfis e canais literários é prova do envolvimento do público jovem com os livros a partir do universo on-line. Inspirados nessa relação de proximidade, autores de diferentes idades também se lançaram às novas plataformas em busca de um diálogo com seus leitores. É o caso de Clara Arreguy, autora de mais de 10 livros que, em 2006, criou um blog literário no qual escreve resenhas e comenta grande parte de suas leituras pessoais.

Há dois anos, ela descobriu que há um universo amplo frequentado pelos jovens blogueiros e decidiu se aproximar. “Fiz parceria com mais de 300 deles, enviando livros para serem resenhados. Foi interessante, porque a maioria absoluta deles nunca tinha lido livros nacionais, contemporâneos, realistas, com temáticas como a política brasileira e a vida urbana atual”, conta Clara.
 
Ela lembra que a relação entre livros e tecnologia faz parte de um universo crescente, mas a demanda por e-books ainda não suplanta a dos livros de papel. “Acho que o caminho é investir na qualidade de conteúdo e forma. É o que proponho nos meus livros e nos da minha editora, a Outubro: livros bons, bonitos e baratos. E isso tem funcionado, independentemente da plataforma ou da tecnologia”, afirma.

Também autora, Ana Beatriz Brandão, 18 anos, é um pequeno fenômeno entre leitores jovens. Ela publicou o primeiro livro aos 14 anos e, até agora, já são quatro títulos em formato convencional. Seu A garota do cachecol vermelho (2016) está na 6ª edição e já vendeu mais de 15 mil exemplares. O mais recente, A garota das sapatilhas brancas, trata de preconceito e violência em uma história sobre uma bailarina arrogante que passa por mudanças transformadoras ao conhecer um rapaz que é seu oposto.
 
(foto: Paulo de Araújo/Divulgação)
(foto: Paulo de Araújo/Divulgação)
 


Ana Beatriz confessa que não pensa no leitor quando escreve, mas atribui o interesse por suas histórias pela identificação com sua geração. “Acho que a partir dos meus gostos tem gente que se identifica porque é o mesmo universo”, acredita.
 
Formação de leitor também se dá por identificação e quando os autores são jovens e da mesma geração que seus leitores, as projeções são inevitáveis. Ana Beatriz pode até não escrever para agradar, mas faz questão de manter o contato com os leitores nas redes sociais. “É uma das coisas mais importantes para mim, porque escritor não existe sem leitor”, diz.

Para Barbara Morais, escritora de Brasília e autora da trilogia distópica Retomada da união, que vendeu mais de 9 mil exemplares, a formação de leitores passar também pela informalidade. Isso explica, segundo ela, o sucesso de YouTubers. “No YouTube as pessoas falam mesmo do que elas gostam e os adolescentes prezam por isso”, garante.



34ª Feira do livro de Brasília
Área externa do Pátio Brasil. Até 17 de junho, das 10h às 22h. Entrada franca.
 



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