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Correio Braziliense

Obras de José Figueroa expostas na Caixa registram a história cubana

Mostra 'Um autorretrato cubano' fica em cartaz até 19 de agosto, na Caixa Cultural


postado em 09/06/2018 07:06

As obras de José Figueroa traçam um panorama de Cuba nos últimos 50 anos(foto: José A. Figueroa/Divulgação)
As obras de José Figueroa traçam um panorama de Cuba nos últimos 50 anos (foto: José A. Figueroa/Divulgação)

 
José Figueroa começou a trabalhar como fotógrafo aos 18 anos, como assistente de Alberto Korda, responsável pelo retrato de Che Guevara que se tornou uma das imagens mais reproduzidas do mundo. Aprendeu muito no estúdio de Korda, mas foi a relação de tutor com o fotógrafo o mais importante para Figueroa. O afeto paternal de Korda o ensinou a olhar para o ser humano, que hoje aparece na maioria das imagens de Um autorretrato cubano, em cartaz na Caixa Cultural.

Com curadoria de Cristina Figueroa, filha de José, a exposição reúne 70 imagens de alguns dos ensaios mais emblemáticos feitos pelo fotógrafo desde 1964, quando começou a trabalhar no estúdio de Korda. Olhar para o povo cubano, mas também para as transformações sociais que mobilizaram o país durante as últimas cinco décadas foi uma das prioridades de Figueroa.

As primeiras imagens apresentam cenas íntimas, caseiras, de amigos e conhecidos do autor. São os anos de despreocupação, imediatamente interrompidos pela realidade quando, em 1967, a família de Figueroa começou, aos poucos, a imigrar para os Estados Unidos. Na época com 18 anos, ele servia ao exército junto com um irmão mais novo e foi obrigado a ficar na ilha. Filho de uma categoria considerada traidora — Fidel Castro não via com bons olhos os desertores do regime —, o fotógrafo ficou marcado como uma pessoa de pouca confiança.

Foi Korda quem o acolheu e ofereceu a oportunidade de uma profissão. No estúdio, Figueroa encontrou o caminho do jornalismo. Boa parte das imagens de Um autorretrato cubano foram feitas em momentos históricos para a ilha. A revolução já havia acabado há quase 10 anos, mas o fotógrafo foi documentar como a população vivia a utopia socialista. Viajou o país inteiro, sempre interessado nas pessoas, e trabalhou para a imprensa cubana, fortemente controlada pelo regime, o que também impunha limitações.

Na Guerra de Angola, ele esteve como voluntário para fazer um documentário, o que permitiu que viajasse pelas zonas de conflito. Levou a câmera fotográfica e, além do filme oficial, hoje pertencente ao governo cubano, fez um ensaio sobre os soldados e as crianças africanas envolvidas na guerra. Figueroa também estava em Berlim oriental quando houve a queda do muro que dividia a cidade. Foi uma época difícil para os cubanos, já que o muro representava o fim do bloco socialista. Nas imagens desse momento, o fotógrafo excluiu a figura humana como forma de ressaltar a introspecção causada pela incerteza quanto ao futuro de Cuba. Os contrastes entre a utopia socialista e a realidade estão em boa parte dos ensaios como fruto de um olhar crítico, especialmente naquelas datadas dos anos 1990, quando o embargo e a ausência do suporte soviético fizeram a população cubana passar por privações que incluíam a falta de alimentos.

A fotografia, Figueroa lembra, foi um instrumento muito importante para Revolução Cubana (1953-1959) e Fidel sempre fez questão de usá-la sem parcimônia. “Era um momento muito importante para a fotografia. Desde o início, Fidel Castro deu muita importância à fotografia, importância que não havia tido até então. Alguns pesquisadores disseram que a Revolução Cubana teve a fotografia como uma de suas peças fundamentais”, conta. “Raul Coráles, um dos grandes fotógrafos da revolução, sempre dizia uma coisa muito interessante: em Cuba havia analfabetismo, então quando diziam que havia 400 mil pessoas em uma concentração muita gente não podia ler, mas podia se dar conta graças às imagens.”



Um autorretrato cubano
Exposição de fotografias de José A. Figueroa. Visitação até 19 de agosto, de terça a domingo, das 9h às 21h, na Caixa Cultural (SBS Qd 4 Lotes ¾). Entrada franca.
 
 
 
 

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