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Correio Braziliense

Maria Valéria Rezende fala sobre literatura e engajamento

Autora é uma das criadoras do Mulherio das Letras


postado em 10/06/2018 07:30 / atualizado em 09/06/2018 14:05


 
Maria Valéria Rezende:
Maria Valéria Rezende: "Livraria de shopping não tem nada a ver com literatura. Tem a ver com mercadoria, papel, tinta" (foto: Monica Camara/Divulgacao)
 
Maria Valéria Rezende é uma espécie de combatente da literatura. Faz isso, no entanto, sem muito alarde. Assim como escolheu ser freira e passar parte da vida em salas de aula dedicada à educação de adultos de comunidades pobres e desprovidas de tudo. É um combate silencioso e persistente, mas que dá frutos. No caso da literatura, até a autora se surpreendeu com os resultados.

Maria Valéria se descobriu escritora aos 60 anos. Hoje, aos 75, ela já publicou quatro romances, três coletâneas de narrativas curtas e 10 livros de histórias infantojuvenis. Quando ganhou o Prêmio Jabuti e Livro do Ano por Quarenta dias, em 2015, já publicava há uma década. Mas como mora em João Pessoa (PB), onde cuida das freiras idosas de sua congregação, a Nossa Senhora Cônegas de Santo Agostinho, não estava no circuito privilegiado de autores das grandes editoras. E é aí que começa parte de sua luta literária.



“Descobrimos que somos um montão. É uma falácia essa coisa de que mulher não escreve. Mulher é silenciada”



Ela sempre ficou intrigada com a afirmação de que as mulheres não são discriminadas no mercado editorial. Não se convencia muito com a justificativa de que não estão muito presentes porque escrevem menos que os homens. Em 2016, durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), ela e outras escritoras resolveram se reunir para se conhecer e conversar sobre o assunto. “E começamos a desconfiar disso de que mulher escreve menos. Na Flip, éramos muitas andando ali pela rua, participando de vários eventos paralelos, não só da Flip oficial. E aí resolvemos juntar o mulherio e conversar”, conta.

Mulherio virou substantivo e grupo, mas ainda havia uma curiosidade em saber quantas mulheres realmente faziam parte dessa cena. Para ter uma noção, alguém sugeriu a criação de um grupo nas redes sociais e Maria Valéria tomou a iniciativa: abriu, no Facebook, o Mulherio das letras. Inicialmente, havia cerca de 300 autoras. Hoje, elas já somam 6,7 mil. “Naquelas conversas iniciais, tinha gente que dizia que éramos umas 300 escritoras. Outras diziam que dava até 400. E eu, muito otimista, dizia que eram de 500 pra cima. A gente realmente não sabia nem quantas éramos, porque a maioria é publicada por editoras pequenas locais e fica por ali mesmo”, diz a autora.

Hoje há grupos espalhados por todo o país — em Brasília, são mais de 68 autoras — e uma rede de ações que envolve produção de livros artesanais, projeto de recuperação de poetas mulheres e uma atenção para o que as escritoras produzem hoje no Brasil. “Descobrimos que somos um montão. É uma falácia essa coisa de que mulher não escreve. Mulher é silenciada. A partir do próprio movimento do mulherio, muita gente desatou a fazer pesquisa e temos vários projetos que foram brotando de parcerias”, conta Maria Valéria.

Descentralização

O engajamento acabou por tomar corpo e passou a aparecer com frequência nos debates para os quais Maria Valéria é convidada. A produção literária fora do eixo Rio-São Paulo sempre é uma questão na qual insiste. “Quando se fala em literatura brasileira, me lembro daquele poema do Carlos Drummond que diz ‘o poeta municipal disputa com o poeta estadual enquanto isso o poeta federal tira ouro do nariz’”, diz. “Ainda é assim: se você não mora em São Paulo ou no Rio, você fica desconhecido. Sou uma coisa esquisita nesse meio, porque o fato de eu ser freira cria um folclore.”



“Ainda é assim: se você não mora em São Paulo ou no Rio, você fica desconhecido. Sou uma coisa esquisita nesse meio porque o fato de eu ser freira cria um folclore”




Outra bandeira da autora é combater uma ideia que ela considera um mito. “Tento aproveitar essa notoriedade repentina que tive para defender minhas causas. E uma das minhas causas é essa mania de dizer que brasileiro não lê. Não é verdade. Se tiver livro, brasileiro lê. Tenho um monte de experiências, projetos de leitura que provam que brasileiro lê. O que há é uma limitação enorme na distribuição de livros, e as livrarias estão fechando. Livraria de shopping não tem nada a ver com literatura. Tem a ver com mercadoria, papel, tinta”, lamenta.



Lista de livros de Maria Valéria Rezende

O voo da guará vermelha (2005)

Vasto mundo (2001-2015)

Quarenta dias (2014)

Outros cantos (2016)

Histórias nada sérias (2017)



Infantojuvenis

Ouro dentro da cabeça (2012)

Jardim de menino poeta (2012)

Vampiros e outros sustos (2013)

Uma aventura animal (2013)


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