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Correio Braziliense

Isabél Zuaa, atriz acolhida pelo Brasil, fala de sucesso, cota e racismo

Atriz destacada pelo cinema brasileiro, a portuguesa Isabél Zuaa, atualmente vista no filme As boas maneiras, se revela engajada e implacável com estereótipos


postado em 12/06/2018 07:50 / atualizado em 11/06/2018 18:03

Isabél Zuaa: uma potência cênica que tomou as telas brasileiras(foto: Breno Turnes/ Divulgação)
Isabél Zuaa: uma potência cênica que tomou as telas brasileiras (foto: Breno Turnes/ Divulgação)
 
 
É um nome da dramaturgia, que veio, para ficar: Isabél Zuaa. Atriz portuguesa em acensão no cinema, aos 30 anos, tem debelado preconceitos, com serenidade. Isabél, que cultiva tradições africanas, traz brilho para o longa As boas maneiras, em cartaz nos cinemas. Se, na infância, já criou cachorro, gato e ovelha; na ficção de terror, ela se aventura a resguardar um lobisomem. “Terror nunca foi meu forte, porque meus irmãos me assustavam muito”, admite.

Expressiva, Isabél Zuaa vem construindo currículo irretocável, com participações em filmes de projeção como Joaquim (sobre Tiradentes, e exibido em Berlim) e O nó do diabo (pelo qual ganhou Candango de melhor coadjuvante no Festival de Brasília). “Sou uma pessoa bem com os pés na terra — trabalho no campo, perto das pessoas”, define. Formada pela escola de Circo Teatro na Chapitô (organização de Lisboa), ela foi para a Escola Superior de Teatro e Cinema (o antigo Conservatório). Por sete anos, até 2017, Zuaa morou no Brasil. Há ano e meio, ficou um tanto mais em Portugal. Além da quebra de estereótipos, a atriz tem batalhado por igualdade ou, melhor “exaltação da mulher”. Numa obra solo, por exemplo, a protagonista, extraída do campo autorreferencial, é negra e resgata a autoestima, na sociedade e nas artes.
 
No Brasil que tem a acolhido, Zuaa percebe a crise, de fundo “econômico e de identidade”. Na sinuca de bico de valores, o que valeria mais, então: gasolina ou suor? “Sem dúvida é o suor, porque é humano. Temos tantos recursos naturais, mas o homem só encontrou o do petróleo, para explorar junto com o próprio homem. Estamos nesta vida para vivermos, para nos superarmos. E, às vezes, nos desconectamos do outro, do humano. Temos que entender que somos uno, e fazermos parte”, reitera.

Como você se conecta com Brasil?
 
Sou da primeira geração da minha família a nascer em Portugal. Minha mãe é de Angola e meu pai de Guiné-Bissau. Sou a única menina do casal, a caçula. Tive o privilégio de ficar com os nomes das minhas duas avós: Isabél e Zuaa (Susana, em quimbundo, uma língua angolana). O Brasil tem muita herança de lá, no seu vocabulário. Foi no Brasil, aliás, que senti a necessidade de compartilhar as minhas referências. Aqui trago a minha raiz, a minha ancestralidade. Expôr isso para as artes é um privilégio: acabo me conhecendo mais, me fortalecendo. O Brasil tem muito de sua memória africana. Temos trabalhado agora as memórias mais positivas. Pesavam as questões de resistência e as questões históricas. Estou feliz de fazer circular a minha africanitude. Me tocam as realidades brasileiras, africanas e portuguesas.

Como formatou a carreira, tão premiada?
 
Fiz meus primeiros trabalhos com o carioca Gustavo Ciríaco, coreógrafo. Colaborei com ele, durante cinco anos. Ao menos duas vezes no ano venho trabalhar no Brasil. Estou com o jogo de cintura de ficar um tempo lá, um tempo cá. Cinema, eu tenho feito mais no Brasil. A gente planta e passa a colher: em Portugal trabalho mais com teatro e cinema autoral independente. No Brasil é que tenho alcançado mais projeção no cinema. Fiz Kbela (de Yasmin Thayná, “uma diretora carioca, negra”) que circulou pelo mundo, ganhando prêmios. É um curta com elenco só de mulheres negras. Passamos por Nova York, Cabo Verde, países africanos; nele, canto, danço e atuo. Com Joaquim, do Marcelo Gomes, tivemos uma projeção muito grande. Colho muito deste filme onde canto em crioulo da Guiné-Bissau, a língua do meu pai e falo português de Portugal. São trabalhos que me introduzem na minha identidade e reafirmam a postura no trabalho. O Brasil está aberto e disponível e para absorver estas diferenças.

Como percebe os resgates históricos na telona?
 
Tem sido ao acaso que venho fazendo tantos filmes históricos. Trabalhos como o Passo a dois (de Jorge Itapuã), sobre capoeira, Joaquim, O nó do diabo... Filmes históricos fazem sentido para mim, quando se rompe com estereótipos. Vale quando você faz uma análise histórica, a nível artístico, e você traz um personagem que tenha uma reviravolta. O personagem da Preta (em Joaquim) é sim o de uma mulher negra, escravizada, mas que desperta a revolta no personagem de Tiradentes. Ela vai mostrar a ele o que uma revolta: ela é uma líder quilombola mulher. Para mim, faz sentido, por não corroborar com os mesmos estereótipos. Em O nó do diabo, a Luca (meu personagem) é corajosa, defende homens e mulheres. É uma negra, escrava, sim, mas ela serve como inspiração para outras pessoas.

E quanto a As boas maneiras?
 
Na Clara não há um tipo histórico, mas, mesmo sendo contemporâneo, tem resquícios de uma herança histórica. Aliás, filmes históricos são importantes, por refletirem a realidade atual. As boas maneiras mostra algumas opressões pequenos poderes hierárquicos, por parte de sua patroa branca e rica. Clara (meu papel) é negra e pobre e empregada que não terminou os estudos de enfermagem. Será contratada como babá, mas acaba sendo empregada. O filme trata de duas mulheres solitárias que criam uma relação mais afetuosa, à parte de quaisquer convenções. O afeto afetará essas duas mulheres. Depois vem o amor incondicional por um filho que nem biologicamente dela é. Ele encerra o único laço de afeto que ela tem, por ser criança tão especial.

Você dança muito em cena; entre tantos passos, demarca certo feminismo? Ainda existem tabus?

Dei aulas de dança de Kuduro e funaná (uma dança de umbigadas cabo-verdiana, parecida com o forró). Tenho tido a sorte de ter trabalhos bons. Até mesmo meus equívocos, humanamente, valem a pena. Tem sido uma caminhada de aprendizagem e crescimento. Quanto ao feminismo, a mim, sempre me falaram que eu era feminista. Na verdade, eu nem usava esta convenção do feminismo. Mas sempre me falaram que eu era uma menina que pensava de forma diferente. Eu não ficava satisfeita com o lugar que as pessoas esperavam que eu estivesse, que eu me colocasse. Sempre batalhei por igualdade, ou exaltação da mulher. Num solo que criei, há uma protagonista e a mulher negra vem como premissa há o resgate da autoestima dela. O trabalho sofreu várias modificações: foi Nha fala (a minha fala, em criolo), chamou-se Bisneta de Gundê, peguei ainda referências de Carolina de Jesus, para a dramaturgia. O feminismo agora tem um nome, mas sempre tive a postura, um lugar de viver, um lugar de falar. Acho que sempre fui feminista. Não tenho tabus concretos. Na televisão, acho que o corpo da mulher é sempre mais exposto, e o do homem está sempre protegido. Isso, para mim, não interessa; se vou fazer uma cena com alguém, tem que ser feita pelos dois. Vamos expôr os dois, ou não expomos nenhum.

Como percebe a crise brasileira, e você já enfrentou racismo?

Quando cheguei aqui, acreditei que não era uma crise econômica; era uma de identidade. As pessoas estavam começando a dizer que tinham ascendência negra, libanesa ou indígena, com orgulho, estavam formando a sua identidade. Hoje em dia, vejo que muitos não têm trabalho, vejo a violência aumentando. A discriminação não é pontual: ela é estruturada na nossa sociedade. Ela está em todas as nossas instituições. Eu, enquanto mulher, negra, artista, sofro diariamente, mas tenho o privilégio de preservar minha autoestima e de entender deste racismo. O racismo adoece as pessoas — quando vem dos nossos primeiros dias de vida e prossegue até hoje. Tenho exemplos que me acompanharam em Portugal, no Brasil. Visitando amigas, fui mal recebida pelos funcionários dos prédios; sou seguida em farmácias, fui constrangida no banco, os homens mexem comigo de modo diferente, em relação à forma como mexem com minhas amigas brancas. Isso é todo dia, e é muito triste.

Como vê a questão das cotas raciais?
 
Quando cheguei ao Brasil, entendi que se fazia necessário ter o sistema de cotas. Institucionalmente, o racismo está entranhado. Por fato de ser negro ou miscigenado, se você estiver competindo com um branco, você está em desigualdade. Fizeram até um vídeo forte. Nele, dizem, 'quem viveu com pai e mãe, dê um passo a frente'. E um tipo de pessoas dará este passo. 'Quem presente, teve que se desdobrar em dois trabalhos?'. Somente algumas pessoas darão o passo. A resposta de tudo isso está relacionada ao tipo de cor. Nelas, há vantagens e desvantagens. Quem é contra cotas é alienado e não consegue enxergar a realidade. Com um pouco de senso comum e de sensibilidade, você entende. É uma dívida histórica. Há fatores e dados muito concretos. Não faz sentido questionar o sistema de cotas. Quem critica, possivelmente, quer manter privilégios.
 

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