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Correio Braziliense

O saxofonista Branford Marsalis faz show de graça em Brasília, no sábado

Lenda do jazz, o músico é um dos autores de trilha de longa de Spike Lee


postado em 14/06/2018 07:30 / atualizado em 13/06/2018 18:11

 

Branford Marsalis tem influência da música clássica e do rock: tudo com improviso(foto: Roger Thomas Mingus/Divulgação)
Branford Marsalis tem influência da música clássica e do rock: tudo com improviso (foto: Roger Thomas Mingus/Divulgação)


 

 

     O jazz que Branford Marsalis apresenta no sábado no CCBB in concert vem de uma linhagem que dialoga com todos os gêneros musicais e extrapola fronteiras. Basta ouvir as primeiras faixas de seu mais recente álbum, Upward spiral, lançado em 2016 e que tem Kurt Elling como convidado. Há jazz ali, mas também influências da música clássica, do rock e dos mais complexos improvisos, coisa indispensável para o gênero. Marsalis ainda trabalha no repertório de sábado, mas pode ser que inclua alguma coisa de Upward spiral, assim como faixas dos 20 discos que antecedem o trabalho.

      Primeiro, o saxofonista americano sobe ao palco para um dueto com a Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro (OSTNCS). Vai tocar o Concerto para dois violinos em ré menor, de Bach. No lugar das cordas, entra o saxofone. Em seguida, faz a Fantasia para sax soprano e orquestra, de Heitor Villa-Lobos. É uma canja do que o músico é capaz. Marsalis cresceu no mundo da música clássica, mas o jazz sempre esteve presente.

      Nascido em Nova Orleans há 57 anos, filho do pianista de jazz Ellis Marsalis Jr e irmão do trompetista e compositor Wynton Marsalis, ele começou a aprender clarineta ainda menino. Aos 14, percebeu que as meninas gostavam de frequentar boates nas quais tocavam bandas formadas por muitos instrumentistas. No palco, no entanto, nenhum clarinetista. Em compensação, havia muitos saxofonistas. “Consegui um sax alto no mesmo ano”, conta. Mas o jazz já estava na vida do artista há muito tempo, graças à família, uma das mais conhecidas da música contemporânea norte-americana.

      A diversidade do universo musical no qual cresceu moldou a versatilidade de Branford. Tocar com orquestras é uma coisa comum em sua carreira – ele já foi, inclsuive, diretor artístico da Sinfônica de Cincinnati –, assim como parcerias nos mais variados gêneros. Amigo de infância de Harry Connick Jr, com quem já gravou e se apresentou muitas vezes, chegou a tocar com lendas do naipe de Miles Davis, Dizzy Gillepsie, Herbie Hancock e Sonny Rollins, além de ter participado de turnês de Sting e Grateful Dead. É dele, e de seu quarteto, a trilha do filme Mais e melhores blues (1990), de Spike Lee. Quartetos são sua especialidade – com o pianista Joe Calderazzo ele mantém um grupo desde 1986 –, mas há mais que isso na trajetória e um bom exemplo do que ela representa está em In my solitude, primeiro disco solo do saxofonista, registro de uma apresentação na Grace Cathedral, em San Francisco. 

      Sobre tocar com orquestras especializadas em música erudita, ele tem uma teoria. “Na maioria das outras formas de fazer música, a expressão pessoal é mais importante que passar uma mensagem. Músicos podem até não tocar muito bem, ou não cantar bem, e fica tudo OK”, explica “Na música clássica, entregar a mensagem é tão importante quanto a própria mensagem, então é preciso dedicar vários anos à prática específica para ser bom o suficiente para tocar com a orquestra. Isso me tornou um saxofonista muito melhor e um músico muito melhor.” E o clássico ajuda na prática do jazz. Ficar longe dos padrões das escalas alimenta a criatividade.

       Segundo Branford, aprender novos estilos faz a banda tocar de maneira mais orgânica e sem discussões, dá liberdade para o trânsito entre os ritmos e instrumentos e facilita o trabalho. É o que ele prega para os músicos do quarteto. “Nós tocamos de maneira mais dinâmica do que a maioria das bandas de jazz. Além disso, temos uma maneira orgânica de criar tensão na música. Por escutarmos, nunca discutimos. Apenas acontece”, garante. “Ao aprender um novo estilo, a maneira como você ouve música muda.”


CCBB in Concert com a Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional e Branford Marsalis

Sábado, a partir das 16h, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB – SCES, trecho 2). Entrada franca. Classificação indicativa livre


TRÊS PERGUNTAS PARA BRANFORD MARSALIS

Quais as diferenças e afinidades entre eles?

O maior problema em tentar tocar outros estilos musicais é a inabilidade em deixar de lado um sistema que você conhece para adotar uma nova forma de pensar, o que te conduz para uma nova forma de tocar. Essa é a barreira e ela está, principalmente, na nossa cabeça. Você pode se libertar dessa barreira e isso leva anos de escuta e aprendizado do som da música que está tentando tocar. De certa forma, os dois gêneros são similares. Os dois utilizam a escala ocidental, então são as 12 notas. Grandes músicas têm grandes melodias. Mas a parte difícil é aprender o som de diferentes estilos musicais. Escolas de música tendem a focar no sistema harmônico que envolve a música, mas o som é a coisa mais importante para mim. Quando uma pessoa se emociona pelo que estamos tocando raramente é por causa do sistema que estamos usando. É o som que as comove.

Você já tocou com Sting, Grateful Dead e Harry Connick Jr. São estilos muito diferentes. Como isso é importante para você?

Eu cresci tocando música clássica, depois R&B e rock. Formei em jazz aos 20 e poucos anos. Nunca pensei em quão importante isso era. Queria tocar com grupos diferentes e sabia que teria mais chance se aprendesse a tocar o estilo de todos esses grupos. A razão pela qual transito bem entre todos esses caras é porque entendo como eles tocam e o estilo de música com o qual lidam. Isso acontece especialmente com Harry (Connick Jr.). Nós crescemos em Nova Orleans e temos um estilo e ritmos únicos para nos Estados Unidos.

Sua experiência como diretor musical do Tonight Show Starring Jay Leno o ajudou na carreira musical?

Na verdade, foi o contrário. Toda a música que aprendi me ajudou muito no trabalho com Jay. Quando você deixa um show na tevê, os fãs desse show não vão seguir você. Foi uma coisa divertida de fazer, eu aprendi um monte e não me arrependo dessa experiência. Mas sou um músico muito melhor do que seria se tivesse ficado na tevê. 

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