Publicidade

Correio Braziliense

Ignácio de Loyola Brandão fala de um futuro distópico

O novo romance já está em fase de revisão e deve sair em agosto


postado em 16/06/2018 07:30 / atualizado em 18/06/2018 12:13

(foto: Leticia Gullo/Divulgação)
(foto: Leticia Gullo/Divulgação)
 
 
Lá pela página 25 de Não verás país nenhum, o narrador introduz o leitor ao que aconteceu ao Brasil: “As casas sumiram, edifícios dominaram tudo, os espaços ficaram caríssimos devido à intensa especulação imobiliária. Tudo produto da Grande Locupletação, quando o país foi dividido, retalhado, entregue, vendido, explorado. Tenho medo de pensar nisso. Medo de falar com alguém a respeito”. Ignácio de Loyola Brandão publicou o romance em 1981, seis anos depois de Zero, que trata da ditadura. Não verás é uma distopia sobre uma terra arrasada e uma sociedade despedaçada. Tem muito a ver com a destruição das instituições e da autoestima causada pela ditadura. Uma espécie de consequência da opressão.

Assim como o narrador, há 37 anos, Ignácio de Loyola segue com medo. E é quase o mesmo de seu personagem. “O que me dá medo é meus filhos e meus netos não terem um país. Eu me aproximo do fim, não tenho medo, uma hora vamos morrer todos. Eu sei que meu tempo está encurtando, não me incomodo com isso. Mas tenho medo do que vai ser da vida desses jovenzinhos”, diz.

Para combater o medo, ele escreve. “Para me salvar”, brinca. E nessa de se salvar e não enlouquecer, ele escreveu Desta terra nada vai sobrar a não ser o vento que sopra sobre ela, romance ainda em fase de revisão e que deve ser publicado em agosto. Em entrevista pouco antes de embarcar para Brasília, onde veio participar da 34ª Feira Internacional do Livro, o escritor disse que falaria pouco sobre o novo romance. Não queria decepcionar o leitor, privá-lo da descoberta. Acabou falando um pouco mais do que o pouco planejado.

Desta terra nada vai sobrar a não ser o vento que sopra sobre ela é uma distopia, se passa num futuro não muito distante e tem muitos dos elementos que fizeram de Não verás país nenhum uma referência da literatura nacional. A política brasileira está dividida em 1.082 partidos e cada um tem direito à Presidência por um mês. “Mas todos não presidem nada”, avisa o autor. A capital mudou tantas vezes que não se sabe ao certo qual sua localização no tempo em que a narrativa toma forma: pode ser Acre, Rondônia ou Roraima.

O Supremo está encerrado em um prédio de granito preto inviolável e há um certo mistério quanto à entrada ou saída de juízes. As transmissões dos julgamentos são constantes, mas a população não entende absolutamente nenhuma das palavras ditas pelos protagonistas da corte. Na verdade, o que se vê ali é um simulacro, e uma surpresa está guardada para o final. “É o livro mais louco que já escrevi. Azar. Quando escrevi Zero e Não verás, pensei que ninguém ia ler. Agora, gostaria que lesse o próximo”, avisa. “De repente, penso que fiz uma trilogia, sem saber.”

Projetos

O último romance de Ignácio de Loyola foi publicado há 12 anos. De lá para cá, só saíram livros de crônicas e infantojuvenis, uma coisa que o autor gosta muito de fazer. Nascido em Araraquara (SP) há 82 anos, ele não hesita em aceitar convites do país inteiro para falar em eventos dedicados aos livros. É praticamente um ativista da literatura e acredita nesse contato com os leitores, sobretudo os jovens, como forma de estímulo à leitura. Num país de poucos leitores, autores assim são um alívio.

“Faço isso exatamente por causa desses índices de leitura. Vale a pena. Daqui a algum tempo talvez tenha mais feira, talvez tenha mais leitura. Mas tem que começar cedo, muito cedo. Teria que começar em casa, mas os pais leem cada vez menos, quando não leem nada”, lamenta. “Tem um conjunto de circunstâncias que envolvem crianças e jovens que se afastam da leitura. A escola seria o segundo ponto. Ela é determinante. Eu aprendi a ler com professores e meio que sou escritor por causa deles.”

Na verdade, foi em casa que Ignácio de loyola aprendeu a ler. Com o pai, um ferroviário muito simples que saía do trabalho e ia direto para casa colocar a lenha no fogão. Enquanto a mulher cozinhava, ele lia. “Sempre falo no meu pai e tava esquecendo dele. Ele comprava livros, tinha mil livros nos anos 1940, acho que tinha mais que a biblioteca municipal. Eu o via lendo e achava curioso, porque os outros pais chegavam do trabalho e iam para o bar, se reuniam na barbearia. Meu pai ia direto pra casa, tomava banho, sentava e lia. Na minha cabeça, ficou ‘o que é mágico nisso?’. E ele passou isso pra mim”, conta.

No livro mais recente, Os olhos cegos dos cavalos loucos, lançado em 2016, é a família que vem para a ficção de Ignácio de Loyola. A história do menino que pega (e perde) um objeto caro do avô levou 70 anos para ganhar o papel e é um pedido de desculpas. No início do século 20, o avô do autor construiu um carrossel em madeira com o qual animava as praças das cidades do interior de São Paulo. A atividade ajudava na renda familiar. Um dia, o carrossel pegou fogo e o avô guardou as bolinhas de gude que serviam de olhos aos cavalos. As peças ficaram como uma lembrança de uma tragédia, mas também de um tempo bom.

Certo dia, o menino Ignácio desobedeceu a ordem de não tocar na caixinha com as bolas. Levou todas para a rua, jogou e perdeu. “E ele, quando descobriu, ficou muito deprimido, quase morreu. Minha avó contou. Tentei, desde os 20 anos, escrever essa história. Livro é pra isso também: terapia, catarse. Já escrevi um livro até para tentar seduzir uma mulher”, conta. O beijo não vem da boca (1985) não chegou a trazer a companheira de volta, mas ajudou o autor a seguir adiante, destemer o amor e encontrar a arquiteta Márcia Gullo, com quem é casado.


Entrevista  /  Ignácio de Loyola Brandão



Faz sentido ainda eventos literários em um país de tão poucos leitores?
Faz sim. Recentemente, fiz uma palestra em Póvoa do Varzim, cidade próxima ao Porto, onde nasceu Eça de Queiroz. Nessa cidade, todos os anos, tem um evento que se chama correntes de escritas e vão uns 100 escritores de língua portuguesa e espanhola, do mundo inteiro. Eu fiz a palestra de abertura e falei, justamente, da importância dos professores. Hoje, o ensino como está, é um desastre que não tem solução porque não tem ministro e não tem verbas. E agora, com a coisa da segurança, Temer tirou dinheiro da saúde e da educação. Não tem interesse, continua a se querer manter um analfabetismo, uma ignorância para dominar. O que a ditadura fez, foi ir derrubando a escola. Eu estudei numa escola excelente, meu ginásio e meu científico valeram por uma universidade. Eu tinha 13 matérias eliminatórias. Eu sei que isso é o passado, que o mundo mudou todo.



Qual o lugar da literatura na sociedade brasileira?
Desapareceram os suplementos literários, as páginas dedicadas à literatura. E quando vejo lista de mais vendidos, me dá um desânimo! É tudo livro de autoajuda, de ser feliz, pra regime, dieta, beleza. Agora literatura, não há nenhuma colocação. E me pergunto também (qual o lugar). Só que aí digo, para mim mesmo, que vou continuar fazendo isso que faço há 30 anos, de ir para todos os lugares, porque tem um grupo fazendo, tem pessoas fazendo. Tem focos isolados de resistência, como havia, durante a guerra, focos contra o nazismo e contra o fascismo. Temos essa resistência e acredito nela. E se a gente parar, vai piorar. Estou com 82 anos e fui, recentemente, a Cuiabá, Campo Grande, Rondonópolis, Marabá, Brasília. E continuo indo. Tudo falando sobre literatura.



Estas listas de livros de mais vendidos, o que eles dizem sobre o Brasil?
Isso fala de uma sociedade mundial vaidosa, superficial, que quer as grifes, o consumo e é estimulada por publicidade. E também temos hoje essas redes…. Quem é lido hoje? Essas meninas youtubers. A bienal passada e a próxima prometem esses tubers seguidos pelos gritos de milhares de menininhas e menininhos. E aí, um monte de autores sérios de boa literatura ficam lá sozinhos numa sala. Você vai dizer que é inveja. Mas não sinto inveja, sinto é que a mediocridade está aí. E isso é que me apavora. A mediocridade está na política, na economia, no Executivo, no Legislativo, no Judiciário, que a gente não aguenta mais.



Como a distopia ambiental de Não verás país nenhum e a ditadura de Zero têm a ver com a realidade de hoje?
O Zero era a ditadura. Censura, tortura, morte, violência. A violência tá aí. Não é praticada por militares e sim pelas milícias. Tem que saber que quem está comandando as coisas hoje são as milícias. O marginal é que manda nesse país. E quando a gente tem o presidente mais frágil, mais sem ideias, fica difícil. No meu livro, vários presidentes não têm cérebro. Quem sabe esse que está aí não tem cérebro também? É um livro muito irônico, muito violento. Eu, ao mesmo tempo, me entristeci e me diverti ao escrever.



Você falou em violência e corrupção no Brasil de hoje. O que acha que vai ser do país? Tem esperança?
Esperança é uma bobagem que a gente alimenta. Mas se eu perdesse a crença de que tudo pode mudar, eu daria um tiro na cabeça. Agora, eu também não dou um tiro porque escrevo. Escritura é a minha salvação, fico flutuando nesse mar. Mas nunca vi o país nessa situação. Eu sei que o mundo mudou, a gente tem Temer, mas os Estados Unidos têm Trump e a Coreia do Norte tem aquele boneco inflável que acabou sendo um estadista. É muito louco! Olha o mundo! Você entende? Mas tem umas coisas positivas, como o movimento das mulheres contra o assédio, contra a discriminação. Cresceu muito. E por que não mudarmos? A coisa não se faz de um momento para o outro. Lembro de uma frase do Antônio Cândido que dizia “eu vivi uma época, a minha época. Depois vivi outra, em que tudo começou a se transformar. E agora não entendo nada”. Ele disse isso pouco antes de morrer.



O absurdo anda perdendo para arealidade?
O absurdo é mais que a realidade. Tem um momento, no livro, com meu personagem, que a mulher deu um pé na bunda dele. Está na primeira linha. E ele, no desespero, alucina e fica andando pelo país. Em determinado momento, ele começa a andar numa terra esquisita, que não passa da lama da barragem de Mariana, e senta do lado dele o Euclides da Cunha. Absurdo não existe para mim. Se absurdo existisse, o Kafka não teria escrito Metamorfose. Uma hora, na conversa, Euclides da Cunha diz, observando Canudos, com tiros e gente morta caindo, que ninguém mais se importava porque a anormalidade tinha se estabelecido como normalidade. Isso define o Brasil e meu livro.



Por que você escreve?
Escrevo para não enlouquecer. Para me divertir também, e para ter prazer. Tenho um prazer imenso em escrever. Escrevo para me salvar. Mas me salvar do quê? Será que alguém sabe por que escreve, por que faz música? Porque alguma coisa empurra a gente.
 
 
 
 
 

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade