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Correio Braziliense

Caixa apresenta novas traduções de quatro peças de Henrik Ibsen

Diretor e escritor é considerado um dos inventores do drama moderno


postado em 23/06/2018 07:05 / atualizado em 22/06/2018 19:30

Henrik Ibsen: os debates que ele deflagrou no teatro permanecem atuais(foto: A&E Biography/Divulgação)
Henrik Ibsen: os debates que ele deflagrou no teatro permanecem atuais (foto: A&E Biography/Divulgação)

 
O dramaturgo norueguês Henrik Ibsen (1828-1906) teve um leitor ilustre e apaixonado no Brasil:  Nelson Rodrigues. O nosso profeta do óbvio viveu na pele o drama da solidão extrema em face da estupidez da opinião pública, tema central da peça O inimigo do povo (1882), uma das obras-primas de Ibsen. Agora, chega em nova tradução de Leonardo Pinto Silva uma preciosa caixinha com quatro peças de Ibsen: Um inimigo do povo, Espectros, Hedda Gabler e Solness, o construtor (Ed. Carambaia)

Ibsen é um dos inventores do drama moderno. Polêmico, crítico e provocador, ele colocou no centro do debate as grandes questões do seu tempo.  Começou na linha do romantismo, tornou-se um mestre do realismo e, na parte final da vida, enveredou pela busca da síntese poética. Em todas as fases, ele se revela um dramaturgo da cabeça aos sapatos, um poeta do palco capaz de erguer diante de nossos olhos cenas de alta voltagem dramática.

A obra de Ibsen é profundamente autobiográfica. Ele nasceu em uma família rica, mas, que, de repente, perdeu tudo e foi morar no campo. Animado pelo espírito de independência, Ibsen decidiu se mudar sozinho para uma cidade pequena, trabalhou em uma farmácia e alimentou o sonho de ser médico. Neste ínterim, escreveu várias peças, que permaneceram em círculo restrito.

O projeto da faculdade de medicina  fracassou, mas o destino colocou Ibsen na direção artística de um pequeno teatro na cidade de Bergen. Era a oportunidade que precisava para abraçar de vez o teatro. Ao longo de cinco anos,  dirigiu 145 peças e escreveu quatro. A experiência bem-sucedida o levou de Bergen até a capital Oslo para dirigir o Teatro Norueguês. No entanto, a companhia faliu, Ibsen deu adeus às ilusões românticas e enveredou pela linha da discussão polêmica das grandes questões sociais.

As peças de Ibsen são povoadas pela presença de figuras femininas de personalidade forte. Espectros (1881) discute o tema da violência doméstica. Helene Alting, a matriarca da família,  tem a estatura das grandes personagens trágicas. Encara com tenacidade o legado de problemas deixados pelo marido. Um deles é a sífilis, transmitida ao filho Osvald, que o arrastou à loucura. A vida sexual errática teve outra consequência: o nascimento de Regine, filha de uma relação fora do casamento.

Ibsen pagou um alto preço pelo fato de tocar em temas delicados e interditados na época: incesto, abuso sexual, doenças venéreas e eutanásia. A obra provocou terrível escândalo e foi censurada em vários países.

A reação desrazoada e truculenta a Espectros provocou Ibsen a escrever O inimigo do povo (1882). A peça é muito bem estruturada. Ela encena o drama do protagonista, doutor Stockmann, sabotado pelos cidadãos depois de denunciar a contaminação do balneário que sustenta a cidadezinha do interior.

Ao defender o interesse público, o doutor Stockmann se torna cada vez mais isolado e solitário. A narrativa de Um inimigo público inspirou Dias Gomes a compor a trama da telenovela Roque Santeiro, adaptada para o nordeste brasileiro.

Os diálogos ágeis de Ibsen assumem, por vezes, um tom ensaístico: “Farei grandes revelações, meus concidadãos!”, diz o doutor Stockmann: “Desejo compartilhar com os senhores uma descoberta sem precedentes. Não se trata do envenenamento da nossa tubulação de água, tampouco da localização dos nossos banhos sanitários em solo pestilento”. Muitas vozes: (aos brados) Não fale dos banhos! Não queremos ouvir. Não diga nada sobre isso”.

Mas o Dr. Stockmann não se intimida: “Como disse, em vez disso tratarei dessa grande descoberta que fiz recentemente. Descobri que todas as nossas fontes morais estão envenenadas e toda a nossa sociedade repousa sobre o solo pestilento da mentira”. A peça é de uma atualidade impressionante para os tempos pós-modernos em que impera o populismo e espírito de rebanho sobre o espírito público: “Pessoas estúpidas perfazem a maioria esmagadora em todos os cantos do planeta. Mas nem o diabo jamais me haverá de convencer de que é certo que os néscios reinem sobre os sábios”.

Hedda (1890) volta a mergulhar na alma feminina. A protagonista é uma mulher impregnada da soberba, da crueldade, do egoísmo e da gratuidade das classes superiores. Seduz Lovborg, um homem fraco, e provoca a sua destruição com o suicídio. Ibsen coloca a desumanização no centro do debate: “Para além de um estudo da psique feminina, uma outra leitura do texto permite ver a personagem-título como a personificação de certa elite, intelectual, política ou econômica, que, ao se julgar superior ao restante dos homens, se afasta de sua própria humanidade”, escreve o crítico Aimar Labaki, no pósfácio.

Em 1891, Ibsen voltou a morar na Noruega, depois de um longo exílio em vários países da Europa. A perspectiva do fim da vida o leva a afastar-se progressivamente do realismo no rumo de uma visão poética e existencial. Solness, o construtor (1892), tematiza os conflitos da consciência nas relações amorosas. Mesmo sem se separar da esposa Suzannah Thoresen, Ibsen se envolveu em relações platônicas com mulheres mais jovens. Como se vê, a obra de Ibsen permanece contundentemente atual.


Henrik Ibsen

Caixa com as peças O inimigo do povo, Hedda Gabler, Espectros e Solness, o construtor/Ed. Carambaia


Trecho (O inimigo do povo)



"Muitas vozes (aos brados): Não fale dos banhos! Não queremos ouvir. Não diga nada sobre isso.

Dr. Stockmann: Como disse, em vez disso tratarei dessa grande descoberta que fiz recentemente. Descobri que todas as nossas fontes morais estão envenenadas e toda a nossa sociedade repousa sobre o solo pestileto da mentira.

Aslaksen O moderador pede que o orador retire as palavras irrefletidas que acaba de proferir.

Dr. Stockmann:  Jamais nesta vida, senhor Aslaksen. É a grande maioria da nossa comunidade que me tolhe a liberdade e quer me proibir de dizer a verdade.

Hovstad A maioria tem sempre a razão a seu lado.

Billing E também a verdade, por Deus!

Dr. Stockmann: A maioria nunca tem a razão a seu lado. Jamais, estou dizendo! Essa é uma daquelas mentiras sociais contra as quais um livre-pensador deve se rebelar. Quem constitui a maioria dos habitantes de um país? São os sábios ou os néscios? Arrisco-me a dizer que numa coisa concordamos. Pessoas estúpidas perfazem a maioria esmagadora em todos os cantos deste planeta. Mas nem o diabo jamis me haverá de convencer de que é certo que os néscios reinem sobre os sábios.

Tumulto e gritos.

Dr. Stockmann: Sim, é isso. Podem muito bem abafar minha voz aos berros. Mas não me podem contradizer. A maioria detém o poder, infelizmente. A razão, contudo, não a possui. A razão a tenho eu e alguns outros poucos indivíduos. É a minoria quem sempre tem a razão.

Dr. Stockmann: Pois quais são as verdades em torno das quais a maioria costuma se agrupar? São aquelas verdades tão envelhe
cidas que já se encaminham para a decrepitude. Quando uma verdade se tornou assim tão velha, porém, está a meio caminho de se tornar uma mentira, meus senhores."
 
 
 
 
 
 


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