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Correio Braziliense

Feminismo negro é tema de livro da filósofa Djamila Ribeiro

"Quem tem medo do feminismo negro?" reúne ensaios sobre gênero e raça


postado em 30/06/2018 07:30 / atualizado em 29/06/2018 18:55

Djamila Ribeiro reúne ensaios sobre feminismo negro(foto: Arquivo Pessoal)
Djamila Ribeiro reúne ensaios sobre feminismo negro (foto: Arquivo Pessoal)

Quando pensa na pergunta que dá título a um de seus artigos — “Quem tem medo do feminismo negro” — a filósofa Djamila Ribeiro não tem exatamente uma resposta. O texto foi escrito e publicado em 2015. Nele, a autora explica as origens do feminismo negro e aponta que obras sobre questões de gênero raramente falam sobre a situação das mulheres negras. É sintomático, segundo Djamila. Para ela, é preciso resistir à “tentação da universalidade”, porque ser universal, nessa questão, é também excluir.

O texto dá título à reunião de 34 escritos que a filósofa acaba de lançar e que foram publicados ao longo dos últimos quatro anos na internet e em jornais e revistas. “Fui selecionando aqueles que dialogavam mais com as propostas do livro, aqueles em que trabalhava conceitos importantes do feminismo negro como interseccionalidade, empoderamento, em que discutia a questão do racismo estrutural e institucional e que, de alguma forma, trouxesse elementos que não apenas respondessem a questões cotidianas”, conta.

O racismo no humor e no futebol, a combinação entre discriminação e machismo e como isso afeta uma boa parcela da população, colocando as mulheres negras em situações dramáticas de desigualdade, a importância das cotas sociais e o lugar de fala são alguns dos temas abordados nos textos. Muitos deles são uma tentativa de explicar e explicitar a necessidade de se discutir especificamente o feminismo negro. “As pessoas pensam que, quando a gente fala de feminismo negro, a gente está dividindo e não entendem que a sociedade já é dividida. Racismo, sexismo, questões de classe já dividem a sociedade colocando as mulheres negras numa situação de vulnerabilidade”, aponta Djamila. “É só a gente olhar as pesquisas. No Brasil, não tem como fazer um debate sério sobre desigualdade sem enfrentar o racismo como um elemento estruturante da sociedade.”

No prefácio de Quem tem medo do feminismo negro?, Djamila conta um pouco da própria história. A discriminação na infância e na adolescência estão entre as maiores violências sofridas pela filósofa. Filha de um estivador, ativista e comunista, ela sempre esteve em contato com as lutas do movimento negro graças ao pai, dentro de casa. Na rua, no entanto, o cenário era cruel. O contato com grupos engajados nas lutas de gênero e raça se deu muito cedo, ainda na adolescência.

Hoje, aos 37 anos, Djamila é uma das vozes da consciência negra feminina no Brasil. Mestre em filosofia política, é uma das ativistas mais celebrada no movimento feminista negro brasileiro. Sua forte atuação nas redes, um espaço que acredita ser mais receptivo às questões de gênero e raça do que a mídia tradicional, inclui posts nos blogs Azmina e Blogueiras negras, além de coluna no site da Carta Capital.

Quem tem medo do feminismo negro no Brasil?
Essa pergunta é uma maneira de suscitar o debate quando as pessoas não entendiam quais eram as propostas do feminismo negro, que na verdade não era pensar só as questões só das mulheres negras. Ao contrário. São mulheres negras pensando em modelos alternativos de sociedade. Fiz esse questionamento para provocar as pessoas a entenderem e lerem mulheres negras, a entenderam essa produção. Quem vai me responder quem tem medo são elas mesmas. A pergunta é uma provocação para o fato de o quanto o Brasil é um país que não conhece a produção epistemológica de mulheres negras.

Ao mesmo tempo em que falamos muito mais na questão do feminismo e do racismo, as conquistas estão sendo perdidas. Como evitar isso?
Não enxergo a história como algo linear e acho que todo momento histórico tem suas perdas e seus retrocessos. É aquilo que a Beauvoir fala: os direitos nunca são efetivamente nossos, a gente pode perder. Em qualquer momento de crise a gente pode perdê-los, deixar de tê-los. É isso que a gente vive hoje no Brasil, um momento de profunda crise em que poucos avanços que a gente teve nos últimos anos acabam se perdendo ou sendo os primeiros a serem rifados. Haja vista a PEC da educação, que congela os investimentos em educação e saúde, e todos os cortes que estão acontecendo nas universidades. A primeira coisa que se perde quando eles dizem que estão em crise são os direitos sociais. A história se repete e a gente não pode deixar de estar vigilante em relação a nossos direitos conquistados. Eles nunca são realmente conquistados.

E qual o lugar dos movimentos sociais nesse cenário?
De muitíssima importância. É fundamental o trabalho dos movimentos negros feministas no sentido de pressionar o poder público para que a gente consiga acessar certos direitos, mas também no sentido de promover uma transformação de mentalidades. Nesse sentido, os movimentos sociais são fundamentais para dar elementos para refletir criticamente sobre nossa realidade. Não é o fato de ser mulher que faz com que a gente tenha consciência do machismo. Quando a gente encontra um movimento feminista, um coletivo, a gente começa a entender isso e entende qual é a nossa realidade política enquanto mulher. Isso tem um papel fundamental na sociedade. Foi um movimento que me fez entender quais eram as consequências do machismo e do racismo e me fez querer lutar contra isso.

Você falou que o movimento feminista não é homogêneo. Isso é bom? 
Acho que é positivo porque as pessoas são diversas. Não dá para buscar uma unidade porque as pessoas têm perspectivas políticas diferentes, elas partem de pontos diferentes. É importante, quando você tem toda essa gama de pluralidades — não é só do movimento feminista, é o movimento negro, o das esquerdas. E mesmo os movimentos conservadores. As pessoas não partem das mesmas visões. É importante a gente conseguir enxergar outras realidades que muitas vezes a gente não consegue enxergar. Só fui entender algumas pautas de mulheres indígenas quando fui ouvir essas mulheres. O desafio é como a gente consegue interligar essas lutas criando pontes de solidariedade e não fazer como muitas vezes feministas brancas historicamente fizeram, de só pensarem nas suas questões e não romperem com a lógica de opressão de outros grupos.

Há mais manifestações de preconceito ou só ficamos sabendo delas? 
O Brasil foi fundado no racismo, no machismo, isso sempre existiu. Talvez hoje, a gente consiga ter mais elementos para enfrentar isso ou essas denúncias são mais visíveis. Hoje, nosso país foi o último do mundo a abolir a escravidão e enfrentou mais de 20 anos de ditadura. Talvez, vivendo numa democracia, por mais que seja falha, a gente consiga ter elementos para enxergar isso melhor. As pessoas estão se conscientizando mais do que é racismo, machismo, e denunciando mais a partir disso.

Até quando precisaremos explicar que a escravidão e suas consequências são responsáveis pelas desigualdades de hoje? O que é preciso para essa narrativa ser realmente compreendida?
Enquanto o Brasil, de fato, não enfrentar esse debate, não criar políticas públicas importantes na educação e na saúde. Claro que a gente avança com movimentos sociais e outras frentes, mas a gente demora muito mais para atingir quando a gente não tem vontade política e um olhar dos gestores para enfrentar esses problemas. Precisamos criar meios para enfrentar as dificuldades e fazer o debate, que é o mais urgente no Brasil hoje: o da violência contra jovens negros nas periferias. Precisamos pensar uma outra segurança pública, o estado precisa pensar territórios como as favelas. E não de forma criminalizada, porque o estado só chega na forma de repressão, mas não chega na hora do investimento em educação, no investimento social, em saneamento básico.

Você é otimista em relação a isso,com as eleições aí e os próximos quatro anos?
Olha, eu não costumo ser tão otimista, mas acho que agora a gente está vivendo um momento muito complicado. O que eu penso é que não tem como a gente desistir da luta. Se a gente vai conseguir mudanças mais rápidas ou vai demorar mais tempo, isso é uma coisa que não podemos prever, mas acho importante a gente ter o foco na luta. A Angela Davis fala que uma geração, muitas vezes, não vai ver as mudanças na própria geração. Acredito muito nisso, na não desistência, no seguir lutando para que, pelo menos, as próximas gerações consigam experienciar uma realidade não tão violenta quanto a que a gente experiencia.

O brasileiro está realmente mais politizado?
Acredito que, em parte, sim. O trabalho dos movimentos sociais e dos movimentos populares nos últimos anos refletem uma maior consciência. E é justamente por isso que a gente também tem um ataque que parece maior em relação aos preconceitos e pessoas reacionárias. Essa reação vem muito por conta de termos avançado em alguns aspectos. Não acredito em onda conservadora, acho que a gente teve uma marola progressista nos últimos anos e o conservadorismo vem para tirar isso, pra voltarmos à estaca zero. Mas acredito que, de certa maneira, sim.

Você diz, em um texto: “O futebol é o reflexo do racismo presente na sociedade”. Hoje mais do que nunca?
O racismo está presente na sociedade; então todos os espaços vão estar também presentes com racismo. O futebol não é diferente. A gente percebe, na transmissão da Copa, um desrespeito e uma ignorância dos narradores sobre países africanos. É sempre uma narrativa de colocar os países africanos como menores, como inferiores. Exaltam a qualidade dos países europeus mas, quando falam dos países africanos, é sempre ligado à negatividade, à violência ou colocando os jogadores negros como emocionais, nunca racionais. Essas construções foram criadas pelo racismo e ainda estão muito presentes ainda.

Para você, qual a mudança mais importante em relação ao racismo e ao feminismo do fim do século 20 para cá?
Acho que é ter colocado o tema no debate público. Isso é uma grande vitória. Hoje, pelo menos, a gente consegue falar sobre isso em mídia nacional. Têm outros ganhos, como as políticas afirmativas nas universidades. Existe um maior número de pessoas negras nas universidades, de mulheres negras pensando essas questões e construindo isso dentro do espaço acadêmico, que ainda é um espaço muito elitista. Acho que o número crescente de coletivos feministas, de mulheres discutindo isso, pautando isso é um ganho, por mais que se tenha tentado, nos últimos anos, colocar o feminismo como algo ruim, de mulher mal-amada. No Brasil, a grande vitória foi ter colocado esse tema no espaço público.
 
Quem tem medo de feminismo negro?
De Djamila Ribeiro. Companhia das Letras, 148 páginas. R$ 29,90 

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