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Correio Braziliense

Fogo cruzado, truculência e realidade social dominam longas nacionais

O filme Tungstênio é um dos exemplos


postado em 04/07/2018 06:40 / atualizado em 04/07/2018 06:30

Tungstênio: mais realidade, no sexto longa do pernambucano Heitor Dhalia(foto: Paranoid/Divulgação)
Tungstênio: mais realidade, no sexto longa do pernambucano Heitor Dhalia (foto: Paranoid/Divulgação)

Ainda que pese bastante a sofisticação dos quadrinhos de Marcello Quintanilha, na adaptação feita pelo cineasta Heitor Dhalia, para a telona, de Tungstênio, são fatores mais crus que chamam a atenção na obra lançada, há pouco, nos cinemas: violência, submundo e uma pegada convulsiva. “Com uma câmera na mão, acho que sugamos o espectador para dentro do filme”, reforça o diretor conhecido por filmes como O cheiro do ralo (2007) e Serra Pelada (2013). Dhalia aponta Quintanilha como forte inspiração para a montagem que cadencia o longa, ainda enfatizando a admiração por este “grande cronista que tem a marca da genialidade”. Tungstênio, inegavelmente, investe em elementos que, algo adormecidos, têm encontrado espaço para um ressurgimento na telona: a violência e personagens desvalidos.

“No Brasil, estamos numa situação de tensões sociais que se acumulam. O cinema reflete isso. Não estamos mais na era da pujança econômica: temos velhos problemas que merecem novos enfoques na tela, com uma população mais desesperançada”, opina o diretor. Na trama de Tungstênio, quatro personagens agem, aos sobressaltos. Numa ponta está um policial com separação conjugal iminente e, noutra, um traficante e um ex-sargento do Exército brasileiro. “Filmei há um ano e meio, e me assusta ainda o saudosismo pela ditadura ter despontado. Criei, no filme, um personagem alegórico, gerido com carga irônica e que, atualizado, na vida real, agora existe. Ele é real”, espanta-se Dhalia.

Antes das filmagens, o diretor idealizava uma Bahia mais acolhedora e simpática do que a encontrada para situar o enredo de Tungstênio. “Deparei-me com um lugar que trazia aglomerados do tipo 60 pessoas de facções de gangue no Forte de Nossa Senhora de Monte Serrat. Não são coisas inventadas, trata-se de uma realidade cotidiana. Apesar de privilegiado, sempre percebi a pobreza e a exclusão, desde a infância, nos anos de 1970, com o Brasil bruto total. No Recife, agora, a chapa está completamente quente. Fui criado lá e lembro que 70% da cidade era favela. O Recife está muito tenso. Mas a situação não é exclusiva ou acirrada apenas no Norte ou no Nordeste. O Brasil tem andado para trás, com instituições deterioradas e muitas intenções em jogadas políticas”, avalia o cineasta.

O diretor Heitor Dhalia em cruzada pela exposição de pólvora(foto: Paranoid/Divulgação)
O diretor Heitor Dhalia em cruzada pela exposição de pólvora (foto: Paranoid/Divulgação)


Ex-morador, por 23 anos, de Pernambuco (mas nascido no Rio de Janeiro), Heitor Dhalia não se limita a apontar, no cinema, apenas as mazelas decorrentes das diferenças sociais muito acirradas. “Mostro sim o racismo estrutural, mas, ao mesmo tempo, enfatizei traços do novo ativismo que combate ideias ultrapassadas. Especialmente, revelo a força feminista das mulheres negras que, se já foram vistas como ‘a carne mais barata do mercado’ — ou melhor, a linha mais suscetível ao preconceito e de vivência mais difícil. Mas elas mudaram quadros”, comemora o cineasta.

Tráfico esquadrinhado
Codiretor do documentário Sobrevivi ao holocausto (2012), o cineasta Caio Cobra lidera o longa Intervenção, ainda com filmagens em andamento no Rio de Janeiro. Na trama criada pelo mesmo profissional de Tropa de Elite, Rodrigo Pimentel, o longa junta temas como segurança pública, tráfico, milícias, ONG e UPPs. Filmado, em parte, na comunidade pacificada de Tavares Bastos, o filme traz Marcos Palmeira, Zezé Motta e Rainer Cadete no elenco. Na trama, Bianca Comparato vive a soldado Larissa, recém-integrada à Polícia Militar, e que começa a tomar consciência da relatividade de valores, quando interesses de políticas públicas se confrontam.

Outros filmes em 2018


O nome da morte (estreia em 2 de agosto) 
• Mesmo diretor do filme sobre a injustiça que cercou o protagonista, na vida real, do longa Jean Charles (2009), Henrique Goldman conduz O nome da morte, filme que reúne os atores Marco Pigossi, Matheus Nachtergaele e Tony Tornado. Autor da série Amores roubados, George Moura assina o roteiro ancorado em violência: Júlio era um caridoso pai de família que se distancia da lei, e carrega na consciência a morte de 492 pessoas. Baseado em fatos reais.

Animal cordial 
• Conhecida por investir em curtas-metragens com humor de tons inesperados, como visto em Estátua! e A mão que afaga, a diretora Gabriela Amaral Almeida investiu num drama, com fundo de terror, produzido por Rodrigo Teixeira (Me chame pelo seu nome e A bruxa). Na trama estrelada por Murilo Benício e Luciana Paes, a divisão social — e a dose de violência atrelada a um assalto interminável — desponta quando um restaurante é invadido por criminosos que não pensam noutra coisa, exceto defesa e ataque.

O auto de resistência 
• Num jogo macabro, Estado e sociedade organizam uma política que oculta crimes da polícia brasileira cometidos contra civis: alegando legítima defesa, os militares liquidam, sistematicamente, uma gama de pessoas consideradas inocentes. No documentário assinado por Natasha Neri e Lula Carvalho, desponta o retrato de uma realidade que, em 20 anos, tirou a vida de estimados 16 mil brasileiros.

O doutrinador
• Com direção de Gustavo Bonafé (da comédia Chocante), em parceria com Fábio Mendonça, a trama dos quadrinhos de vingança assinados por Luciano Cunha ganha adaptação, depois da conquista de muita popularidade na internet. Os endinheirados estão na mira de Miguel (interpretado por Kiko Pissolato), um agente federal treinado para abater benesses, particularmente aquelas reservadas aos políticos. Marília Gabriela e Helena Ranaldi completam o elenco.

A última chance 
• O veterano cineasta Paulo Thiago (O vestido e Jorge, um brasileiro) adapta para a telona a trajetória real do praticante de muay thai que se redimiu da criminalidade, depois que, criado na violenta comunidade carioca de Vila Kennedy, teve passagem por penitenciárias e alcançou redenção. Inspirado na vida de Fábio Leão, dedicado posteriormente à rede pública de ensino, o filme tem nos papéis centrais Marco Pigossi e Juliana Lohmann.

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