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Correio Braziliense

Rappers do DF apostam em vocabulário e batida diferentes em novo movimento

Artistas do Distrito Federal buscam atingir um público mais diverso com suas músicas na cena do hip-hop


postado em 10/07/2018 06:35 / atualizado em 10/07/2018 08:34

Rapper Markão Aborígene, de Samambaia: ampliação de temas para atingir mais pessoas(foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press - 6/2/17)
Rapper Markão Aborígene, de Samambaia: ampliação de temas para atingir mais pessoas (foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press - 6/2/17)
 
 
O rap brasiliense está diferente. O gênero musical sempre atuou como alto-falante da periferia, denunciando as mazelas enfrentadas pelo povo, o mundo do crime, o racismo e a pobreza  — e isso não mudou. Entretanto, a linguagem utilizada nas canções sofreu alterações ao longo dos anos, trazendo uma cara nova ao estilo.

A década de 1990, marcada por artistas brasilienses como Câmbio Negro, Gog e Viela 17, foi caracterizada por letras fortes, que tematizam explicitamente a brutalidade nas quebradas e o universo das drogas. O rapper Markão Aborígine construiu a carreira durante esse período, em Samambaia, e relembra: “Era um rap mais áspero, falava de uma realidade de crime, da violência que sangra”.

Essa característica fez com que o gênero fosse confundido por alguns como “música de bandido”. Markão explica: ”A gente faz rap para um povo marginalizado. A gente é a única música que toca para eles e fala que o crime não leva a nada”, afirma. Entretanto, ao longo do tempo, viu-se a necessidade de tornar o gênero mais diversificado, com o objetivo de atingir mais pessoas dentro das quebradas”.

Os termos ríspidos e severos utilizados nas canções vêm dando lugar a letras mais elaboradas. “Hoje em dia, a gente aborda um viés mais simbólico. A linguagem se aperfeiçoou. O mesmo racismo ainda existe, por exemplo, mas hoje a gente compreende que é um racismo institucional, e o abordamos de outras formas que vão além do senso comum”, afirma Markão. O rapper conta que essa mudança é necessária para que a música atinja não só os jovens, mas as mães, as crianças e os idosos que habitam as periferias do Distrito Federal.

Para Markão, as mudanças socioeconômicas enfrentadas pelo povo também contribuíram para uma alteração nas letras e nas temáticas que o hip-hop aborda. “As pessoas da periferia estão adquirindo coisas que nos anos 1990 elas não tinham. A realidade mudou. Estamos cantando um pouco mais as nossas alegrias e, por isso, outros públicos surgiram para o rap”, afirma.

Além disso, essa abertura no estilo musical possibilitou que artistas da periferia levantassem as próprias bandeiras dentro do hip-hop. Para Markão, temáticas como homossexualidade e feminismo estão crescendo dentro do rap. “As pessoas assumiram esse protagonismo. Não foram os homens do rap que abriram as portas para as mulheres, por exemplo. Elas que as arrombaram”, afirma. O músico conclui que tudo isso é possível porque o gênero é utilizado como instrumento de luta. “O rap não nos silencia”, completa.


“As pessoas da periferia estão adquirindo coisas que nos anos 1990 elas não tinham. A realidade mudou. Estamos cantando um pouco mais as nossas alegrias e, por isso, outros públicos surgiram para o rap”
Markão Aborigene, rapper de Samambaia


Lançamento
Markão Aborígene lançará, no próximo dia 22, o disco Atemporal: O álbum do fim. A divulgação do trabalho será feita na Casa do Cantador, na Ceilândia. O álbum é o segundo trabalho de estúdio do rapper, que tem cerca de 19 anos de carreira. “Comecei a gravar esse disco em 2012. Ele fala sobre angústia, mas também cultiva a memória do rap no Distrito Federal, denuncia a política e demonstra a minha evolução do ponto de vista musical”, enfatiza o rapper.
 

Hip-hop para toda a quebrada

Rappers Henrique e Kalango, do grupo Quadrilha Intelectual, do Recanto das Emas(foto: Thais Batalha/Divulgação)
Rappers Henrique e Kalango, do grupo Quadrilha Intelectual, do Recanto das Emas (foto: Thais Batalha/Divulgação)
 
 
A nova linguagem do rap local é um dos marcos na carreira do grupo Quadrilha Intelectual, popularmente conhecido como QI. Formado pelos amigos Luiz Henrique Silva e Eduardo Lima, o Kalango, a carreira do QI começou em 2012, no Recanto das Emas. “Eu e o Kalango somos amigos de infância. O rap era a música com a qual a gente se identificava, que dialogava com a gente”, explica Henrique.

O primeiro disco, Tabuleiro, foi lançado em 2016. As faixas do álbum abordam questões como crime, violência, desigualdade e injustiça. “Foi um momento em que a gente queria gritar pro mundo a nossa verdade”, ressalta Henrique. O disco rendeu frutos: a dupla chegou a produzir um minidocumentário, De irmão pra irmão, que dialoga sobre a guerra entre quebradas nas periferias. O trabalho foi exibido em unidades de internação e presídios do Distrito Federal.

Entretanto, para os trabalhos futuros, a dupla pretende utilizar letras com uma abordagem diferente. “O primeiro CD ficou direcionado a um público majoritariamente formado por adolescentes e jovens homens, vítimas de algum processo de exclusão e de todas as mazelas que escravizam a periferia desde sempre”, conta Henrique. Contudo, a dupla sentiu necessidade de abrir o leque que forma o grupo de consumidores de suas músicas. “Depois de um amadurecimento, percebemos que a periferia é diversa: tem mulheres, crianças, trabalhadores, microempresários… Precisamos dialogar com públicos diferentes dentro da quebrada”, ressalta Henrique.

Por isso, o próximo disco do QI, A vida imita a arte, será direcionado a diversos segmentos que compõem as periferias do Distrito Federal. Para Henrique, a mudança deve ser estrutural. “Vai desde a batida até as letras: tudo diferente”, afirma. Com músicas mais dançantes e diversidade de temas, o novo álbum deve ser lançado em breve. Para quem quiser conhecer o trabalho, o QI divulgou seis singles em seu canal do YouTube, como as faixas A ocasião faz a canção e Sorria.

Sorriso
Tem, tem até sorriso que oprime
Se quiser pagar, tem sorriso vazio na vitrine
Sorriso que te move, sorriso que paralisa
Sorriso por no almoço ter um prato de comida
Sorriso ouvindo o coração do filho no ultrassom
Sorriso sedutor na noite vermelho batom
Acreditar sorrindo num futuro abençoado
Lembrar e sorrir, sem arrependimento do passado 
Trecho de canção do grupo QI

A voz delas

Rapper Rebeca Realleza, do Sol Nascente(foto: Luis Nova/Esp. CB/D.A Press - 22/3/18)
Rapper Rebeca Realleza, do Sol Nascente (foto: Luis Nova/Esp. CB/D.A Press - 22/3/18)
 

 

Rebeca Realleza conheceu o hip-hop  na infância, em Ceilândia. “Me apaixonei pelo rap assim que eu tive o primeiro contato, que foi na rua, porque em casa eu não podia ouvir”, lembra. O gênero musical passou a fazer parte do cotidiano da menina por meio de projetos escolares e da igreja, onde escrevia as próprias letras. Em 2013, ela foi convidada para integrar o grupo de rap Sobreviventes de Rua, da Ceilândia, criado em 1997. “Dividi palco com artistas como Racionais, Caetano Veloso e Tribo da Periferia”, conta Rebeca.

Apesar do sucesso no Sobreviventes de Rua, a rapper decidiu trilhar os próprios caminhos a partir de 2017. “Comecei a criar minha própria identidade, porque eu sempre cantava em grupo. No ano passado, comecei a ver a necessidade de ver uma voz feminina para abordar os temas que eu vivia”, explica.

Com a carreira solo, Rebeca busca construir uma visão diferente da periferia para o público. Ela reconhece a importância que o rap carrega ao abordar temas como a criminalidade. Entretanto, a artista percebeu uma carência de temáticas alegres nas composições do gênero.  “Comecei a sentir falta de juntar todo mundo para fazer um baile legal, para falar de amor, de empoderamento das mulheres, de alegria, de dança, de romance”, afirma.

Com lançamento previsto para o mês de outubro, o primeiro EP da artista tem nome definido: Afronte. Formado por batidas dançantes, que mesclam o funk e o rap, e letras positivas, o trabalho fala sobre temas como empoderamento feminino e negro. “Sempre gostei de falar sobre a questão da mulher. Na maioria das músicas, a mulher morre no final ou se revolta e mata o homem. É sempre um final bem trágico para a gente: alguém tem que morrer para que haja liberdade. Eu quis colocar a mulher como dona da sua história, como protagonista”, conta.

O empoderamento está presente na canção Tempo, faixa do EP Afronte. A música conta a história de uma mulher que terminou um relacionamento abusivo e resolveu cuidar de si. “Várias amigas minhas já conversaram comigo e disseram: ‘ouvi sua música e entendi o que precisava fazer’”, conta Rebeca. Para a artista, a canção é didática e ensina as mulheres da quebrada a identificarem relacionamentos problemáticos e saírem deles.

Além disso, o trabalho de Realleza consegue atingir diferentes grupos de mulheres na periferia. “É bem abrangente, tem uma mensagem positiva. A minha mãe (que não gostava de rap), canta, minha irmã de 13 anos de idade canta. Não preciso falar sobre a morte, não preciso usar a tragédia”, explica.

*Estagiária sob supervisão do subeditor Severino Francisco


Tempo 
Quantas eu vi se omitir, sucumbir
Resultado: fim, 121, que horror
Mas não serei mais uma da estatística
Eu valorizo os detalhes da vida
Te escrevi em forma de despedida
Quando cê for ver, eu já passei da sua esquina 

Canção de Rebeca Realleza

 

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