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Correio Braziliense

Primeira Jornada de Poesia LGBT+ promove debates e propõe mudanças

O evento acontece na Casa da Cultura da América Latina


postado em 11/07/2018 07:30 / atualizado em 11/07/2018 11:25

A escritora Amara Moira (à esquerda) e o poeta Esteban Rodrigues (à direita) são atrações no evento literário(foto: Julia Meres Costa/Divulgação/Yanna Karolina/Divulgação)
A escritora Amara Moira (à esquerda) e o poeta Esteban Rodrigues (à direita) são atrações no evento literário (foto: Julia Meres Costa/Divulgação/Yanna Karolina/Divulgação)

 
"Tantas mãos, tantas linhas incertas/ tantas vidas cobertas, sem ninguém pra sentir/ Tantas dores, tantas noites desertas/ tantas mãos entreabertas, sem ninguém pra acudir". Esses versos escritos pelo poeta trans Anderson Herzer parecem que foram feitos agora. Porém, por mais contemporâneo que seja, o poema João Ninguém foi publicado em 1982 no único livro do autor, A queda para o alto, escrito em plena ditadura militar.

Ele, um poeta transexual paraense, deu vida aos pensamentos na forma de poesia quando estava apreendido em uma unidade feminina da Fundação do Bem-Estar do Menor (antiga Febem) em São Paulo, e é ele o homenageado da primeira edição da Jornada de Poesia LGBT+. 

"Anderson Herzer foi um jovem poeta trans que faleceu há 36 anos. Homenageamos ele, pois Hezer acreditava na poesia como uma força potente capaz de afirmar o significado das vidas tão estimadas", afirma Felipe Areda, diretor do Instituto Cultura Arte Memória LGBT e um dos organizadores do evento.

A jornada ocorre nesta sexta-feira e sábado, na Casa de Cultura da América Latina (CAL). Com o objetivo de potencializar a arte LGBT e propor a poesia como uma forma de mudança da realidade, o projeto traz oficinas que dão voz e mostram as vivências de pessoas da comunidade LGBT no Brasil, país que mais mata por preconceito no mundo. 

"A poesia tem uma capacidade de provocar estranhamento, ao mesmo tempo em que ela nos permite entrar em uma dimensão nova, criando sentidos,  valores,  percepções do mundo, das outras pessoas e de si mesmas", argumenta Areda.

Além das oficinas, o evento conta com rodas de conversa, saraus e performances. Uma das atrações é Amara Moira, travesti, doutora em teoria e crítica literária pela Universidade de Campinas (Unicamp) e autora do livro autobiográfico E seu eu fosse puta. 

"Literatura pode ser tanto um instrumento de manutenção das coisas como estão quanto um elemento perturbador dessa ordem, e é nesse sentido que aprecio a produção poética da comunidade LGBT: um fazer comprometido com a transformação da sociedade", acredita Amara,  que  fará parte da roda de conversa Anderson Herzer e a escrita trans no Brasil.

A autora avalia que a jornada de poesia não é um evento somente destinado ao público LGBT. "Ao falar sobre nós, falamos também sobre a sociedade, sobre a maneira como somos moldados a pensar, a sentir, a viver, um nós que abrange não apenas LGBT,s mas todos", afirma Moira.

Outra atração importante do evento é o poeta e fotógrafo baiano Esteban Rodrigues, que lançará o primeiro livro,  Sol a gosto, durante o evento. "O livro conta a realidade de um transgênero numa cidade onde existe uma enorme população LGBT e um absurdo silenciamento da mesma", diz Rodrigues. "As sensações e sentimentos de um homem transgênero em ambientes que lhe diminuem e lhe desrespeitam são angustiantes, desesperadoras, que se não transformadas em palavras, se tornam caos acumulado", argumenta ele, que vai lançar o livro com obras de outros autores como Tatiana Nascimento, Pedro Ivo, Kika Sena, Nanda Fer Pimenta e Claudes Pessoa.

* Estagiária sob supervisão de Severino Francisco

Uma pergunta / Amara Moira

O Brasil é o  país que mais mata pessoas da comunidade LGBT no mundo. O que deve ser feito para que isso mude?
Podemos começar pensando na criação das próximas gerações não em termos de medo, mas em termos de liberdade, a própria pessoa descobrindo de que forma faz sentido viver o afeto, o desejo, o amor. O medo que incutimos desde cedo nas pessoas é o grande responsável por essa taxa absurda de violência. As pessoas se sentem ameaçadas diante da nossa presença, por conta da nossa mera existência, pois é como se fôssemos prova viva de que é possível existir de outras formas.


Uma pergunta / Esteban Rodrigues

Você acha que também é importante que outras pessoas além do público LGBT possam ir para a jornada de poesia?
Extremamente. Não só pela questão da visibilidade já antes discutida, mas também pela percepção de que também existe cultura dentro da comunidade LGBT. Que existem grandes escritores, grandes artistas e grandes nomes que não se enquadram no sistema imposto. E, além disso, por uma questão social, para perceber o outro como seu semelhante, como alguém que tem dores e amores, ambições, expectativas e vivências.

 
Serviço
Primeira Jornada de Poesia LGBT
Casa da Cultura da América Latina (SCS Q. 04, Ed. Anápolis). Sexta, às 14h e sábado, às 10h. Entrada franca. Classificação indicativa livre. Inscrições pelo site www.doity.com.br/poesialgbt
 



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