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Correio Braziliense

Festa Literária de Paraty presta homenagem a Hilda Hilst

Temas como amor, sexo, transcendência e morte, Característicos do estilo da escritora, pautam a 16ª edição da FLIP


postado em 22/07/2018 07:00

Josélia Aguiar acredita que a Flip deste ano será mais intimista(foto: Flip/Divulgação)
Josélia Aguiar acredita que a Flip deste ano será mais intimista (foto: Flip/Divulgação)

A 16ª edição da Festa Liter ária Internacional de Paraty (Flip) está mais intimista. Há mesas sobre a finitude da vida, a existência de Deus, a transcendência, o sexo, o amor, o além. Tudo guiado por Hilda Hilst e sua literatura transgressora. A homenageada desta edição trouxe as palavras-chave sobre as quais a curadora Josélia Aguiar gosta de se ancorar para falar de suas escolhas. “A escuta, o som, o monólogo, as vozes, o palco, o teatro, a dimensão místico-religiosa, a dimensão corpórea, o humano, o animal, o além. Isso tudo está na obra da Hilda Hilst e, de alguma maneira, eu quis que as mesas abordassem essas questões”, avisa Josélia.

Com início na próxima quarta-feira, com orçamento reduzido de R$ 5,8 milhões para R$ 5,3 milhões em relação a 2017, a festa propõe encontro entre autores consagrados e estreantes. É uma direção um pouco diferente de boa parte das primeiras edições, dedicadas a levar à cidade histórica do litoral fluminense um time de cânones que agora cede lugar ao sabor da descoberta de autores mais periféricos, porém não menos interessantes. Este ano, haverá um total de 33 convidados, nove a menos do que na edição anterior.

Colson Whitehead ganhou o prêmio Pulitzer e o National Book Awards em 2017 com Undergournd railroad — Os caminhos para a liberdade; Sérgio Sant’Anna levou quatro vezes o Jabuti e é um dos mais celebrados autores contemporâneos nacionais; Maria Teresa Horta é um patrimônio da poesia portuguesa; e a francesa Leila Slimani foi laureada com o Goncourt em 2016. Ainda entram aí o congolês Alain Mabanckou, vencedor dos franceses Grand Prix de la Littérature e do Renaudot, apontado por críticos como o Beckett africano. Da Rússia, Liudmila Petruchévskaia chegou ao Brasil tardiamente com Era uma vez uma mulher que tentou matar o bebê da vizinha: histórias e contos de fadas assustadores, publicado em português no ano passado. No país de origem, é uma das vozes mais importantes da ficção moderna, proibida durante muito tempo pelo regime soviético e frequentemente colocada no mesmo patamar de Alexander Soljenitsin.
Gustavo Pacheco: autor estreante radicado em Brasília participa da festa(foto: Maria Mazzillo/Divulgação)
Gustavo Pacheco: autor estreante radicado em Brasília participa da festa (foto: Maria Mazzillo/Divulgação)
 

Na lista de estreantes estão o carioca Geovani Martins, celebrado como a voz da nova literatura carioca por O sol na cabeça; Gustavo Pacheco, autor do impactante Alguns humanos; e Franklin Carvalho, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2016 e do São Paulo, no ano passado, como autor estreante pelo romance Céus e terra. A isso, somam-se alguns nomes revelados ao leitor brasileiro no último ano graças puramente ao mercado do entretenimento, como André Aciman, autor do delicado Me chame pelo seu nome, base para roteiro de filme homônimo.


Política


As discussões políticas trazem temas como gênero e racismo, uma tônica da última edição, a primeira na qual o número de autores negros e mulheres foi realmente equilibrada. Djamila Ribeiro vai dividir mesa com a argentina Selva Almada que, com seu Garotas mortas, colocou o tema do feminicídio na ficção contemporânea latino-americana. A portuguesa Isabela Figueiredo também aborda racismo e discriminação, especialmente a gordofobia, em mesa com Juliano Garcia Pessanha.
Vencedor do Pulitzer, Colson Whitehead é uma das estrelas internacionais da Flip 2018(foto: Reprodução/Internet)
Vencedor do Pulitzer, Colson Whitehead é uma das estrelas internacionais da Flip 2018 (foto: Reprodução/Internet)
 

Se em 2017 o destaque foi para questões de gênero e raça, agora Josélia Aguiar quer a literatura à frente de tudo. “A gente está tentando não deixar que o fato de ser um programa plural seja a primeira notícia. Isso já aconteceu no ano passado. A gente mantém um perfil plural, mas a gente quer ressaltar que os autores são todos autores, eles vão falar de livros, da obra deles, vão debater temas mais variados, tendo como ponto de partida a literatura, as artes. Vão levantar questões raciais ou de gênero, às vezes e, às vezes, não. Vai depender muito da proposta do próprio autor e do interesse dele em tocar no assunto”, explica a curadora.

Em 2017, ela trouxe Lima Barreto como homenageado. Foi a segunda vez, em 15 edições, que a Flip homenageou um negro. O primeiro foi Machado de Assis, em 2008. “A Flip do ano passado homenageou um autor cujo projeto literário se relacionava com as questões sociais e políticas do tempo dele. Ele abordava o que estava acontecendo no mundo, sobretudo no Brasil, e colocava a experiência dele como homem negro em primeiro plano na obra. A Hilda Hilst me conduziu a um desenho mais intimista, ela trata de questões mais existenciais, enfrenta grandes temas como o amor, a morte, o desejo, a loucura, a transcendência, o que é Deus. No final da vida, estava muito interessada em saber o que acontece depois da morte e investigava isso a fundo do ponto de vista filosófico e físico. Então é uma Flip mais intimista”, adianta Josélia. E mais artística também, com interações com a música, o som, o teatro e o cinema nas figuras de convidados como a compositora Jocy de Oliveira, o músico Zeca Baleiro e a atriz Fernanda Montenegro.
 
Programação parelela 

Paraty se transforma na capital dos livros durante a Flip e a literatura toma conta de toda a programação cultural da cidade. Uma agenda paralela trata de ocupar as janelas livres do público com bate-papos com autores, lançamentos de livro, exposições, peças de teatro, mostras de cinema, batalhas de poesia e tudo mais que envolva a criação artística.

Na Casa Libre & Nuvem de Livros, o tema será Leitura, gesto político, com debates sobre o papel da literatura na construção da identidade e da cidadania. Entre os convidados estão Conceição Evaristo, o ilustrador Roger Mello e o autor franco-congolês Alain Mabanckou, que também está na programação oficial. A Liga Brasileira de Editoras (Libre) é formada por 130 editoras e a Nuvem de livro é uma biblioteca virtual por assinatura. Entre os temas tratados nos debates estão a escrita feminina, a representatividade na literatura, a resistência e as desigualdades.

O Sesc também tem programação especial durante a Flip com 50 eventos que vão de debates a espetáculos de teatro, exposição e mostras de cinema. Alguns dos convidados da festa oficial também estão na programação do Sesc, que montou três unidades em Paraty. Na quinta, Fernanda Montenegro encena o monólogo Nelson por ele mesmo e, no dia seguinte, lança Fernanda Montenegro: itinerário fotobiográfico. Bell Puá, outra convidada da Flip, participa de batalha de poesia. Cafés literários vão receber André de Leones, Tiago Ferro, Marcelo Montenegro, Adriana Falcão, Xico Sá e Ana Paula Maia. A fotógrafa Claudia Andujar apresenta a exposição Yano-a e Conceição Evaristo vai comandar uma roda poética.  

16ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip)

De 25 a 29 de julho, em Paraty (RJ).  A programação completa está no site http://www.sescparaty.com.br/





DUAS PERGUNTAS/ JOSÉLIA AGUIAR



O tom da Flip passada foi a ausência de nomes muito conhecidos e a presença maior de negros e mulheres. Que reflexo fica disso na edição atual?

O que aconteceu no ano passado é que houve um pequeno ruído. Como havia gente que não era tão conhecido, até por conta da ideia das margens, de ir para as periferias, de buscar o que as pessoas não estamos vendo, ficou essa impressão de que não havia consagrados na Flip, mas não era verdade. A gente teve muitos consagrados, por coincidência consagrados negros. É de se perguntar por que não estamos considerando que autores negros não são consagrados. Tivemos vencedores do Booker Prize, do Pulitzer. Quando a Flip começa há um conjunto de autores que era já bastante conhecido no Brasil e que vieram. E temos autores que nunca vão vir porque não viajam para lugar nenhum. Agora, a gente está justamente num momento de renovação, e não só no Brasil. Internacionalmente. Os novos vencedores do Booker Prize, há alguns anos, são nomes que não são tão conhecidos.


Hilda Hilst é uma transgressora. Como será a ênfase nessa característica?

A gente vai ter uma super-mesa sobre a obra de Hilda com a Eliane Robert Moraes e com leitura da Iara Jamra, que vai tentar explicar por que a Lori Lamb tem a ver com Deus. Vai ser a coisa mais ousada que a gente vai fazer. Ela vai explicar por que a Lori Lamb não é pedofilia, por que é literatura e por que foi nessa literatura que a Hilda alcançava o ponto máximo da busca por Deus, saindo do sublime para chegar ao humano, ao animal. São discussões que têm essa dimensão mais íntima, mais existencial, uma reflexão que passa também pela filosofia.
 

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