Publicidade

Correio Braziliense

Mulheres dominam os palcos brasilienses em festivais e espetáculos cênicos

Festival dedicado a solos femininos, peça sobre violência de gênero e performance colocam em cena a produção das mulheres


postado em 23/07/2018 08:52 / atualizado em 23/07/2018 10:47

O feminino é o tema de três eventos na área de teatro programados para esta semana. Refletir sobre gênero e transportar para o palco produções capazes de acrescentar poéticas e narrativas sobre a questão orientou os trabalhos da atriz Luciana Martuchelli, da bailarina Ana Vitória e da dramaturga Eli Moura.


Clara Camarano no espetáculo Gaslight(foto: Isabela Eichler/Divulgação)
Clara Camarano no espetáculo Gaslight (foto: Isabela Eichler/Divulgação)
Dramaturgia feminista
Depois de montar Um bonde chamado desejo, Eli Moura e Marcello D’Lucas partiram para um projeto inspirado na história de Blanche DuBois, a protagonista da peça de Tennessee Williams. Gaslight, que vai passar por Taguatinga, Ceilândia e Plano Piloto, acompanha a história de dois casais enquanto esperam por festa de comemoração de bodas de casamento. O título, Eli tomou emprestado do movimento feminista. É um termo usado para se referir a ações de violência psicológica de homens em relação às mulheres.

Herdado de uma peça dos anos 1920 na qual um marido cria situações para que a mulher duvide da própria sanidade, o termo Gaslight foi incorporado pelo movimento feminista para identificar um certo comportamento masculino.

Na peça, a conversa entre os personagens está carregada de significados que Eli inseriu com a intenção de discutir essa violência. Integrante do movimento feminista há 14 anos, ela aposta em estereótipos e arquétipos para falar do tema. “A gente traz, de maneira supersutil, essa violência superdelicada que não é vista, que não é sublinhada contra esse feminino que habita as mulheres e os homens também. Obviamente que, nos homens, a potência é muito menor e, nas mulheres, isso aparece de forma mais aguda. A peça vai mostrando sutilmente esses lugares da violência, mas de maneira muito delicada. Talvez algumas pessoas nem percebam”, garante.

A atriz e diretor Luciana Martuchelli(foto: Sartoryi/Divulgação)
A atriz e diretor Luciana Martuchelli (foto: Sartoryi/Divulgação)
Rede de mulheres
A terceira edição do festival Solos férteis traz para a cidade mais de 20 espetáculos criados, dirigidos e encenados por mulheres. Com o tema Caixa de pandora, o evento criado pela atriz e diretora Luciana Martuchelli (foto) tem a intenção de estimular encontros entre atrizes do mundo inteiro e fomentar uma rede empenhada em levar aos palcos o teatro produzido por mulheres. “O mito da Caixa de pandora fala de uma mulher que abriu uma caixa e libertou todos os males do mundo. As pessoas sempre falam sobre o que saiu da caixa, mas não falam do que ficou na caixa. E acho que, nesse momento, em termos de Brasil, olhar para o que ficou na caixa, para o que nos sustenta à revelia de condições desfavoráveis, é importante”, acredita Luciana.

O Solos férteis nasceu graças a uma parceria com o Magdalena Project, uma rede internacional de atrizes, diretoras e dramaturgas criada pela atriz inglesa Jill Greenhalgh para dar visibilidade às mulheres do teatro no mundo inteiro. “Elas se reuniam para se perguntar o que as mulheres estavam propondo para o teatro, porque, de repente, elas perceberam que todas pertenciam a grupos de homens que eram grupos fortes, de diretores importantes”, conta Luciana.

A atriz fundou o Solos férteis depois de se dar conta do quão era importante ter referências femininas. Formada em Brasília, Luciana foi aluna de Dulcina de Moraes, mas levou um tempo para se dar conta da influência da grande atriz em sua trajetória. “Minha vontade de fazer um festival veio ao perceber que toda minha jornada anterior de montagens tinha uma grande preocupação em dar voz ao que tinha sido obscurecido na minha história”, conta. “Percebi que havia um lugar de relegendar mitos, um lugar de reescrever a história que tinha sido contada pelas narrativas vencedoras que, a meu ver, eram de um patriarcado.”
 
Ana Woolf em espetáculo do Solos férteis(foto: Jose Alberto Selbach Junior/Divulgação)
Ana Woolf em espetáculo do Solos férteis (foto: Jose Alberto Selbach Junior/Divulgação)
 
 
O festival terá uma agenda de oficinas, fóruns de debates e espetáculos diários dos quais participam mais de 40 mulheres do Brasil, Europa e Ásia. “São mulheres que mandam forte na cena do teatro”, avisa Luciana. No palco, todos os espetáculos são solos, uma opção que nasceu de pesquisa da coordenadora do evento. Cansada de suspender montagens depois de ver o elenco se desmanchar, ela passou a investigar os limites e possibilidades dos monólogos. Por isso, desde a primeira edição, o festival é dedicado a esse gênero.

Ferida sábia, da coreógrafa Ana Vitória, fala dos ciclos femininos(foto: Renata Costa/Divulgação)
Ferida sábia, da coreógrafa Ana Vitória, fala dos ciclos femininos (foto: Renata Costa/Divulgação)

Para quebrar tabus
A relação das mulheres com seus ciclos menstruais guiou a bailarina e coreógrafa Ana Vitória na instalação performática Ferida sábia. O espetáculo faz parte de uma trilogia iniciada em 2010 com um trabalho chamado Afinal. Depois de colocar em cena ideias como ninho, parto, transições e hereditariedades, sempre em diálogo com os significados dos ciclos menstruais, Ana Vitória agora coloca o tema em evidência e dá a ele um certo protagonismo.

Com participação da bailarina Angel Vianna, 90 anos, e de outras três bailarinas, a coreógrafa traz para o palco histórias ligadas ao lugar da menstruação na vida feminina. “Comecei a trazer discursos de mulheres de várias gerações falando sobre a questão da menstruação, do tabu que é, dos ritos que se fazem em torno dela, de como a sociedade entende e da nossa própria relação com essa questão que é tão orgânica do nosso corpo”, explica.

Tudo começou com Angel Vianna, com quem Ana Vitória trabalha há mais de 25 anos. “Ela ficou encantada com o projeto e contou a história dela”, lembra a coreógrafa. Angel estudava em escola de freiras e, quando ficou menstruada pela primeira vez, sentiu muita dor e achou que havia “estourado” por dentro. Ao ouvir a narrativa, Ana Vitória pensou em possíveis diálogos. “E comecei a sentir necessidade de trazer vozes de outras gerações e ver como isso vai perpassando. Daí convidei mais três bailarinas, cada uma de uma geração diferente”, conta.

Gaslight
Dias 27, 28 e 29 de julho, no Teatro Invenção Brasileira de Taguatinga (Mercado Sul Loja 5 Taguatinga Sul). Dias 3, 4 e 5 de agosto, no Teatro Goldoni – Casa D’ Itália (208/209 Sul). Dias 17, 18 e 19 de agosto, no Teatro Cé  das Artes Ceilândia (QNM 28). Horário: 20h. 
Entrada franca. Não recomendado para menores de 16 anos.

Solos férteis
De hoje a 29 de julho. Programação no site solosferteis.com.br.

Ferida Sábia
Coreógrafa: AnaVitória. Com Angel Vianna, AnaVitória, Priscilla Teixeira, Renata Costa, Soraya Bastos. Dias 27, 28 e 29 de julho às 20h (28/7 haverá sessão às 18h) na Caixa Cultural. Entrada franca, retirada de ingressos uma hora antes. Classificação indicativa: livre


Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade