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Correio Braziliense

Artistas DF comentam a importância do Dia Internacional da Mulher Negra

A data é celebrada no dia 25 de julho; saiba mais


postado em 23/07/2018 09:00 / atualizado em 23/07/2018 11:06

Thabata Lorena: conteúdos que tratam da condição da mulher negra ganham espaço(foto: Luis Ferreira/Divulgação)
Thabata Lorena: conteúdos que tratam da condição da mulher negra ganham espaço (foto: Luis Ferreira/Divulgação)

Mulheres negras de diversos países comemoram, na próxima quarta-feira, o Dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha. A celebração foi instituída em 1992, ano em que ocorreu o primeiro encontro de mulheres negras da América Latina e do Caribe, na República Dominicana. Além disso, no Brasil, na próxima quarta-feira comemora-se  também o Dia da Mulher Negra, instituído em 2014, em homenagem à líder quilombola Teresa de Benguela, a rainha Teresa, como ficou conhecida. Ela foi o símbolo da resistência negra na região do Vale do Guaporé, no Mato Grosso, no período de 1750 a 1770.

Além de ressaltar a força e a história dessas mulheres, a comemoração tem objetivo de debater pautas específicas, de acordo com as vivências femininas em cada um desses países. “Eu acho essa data fundamental. Quando se fala sobre negritude, a gente tem um padrão muito norte-americanizado”, conta a cantora Thabata Lorena. “Essa data busca ressaltar o empoderamento da mulher negra, que é importante para combater essa falsa democracia racial que existe no Brasil. É necessário mudar a forma como as próprias mulheres negras se enxergam e, assim, mudamos pelo menos um pouco a questão do preconceito”, afirma a rapper Vera Veronika.

É importante lembrar que as condições de vida das mulheres negras latinas e caribenhas merecem mais atenção. No Brasil, por exemplo, apenas 10% das mulheres pretas ou pardas completam o Ensino Superior, segundo dados da pesquisa Estatísticas de Gênero, do IBGE, divulgada em março deste ano. “Essa data se refere também ao grande número de mulheres negras em situação de vulnerabilidade social, são as mulheres negras que estão nos menores índices de escolaridade e que recebem os menores salários”, lembra a escritora Cristiane Sobral.

Entretanto, além de denunciar as adversidades enfrentadas por mulheres negras, o Dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha  busca comemorar os êxitos e homenagear a luta desse grupo. “Quando a gente celebra essa data, a gente quer também valorizar as contribuições que conquistamos, apesar de todas as dificuldades. Nós temos lutado no campo político, intelectual e econômico e estamos presentes nas universidades, no mercado de trabalho, na mídia e na política partidária. Todas essas conquistas devem ser celebradas”, completa a escritora.

Resistência na arte

Artistas de diversos segmentos culturais utilizam seus trabalhos para falar sobre as vivências pessoais como uma mulher negra no Brasil e na América Latina. Foi na música que a rapper maranhense Thabata Lorena encontrou um jeito de expressar suas ideias, pensamentos e experiências. Apesar de ter nascido no Nordeste, ela cresceu em Brasília e, em 2014, lançou seu primeiro trabalho autoral, o disco Novidades ancestrais.  “Não houve um momento em que eu percebi que falar sobre negritude era importante. Eu sou uma mulher negra, esse é meu lugar de fala, são as minhas vivências”, afirma Thabata.

Com letras sobre empoderamento e aceitação, como o sucesso Alisar pra quê?, Thabata reuniu as faixas do disco e, em 2017, realizou o lançamento do primeiro DVD, que leva o mesmo nome do disco. Para a rapper, conteúdos artísticos que abordam a questão da mulher negra têm alcançado cada vez mais espaço. Thabata explica: “Nós mulheres começamos a ouvir nossas próprias produções. É um conteúdo afro e feminista centrado”, conta. A rapper se apresenta, no próximo dia 3, na Cervejaria Criolina. No dia 11 de agosto, Thabata sobe no palco do Festival COMA.

Arte e empoderamento

 
Vera Veronika, rapper feminina pioneira no DF, classifica a música que faz como uma revolução através da palavra(foto: Dona Filmes/Divulgação)
Vera Veronika, rapper feminina pioneira no DF, classifica a música que faz como uma revolução através da palavra (foto: Dona Filmes/Divulgação)
 
A rapper brasiliense pioneira no DF Vera Veronika também faz de sua música uma forma de resistência e valorização das vivências que ela e outras mulheres negras têm em Brasília e em todo o país. "O rap que eu faço é uma revolução pela palavra, uma revolução que todos os dias se enche de motivos para acontecer, seja por causa dos meses sem resposta sobre o caso Marielle, seja pelos casos de várias mulheres assassinadas todos os dias. São muitos motivos para que a gente continue nessa luta incessante”, argumenta. Vera está completando 25 anos de trajetória e lançará nesta quarta-feira (23/7), no YouTube, o DVD Vera Veronika 25 anos.

A data de lançamento do projeto composto por 14 músicas e 11 clipes, com a participação de mais de 215 artistas, foi escolhida justamente para comemorar o Dia da Mulher Negra. “Eu acredito que se não fosse a arte, nós estaríamos muito mais invisibilizadas. Isso é, quando uma mulher aprende a dançar, a cantar ou a escrever, ela se liberta. A arte é um ponto de empoderamento da mulher negra”, conclui a rapper.

Grito de liberdade
 
Atriz, poetisa e escritora, Cristiane Sobral é um exemplo de resistência negra no DF(foto: Tatiana Reis/Divulgação)
Atriz, poetisa e escritora, Cristiane Sobral é um exemplo de resistência negra no DF (foto: Tatiana Reis/Divulgação)
 

Cristiane Sobral é outro exemplo de luta na capital. Primeira atriz negra a se formar em interpretação teatral na Universidade de Brasília (UnB), a escritora tem trabalhado em diversos espetáculos, livros e poemas que buscam falar não só da vivência da mulher negra, mas também da vivência do ser humano no todo. “Como mulher negra, fazer arte já é maravilhoso, porque é um espaço muito restrito para nós. Então continuar existindo enquanto mulher negra artista, diretora de teatro e escritora, é um grito de resistência. Pensar, por exemplo, quantas escritoras negras você conhece? Quantas atrizes negras você conhece? Então, continuar existindo nesse espaço é um grito de liberdade, sem dúvida”, afirma Sobral.

Já o grupo Sambadeiras de Bimba traz a força da mulher negra na capoeira, samba de roda e candomblé. Com início em Salvador na Bahia, o Sambadeiras foi uma forma de introduzir a mulher na capoeira já que, naquela época, a presença feminina era muito restrita. 

“Nas Sambadeiras de Bimba, a mulher é a principal figura que domina todo o saber que o samba de roda traz”, diz Fernanda Machado, filha da fundadora das Sambadeiras de Bimba. "Fortalecemos umas às outras, cada uma com seu saber ancestral, além de ensinar profissões baseadas nos ensinamentos da família como bordados, culinária, corte e costura”, completa. Fernanda é fundadora da organização Afrobatukayó, que realiza oficinas de percussão, dança afro e dança dos orixás no DF.


* Estagiárias sob supervisão do subeditor Severino Francisco.

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