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Correio Braziliense

Longa brasiliense, 'Pureza' tem filmagens concluídas na capital

Com orçamento de R$ 6 milhões, o longa trata de mãe e filho separados pelo trabalho escravo


postado em 25/07/2018 08:00 / atualizado em 25/07/2018 08:41

(foto: Felipe Reinheimer/Divulgação)
(foto: Felipe Reinheimer/Divulgação)


Quase 25 anos depois, uma imagem se repete, em frente ao edifício da Procuradoria da República (na 604 Sul): uma mãe, sacrificada pelo distanciamento do filho, faz do desespero uma motivação para a denúncia. No comando do set de filmagem do longa Pureza, com cenas na capital, o cineasta Renato Barbieri se apoia na vivência de documentarista para recontar parte da vida de Dona Pureza, importante figura no desmantelamento de modernas redes de escravidão. A personagem, no cinema, ganha interpretação da paraense Dira Paes. “Em nenhum momento, Dona Pureza tira o filho do foco. Ela move montanhas com sua fé — é evangélica. Pureza contou com o apoio da Comissão Pastoral da Terra e de fiscais do Ministério do Trabalho, na chegada a Brasília, para denunciar”, explica Barbieri.

Inspirado em episódios reais, o diretor (em roteiro assinado também pelo produtor do filme Marcus Ligocki Júnior) conta a história de uma mãe em busca do filho. Muito simples, Pureza tem uma olaria familiar na cidade de Bacabal (interior maranhense). “O filho dela, Abel (Matheus Abreu), está cansado da vida difícil e tem projeto de enriquecer, de ter ascensão social. Daí, ele vai para um garimpo em Itaituba (Pará). Como ele não dá notícias, Pureza liga, de orelhão, para a filha, que também não sabe do paradeiro. Passada a depressão, vai atrás do filho, sem pista nenhuma. Pureza foi procurar o filho, e descobriu o trabalho escravo”, sintetiza o cineasta.

No retrato de pessoas ligadas às ditas condições análogas às de escravidão, o diretor conta que zelou por preservar a integridade de Pureza, elemento destacado em toda a jornada da maranhense. Engajada, Pureza, pela força do nome, mobilizou mais de 25 entidades na realização do filme previsto para 2019. Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho, alguns ministérios e Ordem dos Advogados do Brasil auxiliaram na produção.

“O tom do filme será de drama pessoal e social: a escravidão contemporânea aparece com todas as tintas. Temos cinco séculos de persistência dela. A escravidão por dívida, o cárcere privado, as condições degradantes e as jornadas exaustivas nunca acabaram”, comenta Renato Barbieri. Como figurantes, trabalhadores rurais reais, integrados à equipe de 80 profissionais da fita, reforçaram o que o diretor chama de “o lugar de fala do oprimido”. Uma cidade cenográfica, em Marabá (Pará), e bairros rurais serviram para locações de Pureza, que se completaram com cenas em Brasília, no Hospital das Forças Armadas, no Congresso Nacional e no Itamaraty.

Resultados

Uma exposição da Brasília efetiva e atuante impulsionou um dos produtores de Pureza, Marcus Ligocki Júnior. “Existe uma máquina governamental que, se bem usada, gera resultado. Não é só o político que está aqui, usufruindo disso ou daquilo, de forma criminosa, e a gente, cidadão, nunca chega lá. Com motivação muito forte e conhecimento de ferramentas, geramos resultados no lugar em que vivemos”, observa Ligocki (diretor de Uma loucura de mulher).

Na produção do sexto filme, depois de experiências com Vladimir Carvalho e Iberê Carvalho, Ligocki fez questão de uma plataforma diferenciada, para Pureza. Orçado em R$ 6 milhões (via FAC, Fundo Setorial e BNDES), o filme foi estruturado para ter filmagens estendidas por sete semanas. “Para mim, o roteiro e a produção andam juntos. Fizemos um esforço para criar uma história que fortalecesse e colocasse todos os holofotes no magnetismo de Dira Paes, que é absolutamente magnética”, diz o produtor.

“Dira realmente é a história do cinema brasileiro; trabalhar com ela traz prazer e o ganho do aprendizado”, completa Mariana Nunes, atriz de Brasília, que emenda a segunda parceria com a colega em menos de um ano. Formada pela Faculdade de Artes Dulcina de Moraes — com o ator Sérgio Sartório (que está no elenco de Pureza), Mariana conta que sua personagem, Elenice, encerra uma fusão de mulheres que batalharam pela formação do grupo Móvel, instrumentalizado por auditores e fiscais do trabalho.

“Elenice está empenhadíssima para a criação do grupo, mas há a força contrária, que tenta minar tudo, num grupo de empresários, fazendeiros e políticos que querem travar a fiscalização e a libertação”, explica. Um ponto de Pureza recebe atenção especial da atriz: “A protagonista e grande parte do elenco é de atores não brancos. É raro no cinema brasileiro. No filme, o trabalho escravo contemporâneo não está associado à cor das pessoas”, completa, enfatizando o peso das questões sociais da produção.


“ Pureza traz o arquétipo da mãe. Dona Helena, de 2 filhos de Francisco, também abraça o arquétipo, mesmo sendo diferente. Helena é um dos meus personagens marcantes, e tenho muito orgulho de ser lembrada por eles”

Dira Paes, protagonista de Pureza
 
Homens serão tiranos e modelos de amor, na fita

“O Renato (Barbieri) foi para o coração do Pará, numa busca que pouca gente seguiu. Somos privilegiados de viver e conhecer uma parte intrínseca do Brasil — o miolo do Pará, que é gigante, dentro da Amazônia. Marabá — a cidade em que filmamos a maior parte do longa Pureza — é um polo de transição para quem percorre a rodovia Belém-Brasília. Marabá tem potencial imagético muito grande. É uma cidade cinematográfica”, observa a atriz Dira Paes, protagonista do segundo longa de ficção conduzido por Renato Barbieri.

Atenta a elementos que colaboram na interpretação de uma personagem, Dira saúda Brasília, ponto para a conclusão das imagens do longa, sem dispensar láureas para o Pará em que nasceu. “É importante que o Brasil saiba como é fundamental o deslocamento para algumas filmagens. Ter ido para o Pará foi quase metade do filme. A luz de Marabá tem um pôr do sol peculiar; o clima é diferente. A maquiagem e a pele imprimem de maneira diferenciada, no cinema”, explica Dira, animadíssima ao dar vida para Pureza Lopes Loyola, que, na vida real, ajudou na libertação de muitos trabalhadores escravos contemporâneos.

Renato Barbieri, à frente de projeto de cinema, urdido por 11 anos, conta que Pureza foi essencial para a formação do grupo móvel, integrado a partir do Fórum Nacional de Combate à Violência no Campo, com intenso esforço da equipe da ex-secretária nacional de Fiscalização do Trabalho Ruth Vilela (papel de Walderez de Barros), há mais de 23 anos. “O grupo libertou mais de 52 mil pessoas, desde a criação”, comenta.

Braço direito do antagonista de Pureza, o capataz Nasciso (papel de Flávio Bauraqui), Zé Gordinho é o personagem do ator Sérgio Sartório, que define: “ele é um capataz, um pistoleiro — me inspirei na pegada do que é nosso interior, com algo de western. Temos os pistoleiros do Norte, do sertão em geral e do Goiás”. Narciso e Zé Gordinho são opressores que fazem com que muitos aceitem situações de escravidão contemporânea. “A história é fantástica, mas só defendo meu personagem, em cena: fora de cena, nunca. Zé é um monstro criado pela circunstância. Pureza é uma personagem forte, empoderada, que sempre existiu, mas sempre foi silenciado. No caso dela, venceu uma batalha da guerra maior”, avalia Sartório.

Estreando como produtor executivo em cinema, o diretor de fotografia Affonso Beato (um dos pilares para a formulação do cinema novo e autor da fotografia de filmes de Pedro Almodóvar) engrossa a visibilidade internacional do longa Pureza. O filme, aliás, marca uma data de caráter internacional para a carreira de Dira Paes: em 1984, ela viu a trajetória impulsionada, pela participação no longa A floresta de esmeraldas (do inglês John Boorman). A ligação com Pureza? Existe, e reside no contracenar (atual) com Cláudio Barros, mentor da turma de teatro dela, passados 35 anos desde que ele estimulou Dira a seguir carreira no cinema, na inaugural experiência com Boorman.

“Num primeiro momento, fui escalado para ser reparador de elenco — coisa que faço há 29 anos no cinema; mas, 48 horas antes das filmagens, me convocaram para ser o Padre Flávio, na trama. Preparei o papel com a ideia do homem que abre a mão da vida, para se dedicar à libertação do próximo”, conta Cláudio Barros. Xavier Plassat e Dorothy Stang, assassinada no campo, foram as pessoas que “colocaram o coração para fora do corpo”,como modelo, nas palavras do ator. “Trabalhei com esta metáfora: como se estivesse o tempo todo ofertando o amor, com o coração fora do corpo”, destaca o ator.  



Entrevista / Dira Paes, atriz


Como atriz e personagem veem Brasília?
Brasília sempre me deu muita sorte; então isso já é um ponto positivo. Quando filmei aqui, resultaram produções que me marcaram muito. Brasília marca Pureza porque ela é uma mulher que aprende a ler aos 40 anos e escreve para três presidentes do Brasil, falando e reclamando, ao cobrar atitudes. Ela não entende como um presidente não está a par do que está ocorrendo na região em que ela vive. A presença de Pureza em Brasília é extremamente útil, como cidadã e como uma mãe que não desiste e falará com quem que seja para conseguir ter o filho dela de volta. Pureza tem a inteligência de quem compreende a estrutura do poder.

Como é estar em um filme que abraça a miscigenação brasileira?
Trabalhamos com a vida como ela é. No cinema, estamos reproduzindo o mundo de verdade — não um mundo maquiado. A cor dos personagens é a cor de trabalha no sol, de quem planta o que come, de quem vai buscar lenha para fazer sua fogueira, de quem faz seu tijolo para construir sua casa, de quem faz as coisas com as próprias mãos. O cabelo é de quem não tem vaidade, e de quem tem outras prioridades na vida que não seja a imagem. Tenho a honra de conhecer essas pessoas do povo. Para mim, são as pessoas que mais têm a compartilhar e ensinar. Tenho a certeza de que — como temos mudado a questão da igualdade de gêneros — caminhado para questões maiores, discutimos o humano: somos ene gêneros, por exemplo. Dentro do humano de nós; temos que aceitar a diversidade e a maioria — e a maioria, no Brasil, não é branca.

Como foi conhecer a Pureza da vida real? 
E a maternidade te mudou?
Foi um encontro maravilhoso, porque eu conheci uma mulher muito especial e com muita atitude. Uma mulher com muita presença de espírito e que consegue ficar seis dias sem comer praticamente nada, racionando água, e caminhando pelas estradas e matas da Amazônia. Uma mulher que enfrentou noite e frio e que contou para a gente como o problema dela resultou na solução para muitos. Ela tem a consciência de que acabou escolhida para a luta social. Em primeiro lugar, ela é mãe e, depois, abolicionista. Da Dira antes de ser mãe nem me lembro (risos). Ser mãe traz um renascimento. São chances que você tem de começar tudo de novo, quando você tem filho. Estou muito feliz das minhas possibilidades de me entender e me querer, de projetar futuro — tudo isso faz parte da maternidade.

Suas ações na entidade Movimento Humanos 
Direitos são difundidas, abertamente?
A Dira cidadã existe antes da Dira atriz. Carrego, de casa, a herança de que é preciso colaborar. Quem tem formação tem que dividir as informações. No campo, as pessoas não têm noção dos seus direitos. A gente encontra pessoas que não têm nem certidão de nascimento, e isso precisa ser revelado. A gente precisa reconhecer estes cidadãos. Usamos a visibilidade de cada artista, de cada intelectual e de autoridades em prol da comunidade. Dou visibilidade, pela solução de seu problema. Com o filme Pureza, estamos falando de um tema atual. É importante frisar que se trata de um filme consistente, com roteiro muito forte, com atores fora da zona de conforto e personagens contundentes.
  
 
 
 

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