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Correio Braziliense

Caio Blat conversa com o Correio sobre a peça 'Grande sertão: Veredas'

Na pele de Riobaldo, papel que lhe rendeu o prêmio Shell de melhor ator, Caio comemora a possibilidade de fazer a ponte entre a escrita de Guimarães Rosa e o público


postado em 28/07/2018 07:29 / atualizado em 28/07/2018 15:45

Em entrevista ao Correio, o ator fala sobre arte, literatura, política cultural e sobre Brasília(foto: Cadu Gomes/CB/D.A Press)
Em entrevista ao Correio, o ator fala sobre arte, literatura, política cultural e sobre Brasília (foto: Cadu Gomes/CB/D.A Press)


Antes do cenário, da direção, do elenco de uma peça teatral vem o texto, a palavra. Assim é para o ator Caio Blat, em cartaz na cidade para apresentação única de uma premiada versão que leva para os palcos o clássico Grande sertão: Veredas, de Guimarães Rosa.

Mais do que a palavra, a literatura chama a atenção de Caio. “A relação entre a literatura e o teatro é muito importante na minha história. A fonte inicial, para mim, tem que ser a literatura, a palavra”, afirma, em entrevista ao Correio.

Na pele de Riobaldo, papel que lhe rendeu o prêmio Shell de melhor ator, Caio comemora a possibilidade de fazer a ponte entre a escrita de Guimarães Rosa e o público. “O que tem de revolucionário e que é atual no texto é o fato de que o amor não reconhece gênero. O amor brota em qualquer situação entre dois seres humanos”, afirma.

Ativo, Caio está em cartaz neste espetáculo, grava a próxima novela das 21h, Sétimo guardião, e (em parceria com Hilton Lacerda) escreveu um roteiro de cinema baseado no livro Juliano Pavollini, de Cristóvão Tezza. Em entrevista ao Correio, o ator fala sobre arte, literatura, política cultural e sobre Brasília, cidade com a qual tem uma relação íntima por ter participado do Festival de Cinema de Brasília várias vezes.


Confira a entrevista com Caio Blat:

Como foi a transição de trazer um clássico da literatura para os palcos?

A relação entre a literatura e o teatro é muito importante na minha história. A fonte inicial, para mim, tem que ser a literatura, a palavra. O texto vem antes de qualquer coisa. Para mim, chegar nessa grande obra-prima é um privilégio gigantesco. É o texto mais lindo, mais profundo, mais universal que eu já pude dizer em público. As pessoas têm algumas vezes dificuldade em chegar ao livro — eu mesmo nunca tinha lido Grande sertão antes da peça. E poder dizer isso para as pessoas toda noite, poder fazer essa ponte entre elas e a letra do Guimarães Rosa é uma função muito nobre, um privilégio muito grande como ator.


A história de Grande sertão é muito atual, muito representativa do Brasil atual. Como você vê essa ligação entre o Brasil de Guimarães e o de hoje?

O que tem de revolucionário e que é atual no texto é o fato de que o amor não reconhece gênero. O amor brota em qualquer situação entre dois seres humanos. Isso é muito atual e forte no livro. Mesmo em meio à impossibilidade, em meio à pobreza, em meio à violência, em meio à miséria, em meio ao preconceito, o amor brota de qualquer maneira. E é incontrolável, é violento.

(foto: Objetiva Comunicação/Divulgação)
(foto: Objetiva Comunicação/Divulgação)

Como pai de crianças, você se assusta com o que vê hoje em nosso país? O que preocupa mais na criação dos seus filhos?

O Brasil nunca vai ser um país de oportunidades iguais enquanto não houver educação igual. Cada vez mais o nosso país vai perdendo a oportunidade de se tornar um lugar digno porque investe em milhões de coisas, menos na educação. O ministério da Cultura está abandonado. As pessoas hoje em dia questionam a Lei Rouanet como se a cultura não fosse vital para o país tanto quanto alimentação, habitação, educação, saúde. A cultura é a identidade de um povo, é o alimento moral de um povo, é o alimento espiritual de um povo. As pessoas hoje estão abandonando a cultural estão questionando a necessidade da Lei Rouanet, da lei do audiovisual. É um momento crucial para mostrar como uma obra-prima como Grande sertão revela a identidade brasileira a fundo, a nossa história, a nossa identidade.


Você está numa peça inovadora, revolucionária e participou da novela Deus salve o rei, que não deixa de ser uma novela inovadora. Como foi essa experiência de gravar com croma key, estar numa trama medieval?

Foi uma experiência interessantíssima. Eu nunca tinha trabalhado com tantos efeitos visuais, eram cenas longas com efeitos. É muito divertido e um aprendizado. Cada vez mais a tecnologia está nos levando para isso. Ao mesmo tempo é uma trama calcada na emoção, no trabalho dos atores.


Você tem uma relação forte, constante com o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Que lembranças traz da cidade?

Eu amo Brasília. É um dos lugares mais interessantes do Brasil, um dos lugares em que mais pensam e reagem àquilo que a gente propõe. É também um dos lugares que mais dão importância à cultura. Eu sinto prazer enorme de voltar a Brasília, de ver a reação das pessoas que têm a possibilidade de estar perto do poder, de se manifestar, de participar da tomada de decisões.


Você acha que esse “fazer política” pode vir também por meio da arte, levando discussões para as pessoas? 

Qualquer manifestação artística já é uma forma de resistência, já é um ato político.

Você faz muito cinema, talvez até mais do que televisão. Como você vê o panorama do cinema brasileiro atual?

O cinema, assim como a cultura brasileira, sempre dependeu muito de políticas públicas e o fomento ao cinema foi feito nas últimas décadas pelas estatais, especialmente pela Petrobras. Desde que houve as denúncias dos casos de corrupção, desde a crise de 2014, esses patrocínios começaram a ser cortados. Muitos grupos que há muitos anos dependiam de patrocínio da Petrobras ficaram sem patrocínio, assim como centenas de projetos, festivais, editais de cinema. O Ministério da Cultura, de certa maneira, delegava a política cultural às estatais. E, com o corte dos investimentos das estatais, o cinema tem sofrido muito. Mas permanece com produções e resultados impressionantes. Cada vez o cinema brasileiro amadurece mais, na contramão da política cultural, que me enoja.

Você pensa em dirigir?

Eu estou com um roteiro pronto, que eu escrevi junto com o Hilton Lacerda sobre um romance — como eu falei, sempre vou começar meus projetos na literatura em busca da estrutura de uma boa dramaturgia — do Cristóvão Tezza chamado Juliano Pavollini. Agora eu estou exatamente atrás de patrocínio para filmar no próximo ano. Quem vai atuar é a Cássia Kis e um garoto de 16 anos.

Na televisão, você estará em Sétimo guardião, a próxima novela das 21h que será escrita pelo Aguinaldo Silva. O que você já sabe sobre esse trabalho?

A novela se passa numa cidade pequena, do interior, e tem algum mistério ali. Meu personagem cresceu nessa cidade, mas saiu de lá para tentar ser artista, mas ele fracassou e acabou se envolvendo com drogas e voltou para a cidade. Então, ele está na casa dos pais, se recompondo e tentando recomeçar a vida. Lá, ele vai se aproximar da protagonista, que vai ser a Marina Ruy Barbosa, e vai acabar participando de muitos momentos importantes.

Serviço
Grande Sertão: Veredas
Direção de Bia Lessa. Com Balbino de Paula, Caio Blat, Leonardo Miggiorin, Luisa Arraes, Luiza Lemmertz. Auditório Planalto do Centro de Convenções Ulysses Guimarães. Neste sábado (28/7), às 20h. Ingressos a R$ 200 (poltrona palco), R$ 120 (poltrona VIP), R$ 90 (poltrona VIP lateral), R$ 70 (Poltrona especial) e R$ 30 (poltrona superior). Não recomendado para menores de 18 anos.
 

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