Publicidade

Correio Braziliense

Filme sobre Hilda Hilst estreia nesta semana nos cinemas

O poético filme "Hilda Hilst pede contato: conversa com os mortos" chega aos cinemas nesta quinta-feira (2/8)


postado em 31/07/2018 07:26

Cena do filme
Cena do filme "Hilda Hilst pede contato: conversa com os mortos" (foto: Imovision/Divulgação)


Batizada, como cineasta, pela experiência com o documentário A mochila do mascate (sobre o cenógrafo italiano Gianni Ratto), no começo da década de 2000, a diretora Gabriela Greeb se viu mergulhada em vozes e pedidos, pelo resgate da imagem da destemida escritora Hilda Hilst (morta em 2004). Falecido há nove anos, o também artista Mora Fuentes — colaborador de peso para a autora do celebrado A obscena senhora D — foi quem encomendou o longa Hilda Hilst pede contato que, teve pré-estreia, em meio ao bochicho da abertura da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty). 

“Acho que tive que crescer para fazer este filme. Hilda é muito cruel, e eu era muito boazinha (risos). Esperei ter mais base”, simplifica a diretora do longa que nunca se decepciona com a poesia da mulher que fundou o que se tornaria um orgânico centro de convivência literária, a Casa do Sol (em Campinas). “Com o filme, queria alcançar a presença, e não lamentar a ausência da Hilda Hilst. Tem algo na vida dela que remete a um quadro do Hopper (Edward, morto em 1967, e famoso pelos registros de seres solitários).

Conexão espiritual

Com estreia prevista para quinta-feira (2/8), nos cinemas, Hilda Hilst pede contato está muito distante de demarcar uma cinebiografia. “Vou fazer um filme de simples Google?! Eu não! Qualquer pesquisa superficial sobre a Hilda pode ser feita, em meia hora de internet”, comenta Gabriela Greeb. Não houve espaço para lamúrias, entre editais vencidos “e uns outros tantos perdidos”. Num paralelo, a realização da fita conversa com o objeto examinado: entre 1974 e nos cinco anos seguintes, Hilst alimentou certa obsessão: animada pela matriz das conversas do sueco Friedrich Jurgenson com os mortos, Hilda Hilst quis se apartar da solidão vivenciada na Casa do Sol, conclamando a presença de outros artistas como ela, porém mortos.

O experimento — que leva, por vezes, Hilda a se achar “uma debiloide” — teve um naco materializado, pela atenção dispendida por Gabriela Greeb, que nos traz imagens encenadas de Hilda (interpretada por Luciana Domschke), mas a partir da voz real da escritora. Imagens sonoras foi um dos conceitos buscados por Greeb. “Tentei mostrar coisas nada fáceis de serem vistas, em imagens. Minha ideia foi revelar a imagem das palavras. Achei todas as fitas, com a voz de Hilda Hilst, que totalizavam 100 horas. Encontrei, tratei o áudio, e elas foram digitalizadas, além de transcritas. Todas as falas da atriz (dona de mímica labial) obedecem ao ritmo da Hilda”, explica a diretora.

Respiros, suspiros e decepções de Hilda Hilst demarcam boa parte sonora do longa. Hilda, até aparece em cena, entoando música americana. Sua alma em nada decai, no filme da paulista Gabriela Greeb, que diz ter se amparado no poema Da morte Odes mínimas. Libertária, libertina e incisiva, Hilst parece reviver. “Não se trata da importância que ela teve, mas da que está tendo. O discurso dela tem reverberado. A voz de Hilda demorou tanto tempo para se projetar, mas tem ressoado”, conclui.
 

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade