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Correio Braziliense

Cristóvão Tezza: 'O otimismo é uma espécie de fé'

Autor do premiado O filho eterno, Cristóvão Tezza participa hoje de encontro com o público da exposição Eu leitor. O autor vai falar sobre o livro da sua vida e sobre o novo romance


postado em 04/08/2018 06:08

Cristóvão Tezza critica a elite financeira do país em seu novo livro, A tirania do amor(foto: Guilherme Pupo/Divulgação)
Cristóvão Tezza critica a elite financeira do país em seu novo livro, A tirania do amor (foto: Guilherme Pupo/Divulgação)

 
Cristóvão Tezza não tem fé. Como alguém um dia lhe disse, é como ter olho verde: ou você tem, ou você não tem. E ele não tem. Mas o escritor catarinense é otimista. Apesar de escrever livros pessimistas, cultiva essa disposição quase filosófica para ficar sempre com o lado bom da vida. "O otimismo é uma espécie de fé. Por exemplo; não há base empírica nenhuma para dizer que o Brasil vai melhorar, tudo indica que não, mas eu prossigo otimista. Acho que a eleição vai acalmar as coisas e estabilizar minimamente o país para que recuperemos o tempo perdido. Isso é fé", garante. 

É, pelo menos, uma pitada a mais de otimismo do que o cultivado por Otávio Espinhosa, protagonista de seu novo romance, A tirania do amor. Desta vez, não é a elite intelectual o alvo de Tezza, e sim a elite financeira. Espinhosa é um economista brilhante, com diploma de Harvard e endereço profissional na Paulista. Vive o drama de uma carreira acadêmica fracassada, um livro de autoajuda publicado com pseudônimo e um casamento à deriva. Do filho, costuma ouvir críticas ao seu estilo de vida. O menino frequenta as manifestações de esquerda. Logo no início do livro, Espinhosa anuncia a renúncia à vida sexual. Segue, no entanto, povoando existência e cabeça com as amantes e ex-namoradas. A mulher, Rachel, vai pelo mesmo caminho. Como pano de fundo, a ameaça de um escândalo político e financeiro que pode colocá-lo atrás das grades e um mundo de gente endinheirada dona de um discurso nem sempre simpático.
 
O livro O filho eterno, de Tezza, virou filme estrelado por Marco Veras(foto: Reprodução/Internet)
O livro O filho eterno, de Tezza, virou filme estrelado por Marco Veras (foto: Reprodução/Internet)
 

Espinhosa é um sujeito sensível, letrado e irônico. Brinca ao dizer-se descendente do filósofo Baruch Spinoza, ideia que ocorreu a Tezza depois de ver a lombada de Ética em uma estante. Achou engraçado estabelecer as ilações entre o holandês e o brasileiro. “O livro de autoajuda do personagem, chamado A matemática da vida, e a ideia de que, de algum modo, Spinoza se propunha a explicar o mundo e as paixões humanas exclusivamente pela razão, o que, em seu tempo, era revolucionário”, explica o autor, ao pensar sobre a motivação de trazer o filósofo para a narrativa. Tezza está em Brasília hoje para participar de encontro com o público na exposição Eu leitor. Ele vai falar sobre o “livro da sua vida”, ou Lord Jim, de Joseph Conrad. 
Lord Jim causou duplo impacto na vida do escritor. O primeiro, foi profissional. Por conta do livro, Tezza decidiu ser piloto da Marinha e foi estudar na Escola de Formação de Oficiais da Marinha Mercante, no Rio de Janeiro. “Imaginava que ser piloto da Marinha seria o ideal para o meu projeto de escritor: viajaria pelo mundo e escreveria meus livros... Mas não deu certo — antes mesmo de completar o primeiro ano, abandonei a escola por incompatibilidade com o regime militar, que pesava na época, 1971”, conta. 

O segundo impacto foi literário: “ao ler Lord Jim, que é basicamente a história de um fracasso moral, pressenti que a literatura pode fazer o que nenhuma outra linguagem alcança. Foi uma narrativa marcante para mim. E acho que, inconscientemente, aquela história lida na juventude me influenciou quando escrevi O filho eterno”. O filho eterno virou filme em 2016, com Paulo Machline na direção. Publicado em 2007, o romance sobre a relação entre um pai e o filho com síndrome de Down ganhou, no ano seguinte, os quatro prêmios literários mais importantes do país (APCA, Jabuti, Portugal Telecom e São Paulo de Literatura). Outro romance, Juliano Pavollini, teve os direitos comprados por Caio Blat e o filme está em fase de produção. Já O professor, de 2014, foi comprado por Marcello Airoldi e deve virar peça de teatro. Em entrevista ao Correio, o autor conta como criou Espinhosa e o que o personagem diz sobre o Brasil. 

SERVIÇO
A tirania do amor
De Cristóvão Tezza. Todavia, 176 páginas. R$ 49,90

Eu, Leitor
Encontro com Cristóvão Tezza. Museu da República, às 17h. Entrada franca.

Entrevista// Cristóvão Tezza

Qual o impacto de uma elite iletrada no Brasil contemporâneo? O que isso significa, em termos de sociedade?
Uma sociedade nunca é iletrada apenas na base; quando os índices civilizatórios são teimosamente baixos ao longo das décadas (considerem-se, por exemplo, a taxa de homicídios e a evasão do ensino médio, para ficar em apenas dois pontos desgraçados do Brasil), a ignorância e a barbárie são faces sistemáticas e operantes do poder. Por exemplo, quando uma faixa da elite brasileira (ainda que, imagino, minoritária) considera o ideário político de Bolsonaro, que é grotesco, algo que se deva levar intelectualmente a sério, tem-se o tamanho da encrenca civilizatória e a extensão do nosso atraso.

Qual o lugar de literatura nesse Brasil iletrado? A literatura e a ficção podem ter alguma repercussão?
Sobre a relevância da ficção no Brasil de hoje, ela é muito pequena; a literatura tornou-se quase que um animal em extinção na vida contemporânea. Entretanto, desde sempre ela é uma face imprescindível das nações e das culturas. Imagine um Brasil sem Machado de Assis, sem Lima Barreto, sem Raquel de Queiroz, sem Graciliano, sem Drummond, sem Rosa, sem Jorge Amado, sem Clarice, sem Erico Verissimo, sem Bandeira. O que restaria no nosso espelho para conversar e tentar entender?

Rachel, uma das personagens do livro, resume romances em três linhas. Somos uma sociedade que resume as coisas em três linhas e, por isso, seguimos na superfície?
São resumos irônicos que ela faz — mas lembre-se de que são reportados pela memória interessada do marido. Quanto ao olhar da sociedade, a capacidade de resumir é importante, mas depende da qualidade da síntese. Podemos simplesmente nos jogar nas cordas do preconceito fácil, ou, quem sabe, acertar algum nervo oculto.

Há, no livro, uma crítica à vida acadêmica? 
Sim, sob os olhos de Otávio Espinhosa. Uma obra de ficção não é um ensaio; quem faz a crítica é o personagem, numa situação bastante específica, em função de seu fracasso acadêmico. Um romance é uma hipótese de existência, e assim mexe com os sistemas de valor consistentes com seus personagens.

“Só o amor intelectual é eterno”: senão, ele é tirano?
Não tinha pensado objetivamente nisso, mas acho que sim. Os afetos costumam ser inseguros, bipolares, irracionais, ameaçadores e passageiros — enfim, tiranos. Já o amor pelos diálogos de Platão, um romance de Stendhal, um poema do Drummond ou um conto de Machado de Assis dura bem mais. Mesmo quando, anos depois, passamos a desgostar de um autor que nos encantava, restará sempre uma relação afetiva, uma boa memória. Já o amor pessoal que se esvai rarissimamente deixa boa memória.

“Considerar o mundo dos fatos antes de enfrentar as hipóteses. Só que você lida com massas humanas, não com elementos químicos estáveis”: qual a dor e a delícia dessa constatação?
Bem, a dor é que a vida não tem controle, porque o acaso exerce sempre um poder inesperado e desestabilizador – o futebol, para mim, é o melhor exemplo. Num jogo, há fórmulas para tudo, exceto para o acaso. A delícia é que isso, às vezes, é muito bom. Mas só às vezes.

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