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Correio Braziliense

Artistas LGBTQ+ do DF buscam representar a comunidade no cenário musical

Aretuza Lovi e Paulo Amaro ambos utilizam a própria música para levantar a bandeira LGBTQ%2b


postado em 04/08/2018 06:55

Aretuza está atualmente ao lado de Pabllo Vittar e Gloria Groove no grupo de drags que se destacam na música pop do Brasil(foto: Rodolfo Magalhães/Divulgação)
Aretuza está atualmente ao lado de Pabllo Vittar e Gloria Groove no grupo de drags que se destacam na música pop do Brasil (foto: Rodolfo Magalhães/Divulgação)


A drag queen Aretuza Lovi nasceu em Goiânia, mas foi em Brasília que deu os primeiros passos no cenário drag e musical. Até hoje, mesmo com a agenda cheia de shows pelo Brasil, sempre volta à capital, onde tem família e também mantém a base empresarial e de gerenciamento de carreira. O rapper Paulo Amaro é nascido e criado no Distrito Federal, mais especificamente na região de Samambaia, local responsável pela inserção dele no rap.

Além da relação com Brasília, os dois cantores têm outro aspecto em comum, ambos utilizam a própria música para levantar a bandeira LGBTQ+, seja por meio de letras com a temática, seja pelo fato de representarem essa comunidade no cenário musical. “A gente continua quebrando barreiras, mas ainda enfrentamos muitos desafios. Infelizmente, ainda somos segregadas. Tenho muito orgulho de ser uma artista LGBT , de ser gay. Mas, acima de tudo, sou uma artista como qualquer outra pessoa. A música transcende tudo e as drag deram um up no mercado pop brasileiro”, classifica Aretuza Lovi ao Correio.

A goiana, radicada em Brasília, está atualmente ao lado de Pabllo Vittar e Gloria Groove no grupo de drags que se destacam na música pop do Brasil. Nas últimas semanas, ela lançou o primeiro disco da carreira com apoio de uma gravadora, a Sony Music — que também é a gravadora de Vittar —, o CD Mercadinho. “No ano passado, tive o prazer de conhecer o Pablo Bispo (compositor de hits de Anitta, Pabllo Vittar e Preta Gil). Ele me apresentou dois produtores maravilhosos e apresentei essa vontade de gravar um disco. Eu queria passar muito a minha verdade, os ritmos que eu gostava, ser algo bem brasileiro. Ficamos um ano trabalhando nessa produção”, explica a cantora.

O álbum 

O CD Mercadinho conta com 12 faixas e, em algumas delas, ainda tem parcerias de peso, como Valesca Popozuda (Batcu), Gloria Groove (Joga bunda e Catuaba), Pabllo Vittar (Joga bunda), IZA (Movimento), Solange Almeida (Arrependida) e Ruxell (Catuaba e Vagabundo), o que mostra o momento de destaque de Aretuza. “Sou muito honrada de ter nesse disco pessoas que amo, cantoras maravilhosas, que fazem parte da minha história, algumas delas até antes da música”, lembra.

Antes mesmo de o álbum ser lançado de forma completa, algumas músicas haviam se tornado hits, como Se joga, bastante tocada no período do verão e carnaval. Apesar disso, o primeiro sucesso de Aretuza é de 2012, a música Striptease, que teve clipe gravado em Brasília, e a apresentou para o Brasil. “Brasília foi onde tudo começou. Não foi fácil por vários motivos. Me senti limitada muitas vezes pelo eixo Rio — São Paulo. Pela falta de oportunidades, muita gente desacreditou, mas me apeguei a mim. Tenho carinho e uma gratidão por Brasília e por representar Brasília. As pessoas têm uma visão muito deturpada da cidade por causa da política. Então, fico feliz de ser uma artista do pop que representa Brasília”, completa Aretuza.

Rap

A paixão pela música é antiga para Paulo Amaro. Na infância, ele já gostava de dançar e, aos 15 anos, escreveu a primeira canção, influenciado pelo irmão JC Amaro, que fazia parte de um grupo de rap. “Comecei ajudando meu irmão em shows, até que escrevi minha primeira canção. Depois conheci o grafite e uma coisa foi levando à outra”, lembra.

Paulo Amaro faz parte do restrito grupo de rappers que se assume homossexual(foto: Baneira/Divulgação)
Paulo Amaro faz parte do restrito grupo de rappers que se assume homossexual (foto: Baneira/Divulgação)


Aos 18 anos, parou com o rap para se dedicar às artes visuais e nesse mesmo momento se afastou do ritmo por conta da sexualidade. “Sou homossexual e, aparentemente, essa cena do rap era muito machista e homofóbica. Não me sentia bem naquele local”, conta. Até que, em 2015, foi agredido por quatro homens. O momento difícil o inspirou a compor novamente. “Aprendi com o rap que fala tanto da realidade da periferia, das questões sociais e raciais e pensei: “por que o rap nunca falou dos gays que moram e morrem na periferia?”. Me vi nessa necessidade, porque a periferia tem outros grupos e eles estavam sendo excluídos dela”, explica.

Assim surgiram as 12 canções que compõem o álbum Mar, lançado no fim do mês passado no canal de Paulo Amaro no YouTube. Gravado de forma independente e todo com apoio de artistas e produtores do Distrito Federal, o material fala das experiências de Amaro. “Eu estava compondo e era algo autobiográfico. Ele é um autorretrato, só que musicalizado”, explica.

Sobre os desafios que enfrenta por ser um artista assumidamente gay no cenário rap, ele afirma: “Na verdade, eu mesmo criei essa dificuldade na minha cabeça. A partir do momento que comecei a me impor como rapper homossexual, vi que era um novo debate. Ainda hoje vejo que existem algumas barreiras. Meu trabalho é melhor recebido pela comunidade LGBT, mas já participei de eventos heteronormativos e a receptividade foi muito boa”.

Assim com o álbum de Aretuza, Paulo Amaro chamou alguns convidados para a estreia musical. São eles, Lisita (Reza a lenda), Taliz (Zeppelin), Gael (Lobo mau), Fiákra (Quem é você?) e JC Amaro (Pela boca). “Meu primeiro pensamento foi: “é um trabalho íntimo e traz uma questão de militância, pela minha ideologia, então eu não poderia colocar pessoas que fossem fora dessa militância”. Fui buscando artistas que convivem comigo e que tinham essa ideologia. Acho importante me posicionar. A única pessoa que, digamos, está fora desse universo é meu irmão, que é um cara que me ensinou a fazer rap e, apesar de não estar envolvido, é simpatizante”, completa Amaro.

Como forma de valorizar a produção candanga, Paulo Amaro fez o álbum inteiro no DF. O disco teve produção de Leandro Solo e dois clipes feitos pelo coletivo Ceilandwood, de Ceilândia, entre eles, o já lançado Ressaca. “Tenho muito essa coisa da parceria com artistas e produtores daqui. É importante a galera de Brasília se unir para produzir um trabalho de qualidade e mostrar que a música e o trabalho daqui continuam vivos”, afirma.

Mar
De Paulo Amaro. Independente, 12 faixas. Disponível no canal do cantor no YouTube.

Mercadinho
De Aretuza Lovi. Sony Music, 12 músicas. Disponível nas plataformas de streaming.

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