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Correio Braziliense

Jovens brasilienses nasceram na época do streaming, mas adoram o vinil

Eles nasceram com os CDs e cresceram com o MP3 e as plataformas de streaming, mas gostam mesmo dos bolachões. Conheça jovens brasilienses que não abrem mão de escutar música na vitrola


postado em 05/08/2018 06:45 / atualizado em 06/08/2018 16:31

"Sempre tem música boa nos discos de novela" Ana Caroline Lima (foto: Arquivo pessoal/Divulgação)

É notável a movimentação de jovens em busca de vinis em Brasília. Em tempos de serviços de streaming, eles dispõem de dezenas de alternativas para ouvir música, mas alguns preferem à moda antiga. Não é saudosismo, até porque a fase dos borrachões já havia sido superada quando a chamada geração z (nascidos entre meados de 1990 e início dos anos 2000) veio ao mundo. Anacrônicos ou não, muitos adquiriram gosto pela coisa e passaram a cultivar coleção de LPs. Para aqueles que herdaram algumas obras, bastou dar continuidade. Outros, sem vitrola ou discos, começaram uma coleção do zero.

A volta da produção em massa de discos no Brasil serve de estímulo para a empreitada desses novos entusiastas, que, em geral, preferem lojas físicas à internet. “Quem movimentou a volta dos vinis foi essa galera”, avalia Josiele Moreira, que há quase três décadas comanda um sebo de discos na Asa Norte. A brasiliense diz que, durante muito tempo, a variação de idade entre frequentadores da loja foi balanceada. "Hoje, a maioria é jovem."

 
"Quem movimentou a volta dos vinis foi essa galera", avalia Josiele Moreira (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
 

Para explicar como entende o fenômeno, Josiele recorre à memória de uma charge que viu, há alguns anos, no Correio Braziliense: “A figura mostrava um senhor entregando um disco ao neto, enquanto o neto entregava um iPod ao avô”. De acordo com a ilustração, o que motiva a procura pelos bolachões seria a troca do habitual pelo inusitado.

Mas a explicação deles vai além. Os colecionadores entrevistados falam dos minutos que envolvem o processo de ouvir o LP como algo que beira o místico. Todas as etapas são dignas de nota: escolher o que ouvir na biblioteca, depositar a mídia no aparelho, ajustar a agulha, virar o lado quando for o momento, e, por fim, degustar o som singular que a vitrola reproduz. O encarte é um espetáculo à parte, também destacam.

“É como ler um livro”, acredita Leonardo Prysthon, estudante de direito. O recifense de 21 anos acredita que, ao ouvir o disco, é capaz de fazer uma melhor análise da obra. Juntava discos antes mesmo de possuir uma vitrola. “Ganhei uma dos meus pais de aniversário e, desde então, passei a comprar mais exemplares”.
 
 
"Ouvir música em LP é como ler um livro" Leonardo Prysthon (foto: Arquivo Pessoal)

Hoje, a coleção dele está em torno de 30. O primeiro LP, ele comprou há cinco anos em Amsterdam. Uma trilha sonora de segunda mão de O poderoso chefão. Na capa, vinha o nome do antigo dono, um norte-americano. “Encontrei a pessoa na internet e avisei que o LP estava em boas mãos”, relata. Agradecido, o sujeito até passou dicas de como cuidar dos discos ao jovem de 16 anos à época.


Estilos

Além de buscar lançamentos de artistas contemporâneos, os jovens consumidores de LPs não deixam morrer o registro deixado por grandes músicos do passado. “Tem menino bem novinho atrás de discos antigos, como os de Heitor Villa-Lobos”, comenta Josiele Moreira.

Ela explica que a procura é por títulos das mais variadas décadas e gêneros musicais. “Beatles, com certeza, é do que a molecada mais vem atrás”, ressalta. Os Garotos de Liverpool embalaram toda uma geração nos anos 1960. Hits para lá de consagrados, como Come together e Hey, Jude, continuam ecoando sem deixar de provocar encanto.
 
"Esse formato ajuda a me conectar com a música porque foi pensado pelos artistas" Alice Maria Araújo (foto: Arquivo Pessoal)
 

“Tenho uma coletânea de lovesongs dos Beatles, que expressa todo meu carinho por música”, conta Alice Maria Araújo, cujo primeiro contato com o grupo foi pela voz do pai, músico, que cantava para ela antes de dormir. Foi dele que a brasiliense de 23 anos herdou cerca de 150 discos. Hoje, a coleção dela chega a 270. Herdou também a veia setentista, década predominante em sua biblioteca. “Me conecto mais com a música do passado, e ouvir nesse formato ajuda a me conectar ainda mais, porque era o formato pensado pelos artistas.”

Aos 19 anos, Ana Caroline Lima, estudante de letras na Universidade de Brasília, tem quase 200 discos na coleção. Do avô, ganhou os 60 primeiros. “Sempre tem música boa nos discos de novela”, brinca a menina, fã de artistas nacionais. O primeiro que comprou foi Acabou chorare, clássico dos Novos Baianos, mas conta que não tem preferidos. “Às vezes, estou numa fase Gal Costa. Depois, entro em outra meio Jorge Ben e por aí vai”, diverte-se.


Streaming?

"Também escuto música no YouTube e em plataformas de streaming, mas fico pulando música nesses sites", diz o colecionador Gustavo Henrique (foto: Arquivo pessoal)

 
“Também escuto música no YouTube e em plataformas de streaming, mas fico pulando música nesses sites”, diz o colecionador Gustavo Henrique, de apenas 16 anos. “Com vinil eu não tenho isso de ficar mudando a canção o tempo todo", diz, “deixo o álbum rodar completo". Estudante do Ensino Médio, o jovem tem uma coleção modesta, com cerca de 20 LPs. A paixão vem de família. “Meu pai e minha avó têm muitos vinis; então, eu escuto nesse formato desde os 8 anos”, afirma o jovem, que começou o próprio acervo do zero.
 
"Gosto da sensação de segurar o disco, ter o objeto físico" Guilherme Wanke (foto: Arquivo Pessoal)
 

O baterista e estudante de design gráfico Guilherme Wanke, com 20 anos e 20 discos, tem julgamento similar. “Gosto da sensação de segurar o disco, ter o objeto físico. Faço o máximo para conseguir ter o que quero ouvir. Só quando não consigo, recorro a mídias digitais”, explica Wanke.

* Estagiário sob supervisão de Igor Silveira

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