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Correio Braziliense

Exposição faz retrospectiva de Paulo Bruscky, referência da arte conceitual

Mostra é a primeira individual do artista em Brasília e reúne obras de 50 anos de carreira


postado em 06/08/2018 07:30 / atualizado em 04/08/2018 16:16

(foto: Paulo BUrscky/Divulgação)
(foto: Paulo BUrscky/Divulgação)

 
 
Foi graças ao trabalho dos filhos Yuri e Raiza que a compilação de cinco décadas de carreira pôde ser reunida em PaLarva – Poesia Visual e Sonora de Paulo Bruscky, em cartaz a partir de hoje na Caixa Cultural. Os filhos de Paulo Bruscky são também os catalogadores e pesquisadores da obra do pai, um dos nomes mais importantes da arte conceitual brasileira. A primeira individual do artista pernambucano em Brasília é simbólica em vários sentidos e, para celebrá-la, ele fará duas performances na cidade, uma amanhã, durante a abertura, e outra na terça. São intervenções que retratam bem o caráter da obra de Bruscky.

A exposição é simbólica porque traz à capital trabalhos censurados durante a ditadura e algumas obras inéditas. Os momentos político do Brasil e tecnológico da sociedade global pareceram ao artista ideais para voltar a falar de regime militar, liberdade de expressão, opressão e comunicação, temas caros a uma produção que traz o lastro de ser pioneira e a característica de resistência. Boa parte do conteúdo trabalhado por Bruscky nasceu de um contexto político de repressão. “A parte política censurada nunca foi mostrada como nessa exposição”, avisa. “É importante fazer isso agora, principalmente por ser em Brasília e por todo esse caos que o país sempre atravessou e vem, cada vez, se ampliando mais. Eu nunca tinha juntado uma parte tão grande do meu trabalho político dos anos 1960 e 1970 até agora.”

Bruscky foi pioneiro da arte postal. Não a brasileira, como gosta de frisar, mas a internacional, já que o movimento engajou artistas do mundo inteiro nos anos 1970. A troca de cartas nas quais falavam de arte, mas também de questões sociopolíticas que marcavam o planeta na época possibilitava uma comunicação global com um pouco mais de liberdade do que a permitida por regimes totalitários que vigoravam em praticamente todos os continentes. “Foi o primeiro movimento sem nacionalidade, estourou no mundo todo. A grande obra era a comunicação entre os artistas e as pessoas que viam as exposições, porque tudo foi transformado em espaço expositivo e nós discutíamos. E continuo fazendo, mantenho uma série de contatos para discutir as questões não só estéticas, mas do ser humano”, lembra o artista.

Para Bruscky, a escolha pela arte já é uma atitude política. Poeta e artista multimídia, funcionário público do antigo Inamps, ele embarcou na arte conceitual nos anos 1960. Fez arte com xérox, fotografia, filmes, vídeos e livros. Em 1973, começou a atuar no Movimento Internacional de Arte Postal, momento em que deu início ao contato com uma rede de artistas responsável por tocar as vanguardas da arte mundial. Trocou cartas com integrantes de movimentos como o Fluxus e o Gutai, à frente no discurso de quebra estética e inovação de conceitos. Foi censurado — uma de suas exposições de arte postal, em Recife, foi fechada pela censura em 1976 —, demitido de um emprego por ser “comunista”, mas nunca deixou de produzir. Ao longo das décadas, acumulou um acervo de 70 mil obras de arte postal e outras peças, que acabou exposto ao público em 2004, quando a 26ª Bienal Internacional de São Paulo recebeu o ateliê integral do artista em uma sala especial.
 
O artista no ateliê: mais de 70 mil peças no acervo(foto: Paulo Bruscky/Divulgação)
O artista no ateliê: mais de 70 mil peças no acervo (foto: Paulo Bruscky/Divulgação)
 
 
A liberdade para dizer o que pensa sempre foi o bem maior de Bruscky, que nunca se filiou a partido político. “Nunca me filiei a nenhum partido porque tenho ética. Eu sempre trabalhei pela margem e pela esquerda, mas não ligado a nenhum partido porque faço o que quero quando quero”, avisa, aos 69 anos. Os suportes de Bruscky são os mais diversos. Poesia visual e sonora aparece em praticamente todas as produções, que também se apresentam em forma de colagem, instalações e nos famosos xerofilmes, sequências criadas com a técnica da fotocópia. Entre os trabalhos expostos na Caixa está uma série de inserções em Classificados. Uma delas é recente e foi feita no Correio Braziliense, em 2015, quando Eduardo Cunha (PMDB-RJ), então presidente da Câmara dos Deputados, prometeu cumprir promessa de campanha de tirar da gaveta projeto de construir um centro comercial com hotel no Congresso Nacional. No anúncio, Bruscky sugeria construir também um motel. A ação dá o tom da ironia e do questionamento político presentes na obra do artista.
 
  
Nas performances programadas para amanhã e terça, as mesmas posturas estão presentes. Em Poesia viva, realizada durante a Bienal de Veneza de 2017 (da qual Bruscky foi um dos artistas convidados para o Pavilhão Internacional) e censurada porque o artista não pediu autorização prévia, ele propõe ao público caminhar com batas com letras impressas. O chão é a folha na qual as palavras caminham, um exemplo da poesia visual que permeia a obra do artista. Na outra, Acupunturação global, é a guerra que preocupa Bruscky. “É uma performance feita com um globo e vai retratar essa situação dessa indústria da guerra, mais do que nunca presente no mundo e cada vez mais desumana. Acho que o ser humano nunca foi tão degradado quanto na época de hoje”, lamenta. São temas que  também estiveram presentes na retrospectiva montada no Centro Georges Pompidou, em 2017, ideias de um artista que, das margens do mundo, sempre desafiou o status quo.
 
Obra
Obra "Disco antropofágico", de 1984 (foto: Paulo Bruscky/Divulgação)
 

» Entrevista / Paulo Bruscky

Quais são as questões hoje que te interessam como artista?
Uma é em relação a essa indústria da guerra, que é cada vez maior. Tem a questão da Coreia do Norte, dos EUA, da Nicarágua, da Colômbia, que terminou há pouco. Essa indústria da guerra vai cada vez mais degradando, matando gente. O que me interessa é essa questão política abordando mais a questão do ser humano. E os meios de comunicação: eles aumentam  a distância entre as pessoas também. Ninguém ouve mais ninguém, os espaços para a cultura cada vez estão menores, as pessoas não leem, isso faz um recorte do que acontece. O grande perigo hoje, na internet, é que o que veicula, em grande parte, são mentiras, invenção de pessoas que têm o interesse em confundir a opinião pública para tirar algum tipo de vantagem ou levar mesmo à desorientação com intenção direta sobre isso. Alienação. E os políticos, cada vez mais, se interessam pela alienação. Nunca vi tanta incompetência política no país como atualmente. Em todos os partidos.

O que mais te preocupa nessa questão política?
A questão da falta de condição para o ser humano, principalmente na América Latina, a questão da educação, da saúde. Você não vê mais pessoas que realmente cuidavam de educação, como Paulo Freire e Anísio Teixeira, que foi assassinado. O país expulsou as pessoas que mais tinham interesse na educação. Hoje, as pessoas são muito manipuladas, elas esquecem o idealismo quando chegam num determinado cargo. Isso em todos os níveis, de vereador a presidente.

E que preço pagamos por isso?
Muito caro. Que é a falta de condição humana, porque ninguém foi feito para estender a mão pedindo comida, esmola, nem para estar dormindo na rua, não tendo o que comer ou como educar os filhos. E isso me incomoda muito. O artista, mais do que ninguém, assume essa questão e trabalha sobre isso de forma mais direta.

Do Movimento Nadaísta, que você ajudou a criar nos anos 1970, para hoje, o que resta?
A gente discutia muito o que é o nada e o que é o nunca. E hoje a gente está chegando a esse estágio do nadaísmo ser o nuncaísmo. Significa essa degradação e esses descaminhos cada vez mais tronchos e fora das coisas normais em relação a tudo.

Você diz que ser artista é um ato político. Como é isso? 
Acho que só de ser artista já é tomar uma atitude política, porque a revolução se faz com quebra de estética. Se você quebra a estética, você tem tudo, abre caminho para que outros façam cada um o seu papel. E o meu é de quebrar a estética, fazer as pessoas sentirem, refletirem, pensarem, por isso sempre trabalhei na rua, com meios de comunicação, para atingir um grande público e ele refletir um pouco. A arte será sempre a última esperança, porque não existe outra coisa fora a arte que leve o ser humano a refletir sobre a vida e a função de ser humano.

Nos anos 1970, havia muitos reflexos do contexto político na arte contemporânea. Você vê isso acontecer hoje na arte?
Muito pouco. As pessoas estão mais interessadas em serem famosas, terem reconhecimento e vender. Grande parte do pessoal jovem está mais preocupado com essas coisas alienantes que são o mercado, o reconhecimento e a fama. São artistas mitômanos, que não demoram muito, eles inventam uma realidade que não existe. Uma coisa que mudou é que tem pessoas com boas formações assumindo espaços públicos , embora uma parte continue sendo política, sem nenhuma competência ou conhecimento. O Brasil nunca teve um plano de cultura definido, em nenhum governo, até hoje. Tem coisas que dão voto, que dão mais repercussão, mas uma coisa consistente e profunda, não. Não vejo grandes perspectivas nos que passaram pelo ministério e pelos outros cargos.

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