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Correio Braziliense

Luta e estética: Arte contemporânea africana ganha exposição no CCBB

Exposição 'Ex-África' traz ao CCBB obras de artistas contemporâneos africanos e afro-brasileiros: produção tem forte tom político, mas também é poético e reflexivo


postado em 07/08/2018 08:39

 Obra de Arjan Martins(foto: Paulo Rezende/Divulgação)
Obra de Arjan Martins (foto: Paulo Rezende/Divulgação)
 
Com mais de 30 mil km² distribuídos entre 54 países, a África é um mundo. Por lá, se fala mais de 3 mil dialetos e, de acordo com um censo de 2016, o território é ocupado por mais 1,2 bilhão de pessoas. Mais que isso, só mesmo no continente asiático, com seus mais de 4 bilhões.

Generalizar, portanto, é um dos maiores erros cometidos em relação ao continente africano. A diversidade por lá, talvez, seja uma das maiores do mundo. Pensando nisso, mas também no salto dado pela arte contemporânea africana desde o início do século 21, o curador alemão Alfons Hug, que esteve à frente da Bienal de São Paulo, idealizou Ex-África. Em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), a exposição reúne 20 artistas contemporâneos, sendo dois brasileiros, com mais de 90 obras responsáveis por traçar um panorama da produção africana.

Hug tem uma relação pessoal com a África. Morou em Lagos, maior cidade da Nigéria e do continente, por muitos anos e pesquisa a arte da região há mais de três décadas. Em 2004, ele idealizou Arte da África. “Era arte antiga”, lembra. “Achei interessante investigar a produção contemporânea. Nos últimos 20 anos, essa produção aumentou e melhorou muito. A arte africana se afastou do estigma do folclore e da arte popular com o qual teve que conviver por muito tempo.”

A presença africana nas maiores mostras de arte contemporânea do mundo, como a Documenta de Kassel e a Bienal de Veneza, tem aumentado e o movimento afro tem ganhado cada vez mais visibilidade no Brasil. Hug achou que era hora de realizar uma exposição com esse viés.

Ndidi Diki comprou objetos usados para torturar e prender(foto: Ndidi Dike/Divulgação)
Ndidi Diki comprou objetos usados para torturar e prender (foto: Ndidi Dike/Divulgação)

Produção


Segundo o curador, as obras foram escolhidas de acordo com critérios como qualidade e relevância. Os artistas têm entre 30 e 45 anos e sua produção está antenada com o cenário internacional. “Há 20 anos, era difícil encontrar uma obra de um afrodescendente em uma Bienal de São Paulo. Quando havia, eram mais artefatos, um tipo de produção artesanal, mais que arte contemporânea. Isso mudou. Tem um movimento em São Paulo e no Rio de Janeiro com um discurso contemporâneo que não se encaixa mais na arte popular e várias mostras foram feitas sobre o tema”, diz.

Para frisar cada um dos vieses discutidos nas obras, o curador dividiu Ex-África em módulos. Fica a cargo de Ecos da história introduzir o público em um dos temas mais duros tratados pelos artistas: o colonialismo e o tráfico de escravos. A crítica é forte em trabalhos como o da nigeriana Ndidi Dike, que encontrou, em uma feira, objetos utilizados para prender e ameaçar os escravos e os reuniu em uma instalação perturbadora. “Muitos artistas fazem reflexões sobre a escravidão”, avisa o curador.

Nas fotografias do beninense Leonce Raphael Agbodjelou, a tradição e a modernidade se esbarram em um retrato da vida cotidiana de Porto Novo, cidade natal do artista. Dos interiores às ruas da cidade, há sempre um olhar que procura unir pontas de uma história que é, ao mesmo tempo, trágica e próspera. Os portos construídos para a exportação dos escravos e o Code Noir, uma compilação de regras sobre o direito de propriedade dos colonos franceses sobre negros escravizados, são alguns dos temas do trabalho de Leonce.



Residência


Em Ecos da história entra também o trabalho do brasileiro Arjan Martins, que se debruça sobre as cartografias do tráfico de escravos e as aproximações entre África e Brasil. Além dele, o brasiliense Dalton Paula também está na mostra. Os dois artistas participaram de uma residência em Lagos, experiência que influenciou a produção dos trabalhos. Paula trouxe para Ex-África uma série de sete pinturas sobre ex-votos.

A história recente alimenta parte das obras. O egípcio Youssef Limoud, por exemplo, buscou nas consequências da Primavera Árabe o material para a instalação Geometria da passagem. Ruínas reais, geradas pelos conflitos que se seguiram ao movimento, mas também simbólicas estão ali representadas.

“O trabalho foi inspirado pelo triste destino da revolução egípcia e da Primavera Árabe em geral”, avisa. “Tudo se tornou destruição e ruína, literalmente, como na Síria, e metaforicamente, caso do Egito. Estamos rodeados de ruínas, nos movendo por ruínas e sendo inibidos por ruínas. No final das contas, é sobre a fragilidade do mundo, a fragilidade do corpo”.

As metrópoles africanas e suas dinâmicas estão em O drama urbano, módulo marcado por contrastes. Aqui, o trabalho do nigeriano Karo Akpokiere ganha um lugar de destaque com foco na cultura pop africana.
 
Instalação Geometria da passagem, do egípcio Youssef Limoud(foto: Gunnar Meier/Divulgação)
Instalação Geometria da passagem, do egípcio Youssef Limoud (foto: Gunnar Meier/Divulgação)
 

Segregação


Um arranha-céu em Johanesburgo (África do Sul) é o tema da videoinstalação de Mikhael Subotsky e Patrick Waterhouse. A dupla transforma as janelas em pontes para as histórias de segregação socioeconômica e decadência nas grandes cidades. “O drama urbano é algo recente, porque as metrópoles vêm crescendo de forma explosiva e isso influi na produção. Em breve, Lagos, por exemplo, vai ser uma das maiores cidades do mundo”, repara Hug.

O corpo é protagonista em Corpos e retratos. O questionamento dos estereótipos está presente nas fotografias do angolano Nástio Mosquito e nos autorretratos de Omar Victor Diop, que retrata a si mesmo em série cujos temas centrais são a diáspora e a liberdade. Ex-África tem ainda um módulo dedicado à música. Em Explosões musicais, uma sala da exposição é transformada no Clube Lagos, com uma amostra da música africana contemporânea. “Desde os anos 1950 e 1960, no período pós-independência e, sobretudo, na África Central e Ocidental, criou-se um novo estilo musical, o afropop. A partir daí, surgiram vários novos estilos. Alguns têm vínculo com as artes visuais, outros não. Achei interessante mostrar esse zeitgeist que vem da música”, explica Alfons Hug.


“É uma exposição política, não é o lugar comum da predileção ideológica das agendas das instituições brasileiras. Isso geralmente é colocado em um lugar menor do caricato, do primitivo, do exótico. Trazer essa produção é uma resposta para tirar esse continente desse lugar em que é colocado diante da herança colonial”
Dalton Paula, artista plástico



Duas perguntas / Youssef Limoud


Você acredita que a arte pode ser uma voz contra a opressão? 
Um ano depois da revolução, em 2010, eu estava no Cairo para um projeto de arte e fiquei em áreas muito populares nas quais todos os dias eu precisava traçar um caminho ao longo de uma fila de rostos miseráveis esperando há horas para pegar alguns pães feitos com subsídio do governo. Visto isso, apesar de não ser novo para mim, foi o ponto de virada do meu trabalho em direção aos fenômenos sociopolíticos. Para mim, a maior preocupação na arte é a estética. Isso é um fato. Ao longo da história, a arte nunca parou guerras ou eliminou a pobreza. Se ela tem um papel, eu acho que é trazer a realidade à tona. E isso já é uma tarefa muito mais profunda do que ser uma voz contra algo.

Por que escolheu as ruínas como tema?
Desde a infância eu sou fascinado por ruínas. Além de sua capacidade poética e estética, as ruínas são, geograficamente, o que dá corpo à história. É o que dá corpo ao passado e ao presente também, é o tempo, em uma palavra. Na minha escrita, o senso de tempo e decadência ao longo do tempo está muito presente. O fato de eu ser muito interessado por arquitetura fez meu trabalho transitar entre construção e distração, ordem e desordem...


Ex-África 

Exposição de arte contemporânea africana e afro-brasileira. Curadoria: Alfons Hug. Visitação 
até 21 de outubro, de terça a domingo, das 9h às 21h, 
no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB_ SCES Trecho 2)

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