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Correio Braziliense

Tony Ramos: 'Envelhecer é uma bênção'

Em entrevista ao Correio, Tony Ramos fala sobre a terceira temporada de A arte do encontro, da nova novela e da fama de bom moço


postado em 08/08/2018 06:22

"Eu sou um homem de muita fé e de postura clara perante o que eu chamo de Deus, que nós não sabemos como é o rosto, como ele é, mas que é, sim, para mim, uma energia muito forte" (foto: Ana Paula Amorim/Divulgação)


Todos os dias,  Antônio de Carvalho Barbosa levanta por volta das 5h, se barbeia, toma café da manhã e vai para a esteira, de olho nos jornais matutinos, desde o Hora um. Depois, disso, perto de completar 70 anos de idade (em 25 de agosto), ele tem uma agenda “felizmente cheia” para cumprir. “Sou apenas um cidadão de bem, que cumpro minhas obrigações e pago meus impostos”, afirma Antônio, ou melhor Tony Ramos, um dos atores mais talentosos e queridos da televisão brasileira.

Cidadão de bem e incansável, faltou acrescentar. Tony se define como “um homem de tevê”. Ele estreia hoje a terceira temporada de A arte de encontro, programa de entrevistas (que ele prefere chamar de bate-papo) que comanda no Canal Brasil. Nesta temporada, ele receberá nomes como a atriz Arlete Salles, o cineasta Julio Bressane e a cantora Teresa Cristina. A estreia é com a atriz Aracy Balabanian.

Além disso, há cerca de um mês terminou as filmagens do longa 45 do segundo tempo, de Luiz Villaça, e atualmente grava as cenas de seu personagem na próxima novela das 21h, O sétimo guardião, a primeira do autor Aguinaldo Silva em que Tony atuará.

Com tanto trabalho e uma agenda de compromissos cheia até 2019, Tony não se permite sentir o peso dos 70 anos. “Eu respeito profundamente quem usa expressões como ‘envelhecer é chato’, mas eu não entro nessa via de lamentações porque eu acho que envelhecer é uma bênção. Quando eu tinha 40 anos, portanto há 30 anos, eu pesava mais do que eu peso hoje”, afirma, aos risos. 

O bom-humor é uma marca constante nas falas de Tony. Só desaparece quando o assunto são as eleições, ou melhor os candidatos porque votar para o ator que poderia não ir às urnas é “uma alegria”. O cidadão Tony espera uma candidato que privilegie o Estado enxuto, as reformas fiscais e, sobretudo, a educação. “Uma nação sem educação não pode ser autointitulada de nação. Nação e educação até rimam, devem andar de mãos dadas. Mas se roubou tanto nos últimos que provou-se que há dinheiro, sim. Não há é vontade política”, defende.

Na entrevista a seguir, Tony fala ao Correio sobre a fama de bom moço que o persegue, fé, política, os 70 anos e, claro, muita televisão. Confira!

Entrevista// Tony Ramos


O senhor estreia hoje a terceira temporada de A arte do encontro. Já está mais à vontade na função de entrevistador?

Completamente à vontade porque, na verdade, eu nunca me considerei apresentador e muito menos entrevistador. A proposta do programa desde o primeiro ano foi a de deixar que aquela mesa com livros sobre ela se transformasse num palco, numa intimidade, num retrato em que estivéssemos longe de qualquer curiosidade ou das tradicionais perguntas de entrevistas. É natural que nos primeiros programas, como em qualquer estreia, houvesse o nervoso. Mas é o nervoso de ter preocupação de fazer corretamente, de respeitar quem está ali na minha frente, de entender a obra. Se eu não conheço profundamente, eu estudo a obra da pessoa. Então, eu fui de alguma forma me sentindo muito à vontade.

Pelo fato de o senhor ser ator, às vezes temos a impressão de que o senhor conhece ou é amigo de todos os seus entrevistados...

Por mais que eu até conhecesse muitos dos participantes do programa %u30FC  até porque nem todos eu conhecia %u30FC,  a gente não tem uma intimidade cotidiana. De todos os entrevistados %u30FC  chamemos assim %u30FC  desses 50 programas, com poucos eu tenho essa intimidade cotidiana. Esse número não chega a 12, 14. As coisas foram acontecendo naturalmente. Quando eu entrevistei o (cantor) Zeca Pagodinho, por exemplo, eu não tinha nenhuma intimidade com o Zeca, mas tinha uma profunda curiosidade porque eu adoro a personalidade dele, a obra dele, o timbre de voz, a cadência, a interpretação não apenas para dizer os versos, mas que vem da alma do sambista. Foi uma delícia, uma verdadeira revelação entrevistá-lo. Da mesma forma aconteceu com o Ney Matogrosso, com o Matheus Nachtergaele, que foi um momento lindo, poético, emocionante do programa.

O senhor participa da seleção dos convidados?

Não. Às vezes me perguntam se eu tenho alguma sugestão e eu digo “porque não esse? Porque não aquele?”... Nós tentamos duas vezes a Bibi Ferreira e a Bibi estava em São Paulo com um espetáculo e não tínhamos condição de produção de ir a São Paulo entrevistá-la. Até pensamos em montar o cenário num estúdio em São Paulo, mas eu também lido com a minha agenda. E minha agenda pessoal é complicada. Neste momento que eu falo com você estou em plena gravação da próxima novela das 21h, do Aguinaldo Silva (O sétimo guardião). Há uma série de impedimentos. Então, eu tenho que ter um período certo para fazer os programas. Ou eu estou em cinema, como acabei de fazer um filme no início de julho. Entre a novela Tempo de amar e essa nova, eu terminei um filme do Luiz Villaça, em São Paulo. Eu tenho uma agenda que felizmente é uma agenda bem complicada.
 
Tony Ramos com Aracy Balabanian: programa de entrevistas(foto: Ana Paula Amorim/Divulgação)
Tony Ramos com Aracy Balabanian: programa de entrevistas (foto: Ana Paula Amorim/Divulgação)
 

Tem alguém, além da Bibi Ferreira que o senhor gostaria de entrevistar?

Maria Bethânia, com certeza! Seria uma alegria enorme poder entrevistá-la, poder conversar com ela, falar sobre poesia que eu sei que ela ama tanto. Tem uns 4 ou 5 nomes na Academia Brasileira de Letras com quem eu adoraria conversar, bater um papo. 

O senhor faz 70 anos este mês. Isso pesa para o senhor de alguma forma?

Olha, quando eu tinha 40 anos, portanto há 30 anos, eu pesava mais do que eu peso hoje (risos).  Veja bem, eu respeito profundamente quem usa expressões como “envelhecer é chato”, mas eu não entro nessa via de lamentações porque eu acho que envelhecer é uma bênção.  Cada um tem sua postura perante a vida e eu obviamente respeito, claro. Mas se você faz a pergunta para mim: “o que é fazer 70?”. É aguardar fazer 71. A minha análise é muito linear, simplista e absolutamente natural.  Fazer anos é uma bênção de Deus e mais ainda num país como o nosso que não privilegia pessoas acima de 40 anos no trabalho. Estar sendo convidado para trabalhos, aos 70, é um privilégio. A minha agenda, para você ter uma ideia, está fechada até 2019.

O senhor agradece a Deus ou a alguma religião por isso?

Eu acho que é uma bênção. Isso depende de cada um. Eu sou um homem de muita fé e de postura clara perante a o que eu chamo de Deus, que nós não sabemos como é o rosto, como ele é, mas que é, sim, para mim, uma energia muito forte. Eu não quero ser um catequizador, portanto paro por aqui, dizendo que eu sou um homem de fé, um católico de fé, mas que pratica a sua religião sem ser um carola de igreja. Mas ter fé é uma coisa muito pessoal.

O senhor está gravando O sétimo guardião, do Aguinaldo Silva. O senhor trabalhou pouco com esse autor. É a primeira novela dele, não?

Eu fui uma vez convidado a fazer uma novela dele como Tony Ramos. Ele queria que eu e minha mulher, Lidiane, participássemos da novela Duas caras (2007). O personagem do Thiago Mendonça ia inaugurar um bar e o Aguinaldo quis que uma personalidade fosse no cenário. Então eu fui como Tony Ramos e Lidiane como Lidiane, assustadíssima (risos). Foi uma participação simpática, muito bonita. Mas como ator mesmo, vivendo um personagem, é a primeira vez. E eu estou muito feliz com essa novela admirável e surpreendente. O Aguinaldo é um autor que respeita muito o folhetim. A novela tem muita qualidade, tem graça e tem ao mesmo tempo que é muito importante numa novela:o triângulo amor, paixão e suspense.
 
 
Com Glória Pires na comédia 'Se eu fosse você'(foto: Globo Filmes/Divulgação)
Com Glória Pires na comédia 'Se eu fosse você' (foto: Globo Filmes/Divulgação)

Nesses 55 anos de carreira, o senhor está sempre transitando entre gêneros, como drama e comédia, e entre mocinhos e vilões…

Eu transito bastante mesmo. Acabei de fazer um personagem num filme que é uma neocomédia, que é aquela comédia que você reflete sobre aquele próprio humor que está sendo proposto, uma comédia humanística, onde três amigos se reencontram 35 anos depois, como é que está a vida deles, os amores, as decepções. Você ri muito com esse novo filme meu, mas ao mesmo tempo, quando você termina de rir vem uma reflexão. Então eu transito por aí, sim. É só lembrar de E seu eu fosse você duas vezes e de Vade retro. Eu sou um ator brasileiro que gosta de ser surpreendido por bons projetos.

Nesse tempo de carreira deu para aprender muita coisa, não? O senhor agora já deve estar ensinando...

Deu para aprender e vou continuar a aprender sempre. Aprendo com os jovens, com meus amigos veteranos, estou aprendendo o tempo inteiro. Ai daquele que se acomodar. Nunca me acomodei, não me acomodo. Tenho visões claras sobre a minha profissão, tenho projetos e mais projetos. Tenho projetos como produtor, não só como ator. Não estou acomodado em hipótese alguma! 

A profissão de ator mudou muito nesses 50 anos. O senhor acha que ela evoluiu?

A profissão mudou na sua tecnologia, na abordagem. Mas não é de hoje, não. Nos últimos 15 anos, a televisão vem se modificando. Com o advento da internet, o jeito de ver televisão se modificou: você pode ver depois o que perdeu e pode gravar nas operadoras o que você quer ver. Eu mesmo gravo as coisas na minha casa. Então muda muito o jeito de ver. Só uma coisa não muda: a história. Isso não muda. Se você quiser fazer uma telenovela, não venha com invenções de colocar alguém pendurado num prédio com arame dizendo frases soltas. Você tem que contar uma história de amor, de paixão e de suspense. Tem a pessoa má… ah, mas não pode mostrar maldades. Mas a vida é cheia de maldades! Então mostra, sim. Mostre e faça a moral da história. Não empurre os problemas para debaixo do tapete.

Mas e a qualidade das tramas?

Eu acho que a dramaturgia cresceu, melhorou. Eu não sou daqueles saudosistas que acham que só no passado as novelas eram boas. As novelas foram mudando de acordo com o seu tempo, de acordo com a sociedade, com aquilo que você vê no meio da rua.

O senhor gosta de assistir a que na tevê?

A tudo! O programa de que eu mais gosto e não perco sob pena nenhuma é o Globo Repórter. Eu não perco o Globo rural aos domingos. Eu assisto ao Hora um, às 5h. É a hora que a acordo. Eu acordo, faço minha barba, ligo a tevê, tomo meu café vendo o Hora um, vou para a minha esteira com a tevê ligada. Eu vou, com o controle remoto, vendo noticiários. Eu vejo a novela das 21h e também adorei a estreia de O tempo não para. Na mesma hora eu liguei para colegas de tão empolgado que fiquei com a estreia. Eu sou assim (risos). Eu vejo outros canais também. Gravo a novela da Record, quero saber como está. Eu sou um homem de televisão. Sem nenhum pedantismo %u30FC  longe de mim! %u30FC  eu posso dizer que entendo de televisão. Mas é porque eu vejo de tudo um pouco. Essas operadoras novas %u30FC  Netflix, Amazon prime… Eu vejo todas. Mas nem tudo é bom (risos). Eu estou doido para a Globo lançar o streaming dela porque eu já sei o que vem na grade e está muito bom. Vai sacudir o mercado, o que é excelente. É muito bom isso para o ator brasileiro porque é mais trabalho, que pode ser na Globo, na Netflix, na HBO, na Fox… todas elas têm histórias boas e isso é o que importa! A nossa televisão é muito ativa e muito criativa. 

O senhor costuma ser citado como exemplo de conduta pelos colegas e até pela imprensa. Isso incomoda ou prende o senhor de alguma forma?

Não me prende a nada. Não me incomoda. Apenas eu gosto de lembrar às pessoas que eu sou um ser humano. Eu ajo com respeito e lealdade aos amigos, eu respeito o espectador, eu evito numa entrevista pública falar palavrão %u30FC  não acho legal falar palavrão para um público tão heterogêneo, aliás eu conheço no mínimo 520 palavrões, mas não acho que eu esteja no direito de falar aleatoriamente com diferentes plateias, crianças principalmente. É por isso que eu, de certa forma, sou confundido com essa história de bom moço. Mas eu sou apenas um bom cidadão: pago meus impostos na fonte, trabalho há 55 anos e nunca pisei em cima de ninguém, respeito o próximo, sou um homem muito bem resolvido como homem, como pai de família, como avô, como companheiro da minha mulher. Se ser tudo isso é ser um bom moço, o que é que eu vou fazer? Eu não peço desculpas por ter a minha conduta. Estou em paz com a minha conduta.

E como esse bom cidadão vê este ano no Brasil, com esse cenário das eleições?

É um ano atípico! Difícil, complicado… não me decidi ainda por nenhum nome. Estamos vivendo momentos muito arredios, de muito pouca civilidade. As pessoas estão trabalhando nas extremidades absolutas. Eu não gosto das expressões esquerda e direita. Eu acho que a expressão é cidadão que defende o cidadão. Eu quero muito acompanhar os debates e, como quando você está numa novela é muito exigido, eu vou gravar tudo para ver depois. Então isso vai me ajudar a me decidir. O horário eleitoral gratuito, por mais que digam que não, vai ajudar. Como eu não tenho redes sociais, eu não me guio por elas. Eu me guio pelos editoriais e entrevistas dos jornais escritos, que eu adoro, e pelos noticiários na televisão. Assim eu pretendo me decidir. 

O senhor vai votar?

Eu poderia até não votar, tenho direito a isso. Mas eu quero votar e votar com alegria e tentar entender que proposta virá no sentido de uma economia robusta que dê empregos, que traga reformas absolutas para o Estado brasileiro. Eu vejo as pessoas defendendo o Estado robusto como ele é, gastando dinheiro como ele gasta, mas sem esse dinheiro ter entrado. É como na casa da gente: a gente recebe R$ 1 mil por mês e resolve gastar R$ 5 mil. É óbvio que não vai dar certo! Para o Estado fica um pouco mais fácil porque ele vai lá e emite nota na Casa da Moeda e o dinheiro vai se desvalorizando. Não é esse o Estado que eu quero.

Qual é o Estado que o senhor quer?

Eu quero um Estado mais enxuto, um país com reformas efetivas e principalmente as chamadas reformas fiscais. Muitas empresas querem contratar, mas recuam porque têm que pagar 48% de imposto. Há uma série de coisas a serem feitas, mas ninguém até agora tocou no assunto principal: ocupar a criança! É colocar a criança na escola às 7h30 e retirá-la às 16h, com atividades esportivas, artísticas, o que é acadêmico, que é importante, mas o objetivo é ocupar a criança na escola. Uma nação sem educação não pode ser autointitulada de nação. Nação e educação até rimam, devem andar de mãos dadas. Isso não deixando o professor ganhando R$ 1,5 mil por mês achando que isso vai dar para ele se sustentar ou pagando a um policial R$ 2,2 mil para ele enfrentar armas poderosas de bandidos. Há muito a ser feito, muito a ser feito. Não há dinheiro? Mas se roubou tanto nos últimos que provou-se que há dinheiro, sim. Não há é vontade política.

Como homem público, o senhor vai participar de alguma forma dessas eleições? 

Não. Eu nunca apoiei nenhum partido, nunca me filiei a nenhum partido. Eu sou um artista independente e quero ter justamente esse distanciamento partidário ou de quem quer que seja para que eu tenha a liberdade de criticar quem quer que seja e a hora que eu quiser. Essa é a minha liberdade absoluta. A única vez que eu entrei em algum tipo de campanha foi pelas Diretas Já há 34 anos, quando ela não era partidária. Ela era suprapartidária. Era a defesa da nossa democracia, de lindos momentos cívicos. Mas fora isso, não. Não me encanto por essa política partidária, mas eu me encanto pela política. Política é coisa muito séria. Vem do polis, a maneira de nos comportarmos perante todos. Só que a política partidário, com esse escambo, com esse toma lá, dá cá, isso me entristece. É por isso que eu nunca apoiei ninguém publicamente e não o farei. E não adianta dizer: “ele está em cima do muro”. Às vezes é melhor ficar em cima, olhar de todos os lados e ver para onde não ir, como um grande observador. 

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