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Correio Braziliense

Entrevista com o animador brasileiro de Wes Anderson, Matias Liebrecht

Em 2012, o brasileiro trabalhou em Frankenweenie, de Tim Burton


postado em 08/08/2018 07:30 / atualizado em 10/08/2018 14:11

O paulistano Matias Liebrecht encarou a missão de integrar a equipe de animadores de Wes Anderson (O Grande Hotel Budapeste). O cineasta lançou seu segundo longa animado no último mês: Ilha dos cachorros. Foram 10 horas diárias de trabalho, que rendiam cinco segundos de filme.

Em 2012, o brasileiro trabalhou em Frankenweenie, de Tim Burton. Além de cachorro decrépito, a animação tem em comum com Ilha dos cachorros o rigor nos trabalhos de direção com estética bem definida.

Em entrevista ao Correio Braziliense, o artista, que há 15 anos trabalha como animador, fala de sua predileção por animações não infantilizadas, da semelhança entre Anderson e Burton e do complexo processo de criação ao lado do cineasta detalhista.

'Wes Anderson é extremamente meticuloso, extremamente detalhista, o que torna o trabalho muito mais complexo', conta Matias Liebrecht(foto: Reprodução/Instagram)
'Wes Anderson é extremamente meticuloso, extremamente detalhista, o que torna o trabalho muito mais complexo', conta Matias Liebrecht (foto: Reprodução/Instagram)


Como você chegou às produções hollywoodianas?
Comecei como todo mundo — ou como muita gente —, pelo meu próprio trabalho, pelos meus próprios curtas. Desde cedo, eu produzia em stopmotion. Quando se tem um trabalho sério e consistente, as pessoas acabam notando e ficam interessadas. Meu trabalho sempre foi sério desde que comecei com meus próprios curtas e colaborando com curtas de outras pessoas; passando para séries e, depois, para longas. É uma coisa gradual, porém, constante.

Wes Anderson é sempre lembrado por ser meticuloso na composição
dos quadros e pelo detalhismo. Isso tornou o trabalho mais complexo?
Muito complexo. Ele é extremamente meticuloso, extremamente detalhista, o que torna o trabalho muito mais complexo. Mas é a assinatura dele. Vendo o filme, a gente nota todo o detalhe, toda essa complexidade, esse virtuosismo de imagem.

Os olhares dos personagens são muito expressivos...
Ele tinha muito cuidado com os olhares e ele queria que eles fossem muito expressivos. E, às vezes, não dava certo, porque são bonecos. Em algumas vezes, ele (o boneco) está bem posicionado na oficina, mas, quando leva para o set, não fica legal: ou a luz não bate bem, ou começa a se desgastar. Às vezes, quando se faz um close up no olho, não fica legal, tem que ajustar, até ficar muito bom. Ele era muito exigente com isso. O olho é pelo que a gente mais se comunica e trabalhar com isso é muito complexo.

O fato de ele ser um diretor habitual de live action exigiu uma rotina diferente?
Torna a rotina diferente. Ele não produz uma animação pensando em gênero. Ele vê a animação como técnica. É como se ele estivesse fazendo um filme de live action com uma equipe tecnicamente diferente. Ele roda o filme da mesma forma que o escreve. Às vezes, fica complicado. A gente fala: “Pô, isso aqui é uma animação (risos), não dá para fazer isso, não dá para fazer aquilo’, mas isso traz uma grande vantagem, porque, como ele não distingue, tudo fica com uma cara muito única e isso define mais o estilo de direção dele do que a técnica.

Você tem preferência por animações que não são diretamente
voltadas para 
crianças, como Frankenweenie e Ilha dos Cachorros
Prefiro animações que fogem do infantil. No Ocidente, a gente tem mania de ver animação como coisa infantil. Tem que ter bonequinho, tem que ser bonitinho, tem que ter olho tal. Então, qualquer coisa que fuja disso já me instiga na hora, coisas conceituais, ou filmes abstratos. Tem tantos mestres do cinema abstrato no começo do século 20 que já trabalhavam com animações. Uma pessoa que admiro muito é o Jan Švankmajer.

Animações desse tipo permitem mais liberdade criativa?
Eu acho que sim. Por um lado é mais difícil. Quando você quer fazer uma coisa a um público que espera que o filme tenha essa mesma cara de animação infantil; você está atendendo a um estereótipo, antes de mais nada, e aí é mais fácil. Você tem uma fórmula pronta que, de alguma forma, vai funcionar. Quando se quebra esse paradigma, você tem uma missão. 

O que você destacaria em comum entre o trabalho de Wes Anderson e de Tim Burton?
Os dois são diretores muito visuais, então, cada um tem seu estilo muito marcado e eles tentam ser muito fiéis a esses estilos. A cada filme deles, a gente já sabe mais ou menos o estilo que vai ter. E ambos são muito detalhistas, muito específicos no que eles imaginam pra fazer um filme. 

*Estagiário sob supervisão de Igor Silveira
 
 

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