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Correio Braziliense

"O paraíso são os outros", de Valter Ugo Mãe ganha nova publicação

O livro poderia ser classificado dentro do gênero da literatura infantojuvenil. No entanto, ele transcende as faixas etárias e pode ser lido por gente de quase todas as idades


postado em 11/08/2018 06:33 / atualizado em 10/08/2018 18:22

"O paraíso são os outros" foi publicado pela primeira vez em 2014 (foto: Reprodução/Internet)


Valter Ugo Mãe é, talvez, o maior escritor vivo em língua portuguesa. Ele sempre pronuncia palavras essenciais. Estreou na poesia e, quando passou para o território da ficção, escreveu tramas carregadas de lirismo tocante. Esse é o caso de O paraíso são os outros, publicado pela primeira vez em 2014, que ganha nova e esmerada edição brasileira, com uma série de desenhos de Valter Ugo Mãe (Biblioteca Azul).

O livro poderia ser classificado dentro do gênero da literatura infantojuvenil. No entanto, ele transcende as faixas etárias e pode ser lido por gente de quase todas as idades. O ponto de partida é a de uma discussão de uma frase famosa de um dos filósofos mais influentes do século 20. Valter inverte e subverte a célebre frase do filósofo Jean-Paul Sartre, que reza: “O inferno são os outros”.

Ele recusa e polemiza com o pessimismo explícito de Sartre ao narrar as impressões de uma garota de idade indeterminada que observa e celebra o amor de múltiplos casais. De pinguins, de golfinhos, de pássaros, de elefantes, de homem e mulher, de mulher com mulher: “Estou cada vez mais certa de que o paraíso são os outros”, comenta a menina. “Vi num livro para adultos. Li só isso: o paraíso são os outros. A nossa felicidade depende de alguém. Eu compreendo bem”.

Não é um embate seco de ideias; é um embate afetuoso, que parte do pressuposto de que só é possível ser feliz na relação com o outro: “O amor constrói”, reflete a menina inominada de O paraíso são os outros: “Gostarmos de alguém, mesmo quando estamos parados durante o tempo de dormir, é como fazer prédios ou cozinhar para as mesas de mil lugares. Mas amar é um trabalho bom. A minha mãe diz”.

Os comentários, as impressões e as reflexões da menina são carregados de dúvidas diante de um mundo desconhecido e, ao mesmo tempo, perpassados de sabedoria: “Os gatos são casais misturados. Eu acho. Não são fiéis. Os cachorros também não. São fiéis aos donos mas, entre si, não namoram com muito cuidado. A minha mãe explica que o amor também é namorar com cuidado”.

A mãe é apenas mencionada, mas torna-se um personagem importante, pois sempre se insinua na conversa da menina e estabelece um diálogo imaginário. Os sopros da mãe estão impregnados de uma visão afirmadora da vida e de uma sabedoria que nasce diretamente da experiência: “Quase sempre estou errada. Mas gosto de ter certeza do erro. A minha mãe diz que só crescemos quando reconhecemos os nossos erros. Enquanto não o fizermos, seremos menores. Crescer é diferente de aumentar de tamanho ou ganhar idade. A minha mãe diz que grandes são os que se corrigem”.

Valter Ugo Mãe já havia polemizado com a frase de Sartre na ficção para adultos Desumanização. Lá, a personagem de outra menina diz: “O inferno não são os outros, pequena Halla. Eles são o paraíso, porque um homem sozinho é apenas um animal. A humanidade começa nos que te rodeiam, e não exatamente em ti”.

Em um mundo marcado pelo egocentrismo, o hedonismo, o cinismo, o pessimismo, a humanização das máquinas e a maquinização dos humanos, Valter Ugo Mãe escreve ficções que celebram o amor e o humanismo, de uma maneira extrema, com palavras que tocam no coração. Ele é o escritor que nos diz palavras essenciais para este momento: “O amor precisa de ser uma solução, não um problema. Toda a gente me diz: o amor é um problema. Tudo bem. Posso dizer de outro modo: o amor é um problema mas a pessoa amada precisa ser uma solução”.

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