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Correio Braziliense

Espaço usado pela PM é cedido a jovens para atividades culturais

O espaço da antiga sede administrativa da 2ª Companhia do 8º Batalhão não é muito grande e faz parte do conjunto de construções da Praça do Cidadão, em Ceilândia Norte


postado em 14/08/2018 07:00 / atualizado em 14/08/2018 08:36

Adolescentes dançam em frente ao espaço do Jovens de Expressão: modalidade é a mais procurada pelos alunos(foto: Ronayre Nunes/Esp. CB/D.A Press)
Adolescentes dançam em frente ao espaço do Jovens de Expressão: modalidade é a mais procurada pelos alunos (foto: Ronayre Nunes/Esp. CB/D.A Press)


Após quase 11 anos de atividades com adolescentes, o projeto Jovens de Expressão recebeu a concessão de um espaço que era usado pela Polícia Militar do Distrito Federal para expansão das atividades culturais que o grupo já promove. De acordo com os organizadores, a conversa com as forças de segurança evoluíram há quatro meses, e, agora, o grupo precisa de ajuda para reformar o local, nomeado de Galpão Cultural.

O espaço da antiga sede administrativa da 2ª Companhia do 8º Batalhão não é muito grande — tem cerca de 90 metros quadrados — e faz parte do conjunto de construções da Praça do Cidadão, em Ceilândia Norte, bem na frente da primeira localização do Jovens de Expressão. Segundo a organização, o espaço já estava há mais de um ano sem o uso policial. De acordo com Antônio Pádua, atual presidente do grupo Ruas, responsável pela administração do projeto, a necessidade de mais espaço para as ações culturais falou alto demais para ser ignoradA, por isso a parceria com a PM. “Procuramos a administração da cidade para propor a transição, e eles informaram sobre a necessidade de também procurar a polícia. Então, a gente falou com eles e o lugar foi cedido, desde que a gente usasse para fins culturais.”

Pádua também explica que as questões legais foram devidamente respeitadas, já que não ocorreu uma transferência, mas uma concessão. “O Ministério Público tem uma resolução que impede a transferência de espaço, mas pode ocorrer uma cessão para atividade cultural, especialmente se não houver uso, como era o caso Galpão”, alega.

Espaço recebeu uma exposição fotográfica sobre o tema da ocupação urbana(foto: Ronayre Nunes/Esp. CB/D.A Press)
Espaço recebeu uma exposição fotográfica sobre o tema da ocupação urbana (foto: Ronayre Nunes/Esp. CB/D.A Press)


“Acho que, em um primeiro momento, a comunidade ficou meio receosa, porque, mesmo sem a polícia lá, tinha uma sensação de segurança. Ao mesmo tempo, muita gente não havia ido a uma apresentação de dança antes, nunca teve a oportunidade de ver uma peça, e é muito gratificante ter crianças aproveitando esses projetos”, assegura Rayane Soares, uma das organizadoras do projeto.

O Correio entrou em contato com a assessoria de comunicação da Polícia Militar do Distrito Federal, que confirmou a concessão, mas rAtificou que a ação só foi possível por o imóvel pertenceR ao Governo do Distrito Federal.

Juntos e misturados

João Silva, 21 anos, é um dos alunos do pré-vestibular comunitário do Jovens de Expressão e comenta que a expansão pode significar não só mais ganho para a cidade, mas também para toda a comunidade artística da capital. “O espaço de agora é bem pequeno, vai ser interessante porque, com a ampliação, ficaremos mais integrados com outros artistas e teremos mais espaço para as aulas.”

A atriz Camila Ellen, 25 anos, será uma das professoras de artes cênicas do novo espaço, e conta que a ampliação foi fundamental para a maior contato entre arte e educação a que o projeto propõe: “São vários os tópicos para falar de como será positivo. Primeiro, pelo espaço, onde agora poderemos trabalhar melhor. Segundo, pela expressão mesmo, porque, às vezes, não podíamos fazer muito barulho pelas outras aulas. A intenção é manter a arte e a educação ligadas”.

O Jovens de Expressão realizou uma exposição de fotos no local, e agora busca ajuda para fazer a realidade desses planos ir ainda mais longe. “A nossa vontade é fazer um espaço para teatro de bolso (que é uma estrutura de teatro menor), uma sala de fotografia e um espaço de exposições, que a gente, inclusive, já apresentou para a população. A ideia é ser um espaço multiuso”, comentou Pádua, completando: “Pode até ser uma frase batida, mas é bem a verdade, um lugar que não tem opções de cultura, a violência se transforma em espetáculo”.

O projeto conta com o auxílio voluntário de duas arquitetas para uma reforma do local, que antes era usado pela polícia, e precisa da ajuda de toda a população para fazer esses planos irem mais rápido ainda para a realidade. “Precisamos muito de materiais de construção e todos podem ajudar. É muito simbólico a gente usar a cultura com uma perspectiva contra a violência, contra o preconceito. É muito difícil para a gente viver sobre esse manto de preconceito da mídia que vê a periferia como antro de crime, por exemplo. Não é assim, a gente tenta mudar isso”, complementa Rayane.

*Estagiário sob supervisão de Igor Silveira

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