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Correio Braziliense

Bienal reúne 40 autores brasileiros e estrangeiros no Centro de Convenções

Evento propõe leitura para combater intolerância


postado em 16/08/2018 07:30 / atualizado em 16/08/2018 11:07

João Doederlein, do AKAPOETA, é um dos convidados(foto: Antonio Cunha/CB/D.A Press )
João Doederlein, do AKAPOETA, é um dos convidados (foto: Antonio Cunha/CB/D.A Press )

Tempos de radicalismos, diálogos que terminam em monólogos e deterioração do debate político ajudaram os curadores da 4º Bienal Brasil do Livro e da Leitura (BBLL) a cercar o tema que conduz o evento. Sob o lema de “Os outros somos nós”, o maior encontro literário da cidade tem início no sábado com um time de mais de 40 autores do Brasil e do mundo reunidos em 18 mesas para refletir sobre questões que pautam o debate contemporâneo e o papel da literatura nesse cenário.

Pela primeira vez, a Bienal Brasil será realizada no Centro de Convenções Ulysses Guimarães e não na estrutura de tendas montadas na Esplanada dos Ministérios das edições anteriores. Café literário, palco para shows, espaço para quadrinhos e para youtubers fazem parte de uma agenda de nove dias de programação intensa.

“Eu queria fugir de uma escolha de autores só pelo que eles representam. Eles tinham que ter uma significância literária. E eu não queria ficar só nos escritores”, avisa Sérgio Leo, um dos curadores ao lado de Lídia Luther e José Rezende Jr. ”Acho que as feiras literárias, às vezes, deixam de lado aspectos da produção e da fruição literária, então fiz questão que tivesse uma mesa sobre tradução, porque o tradutor é um dos primeiros intérpretes dos autores estrangeiros e, portanto, das culturas desses autores. E fiz questão que tivesse uma mesa sobre revistas literárias, porque nesse mundo de livrarias em crise e poucos leitores, ter gente envolvida com essa batalha de trazer a literatura nova, de descobrir novos autores é uma coisa importante.”

Seguindo esse pensamento, os curadores decidiram homenagear uma professora, e não um autor ou autora. Gina Vieira Ponte, criadora do projeto Mulheres inspiradoras e professora da rede pública do Distrito Federal, é a homenageada do evento. Veja alguns dos destaques que o Diversão & Arte selecionou para você se programar.
 
Daniel Munduruku vai falar sobre literatura indígena(foto: Arquivo Pessoal)
Daniel Munduruku vai falar sobre literatura indígena (foto: Arquivo Pessoal)
 
Na rede

Eles não são necessariamente autores, muitos têm mais de um milhão de seguidores nas redes sociais e cultivam a literatura na ponta da língua. Pode ser em forma de crítica, comentário e até exercício literário mesmo. O importante é que o encontro entre os livros e os leitores se dá via internet. Com isso em mente, o curador Henrique Rocha montou a lista de convidados do Espaço Z.

De Brasília, ele convidou Maurício Gomyde e João Doederlein, do Akapoeta, página que conta com mais de 900 mil seguidores no Instagram. Entre os booktubers, estão Isabela Lubrano, do Ler antes de morrer, e Juliana Cirqueira, do Nuvem literária, ambos canais do YouTube dedicados a críticas e divulgação de livros. Estrelas entre jovens leitores com narrativas que começaram, sobretudo, na rede, Pam Gonçalves, Bel Rodrigues e Danilo Leonardi conversam com o público sobre temas como cultura pop, literatura desmistificada e leitura em tempos digitais.

“A web é um local no qual a maior parte dos nossos jovens ocupa seu tempo e tem um exercício literário acontecendo aí. Procurei autores ou divulgadores de literatura que têm grande expressão na internet hoje”, explica o curador, que se surpreende com a quantidade de seguidores dos Booktubers, especialmente diante de pesquisas que apontam os baixos índices de leitura no Brasil. “Em uma das mesas, a conversa é sobre isso. Existe uma percepção de que o jovem lê menos do que as gerações anteriores. Se a gente for analisar os dados de venda de livros, vê que tem uma variedade menor de livros sendo vendidos. Está se escrevendo menos, no entanto, o volume de vendas é muito superior ao de anos atrás”, aponta o curador.

O argentino Patricio Pron participa de mesa sobre a importância da memória(foto: Unai Pascual/Divulgação)
O argentino Patricio Pron participa de mesa sobre a importância da memória (foto: Unai Pascual/Divulgação)



Para ficar  de olho


Áfricas e muitas Áfricas, sábado, 25/08, às 14h
• O nigeriano Chigozie Obioma, autor de Os pescadores, é uma das estrelas internacionais da Bienal. O romance sobre o drama de quatro irmãos em uma África marcada pela riqueza da tradição e pela pobreza da exploração comoveu o mundo e rendeu indicações ao Man Booker Prize. O livro tem provocado certa comoção e foi apontado como O caçador de pipas da África. “Acabei de voltar do Reino Unido, onde o livro foi transformado em peça, e deixei duas das apresentações com pessoas chorando na plateia. Às vezes, acho que isso acontece por causa da ligação fraternal que une os irmãos e, às vezes, acho que é a maneira como Benjamin (o narrador) conta a história’, diz Obioma.
 
O índio na literatura, amanhã, às 14h
• Daniel Munduruku e Marco Cremasco falam sobre a presença do índio na literatura e como se dão as representações e a inserção dessa voz na cena literária.


O passado literário, sexta, 24/08, às 19h
• A memória é matéria-prima do argentino Patricio Pron e do colombiano Juan Gabriel Vásquez. O passado recente dos dois países, com violências como a ditadura e a guerrilha do tráfico, estão nos livros dos dois autores, ainda pouco conhecidos no Brasil.


Fora do seu quadrado, amanhã, às 10h
• Ronaldo Bressane e Lourenço Mutarelli se juntam para falar de fronteiras entre gêneros e do trânsito entre linguagens. Os dois também estão com livros novos. Mutarelli acaba de lançar O filho mais velho de Deus e/ou Livro IV, resultado do projeto Amores Expressos, e Ronaldo Bressane publicou Escalpo.


O desafio das revistas literárias, quarta, 22/08, às 19h
• Mirna Queiroz, Tiago Ferro e Schneider Carpeggiani são editores e vão falar sobre a experiência de divulgar a literatura em um país de poucos leitores.


Malemolência na literatura, domingo, 26/08, às 10h
• Duas biografias, dois personagens fundamentais da cultura brasileira. Os jornalistas Zeca Camargo e Josélia Aguiar sobem ao palco para falar das delícias e agruras de perfilar grandes brasileiros. Ele vai lançar a biografia de Elza Soares e ela, que também é curadora da Flip, trabalha em livro sobre Jorge Amado. 
 
TRÊS PERGUNTAS PARA SERGIO LEO
 
De onde veio o tema da Bienal? 
Me chamou muito a atenção perceber que, independentemente da coloração ideológica ou partidária, existe um desconforto com essa questão contemporânea, desde as incertezas na economia até as questões sociais. A complexidade em relação às imigrações, às desigualdades de renda. E percebi que, quando você sai dos extremos, das pessoas que já têm uma receita pronta e vinculada, muitas vezes, a certas filiações ideológicas ou de grupos políticos, você entra em um campo comum que é um certo desejo de que haja uma capacidade de diálogo, uma certa compreensão de que muitos dos conflitos ocorrem por desconhecimento sobre os outros. E há uma deterioração do debate político porque as pessoas não estão tentando escutar para contestar. Elas têm ideias pré elaboradas sobre as coisas e as pessoas e essas ideias ditam um discurso que não sai do lugar. A literatura é um campo de conhecimento, de entender melhor o outro lado, mesmo quando você discorda, mesmo quando você vai se opor. É sempre importante conhecer a realidade com a qual você está lidando e não os espantalhos. Isso vale não só para política, como para as relações pessoais, para as relações amorosas, para a relação com pessoas de opções sexuais diferentes ou com pessoas de orientações políticas diferentes.


Além de autores, a Bienal também dá destaque para pessoas que transmitem a literatura. Por quê? 
A gente quis marcar uma posição clara de mostrar que a literatura, como coisa viva que é, também tem um momento de transmissão, com pessoas que fazem a literatura circular, que transformam essa literatura em um elemento da cultura mesmo. E tive a sorte de descobrir que tinha uma pessoa no Brasil, na periferia da cidade, com um histórico de vida emocionante e com um trabalho de uma qualidade espetacular, que é a Gina Vieira Ponte. É escandaloso que Brasil não conheça essa figura como conhece outras pessoas da cidade.


Quais foram os critérios para montar a lista de convidados?
Eu queria que fosse pessoas que tivessem um trabalho além de suas pessoas físicas. Estou trazendo pessoas não só pelo que representam no mundo literário, mas também pelo que a literatura dessas pessoas representa no cenário da cultura. Tinha que ter relevância. Não é trazer o autor porque é mulher, negro ou homossexual. A questão foi: tem questões candentes que geram muita incompreensão, reações apaixonadas, e literatura consegue tratar dessas questões com qualidade, com eficácia. Uma pessoa que lê um livro do João Silvério, do Ruffato, da Maria Valéria ou do Munduruku pode até não se identificar, mas sai com uma compreensão maior desse universo que essas pessoas retratam na literatura. Esse é o objetivo maior da Bienal. Ampliar a janela, ampliar o horizonte pra gente sair da bolha e ver, num texto de qualidade, o que é a complexidade do universo que, às vezes, o debate político reduz a palavras de ordem, chavões e estereótipos. 



 
Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press(foto: A professora Gina Vieira Ponte é a homenageada da Bienal)
Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press (foto: A professora Gina Vieira Ponte é a homenageada da Bienal)
 
Quadrinhos em alta 
 
A 4° Bienal Brasil do Livro e da Leitura conta com um ambiente dedicado especialmente aos quadrinhos. O Espaço HQ receberá quadrinistas como Marcelo D’Salete — que venceu o Eisner, maior prêmio de quadrinhos do mundo, com a obra Cumbe, na categoria melhor ilustração —, Marcello Quintanilha (Prêmio Jabuti de HQ) e os cartunistas Ricardo Coimbra e Gustavo Machado, entre outros. Haverá também oficinas de quadrinhos com Danilo Oliveira, Vitor Camargo de Melo e Lucas Gehre.

Os quadrinistas independentes de Brasília ganharam uma programação especial, e o público poderá conhecer o trabalho de artistas como Caio Gomez, Carlos Lopes (Dorsal Atlântica), Incoerente Coletivo, Selo Aerolito, Selo Piqui, Verônica Saiki e representantes da Motim e da Dente. (Matheus Dantas)

*Estagiário sob supervisão de Igor Silveira.


Duas perguntas /Marcelo D’Salete


Qual a importância que um prêmio do calibre do Eisner traz para os HQs brasileiros?
A conquista desse prêmio dá muita visibilidade para uma cena de quadrinistas muito relevantes aqui no Brasil, como Marcello Quintanilha, André Diniz e Coutinho. Isso chama muito a atenção, pois esses trabalhos merecem ser conhecidos e reconhecidos no mundo todo.


Como foi ganhar o Eisner, um prêmio tão importante no mundo dos quadrinhos?
Foi uma surpresa muito boa! O Cumbe estava concorrendo com muitos trabalhos excelentes, principalmente os europeus. A obra fala sobre a escravidão no Brasil, e traz todo um contexto histórico-social desta época, e, para quem leu, foi muito importante, pois além do conhecimento transmitido, deu mais visibilidade para a história negra aqui no país. 
 
 
4ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura
• De 18 a 26 de agosto, no Centro de Convenções Ulysses Guimarães
 
 

 

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