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Correio Braziliense

Confraria dos Bibliófilos lança volume de 12 contos de Herberto Sales

Edição esmerada conta com ilustrações de Hans Haudenschild


postado em 18/08/2018 06:30 / atualizado em 18/08/2018 13:37

Ilustrações de Hans Haudenschild(foto: CBB/Reprodução)
Ilustrações de Hans Haudenschild (foto: CBB/Reprodução)
A Confraria dos Bibliófilos do Brasil tem aproveitado os centenários para ressuscitar grandes escritores brasileiros. Campos de Carvalho, Maura Lopes Cançado, Bernardo Élis, José J. Veiga e Mario Quintana, entre outros. Isso chamou a atenção das grandes editoras para novas reedições com edições maiores. E agora é a vez do escritor baiano Herberto Sales, que teve contos reunidos, com ilustrações de Hans Haudenschild: “Esse é um que demos a sorte de comemorar”, comenta José Salles, presidente da Confraria dos Bibliófilos. “Herberto Sales foi um grande contista. Diferentemente de Machado de Assis, que sabia escrever, mas não sabia gramática, Herberto Sales dominava as regras da língua, era um perfeccionista”.

Herberto Sales é autor dos romances Cascalho (1944) e Além dos Marimbus (1961), livros elogiados por Guimarães Rosa. Cascalho é uma história bonita do ciclo do garimpo. Mas o escritor baiano só estrearia no conto em 1966, 22 anos depois da publicação do primeiro romance.

No livro de memórias Subsidiário, Salles explica o desafio de se dedicar ao conto: “Sempre achei muito difícil escrever um conto. Tentava, tentava, tentava, e acabava rasgando e jogando fora. Por intuição, e depois, sentindo sem exagero na carne a experiência, cheguei à conclusão, embora não à novidade — esta: só escreve um bom conto quem sabe realmente escrever. Quer dizer: quem tem o domínio da língua. Quem tem — escrevendo — o senso da medida. Ou melhor: o senso clássico e tomístico da medida. O arpejo certo. Sem uma nota a mais ou uma nota a menos. O buraco da agulha e a linha. Quase que a conta matemática da escrita.”

No entanto, Herberto se destacou também como contista: “Eu digo que ele é tão bom contista quanto romancista”, comenta José Salles: “Tem contos estranhíssimos, tradicionais ou modernos. Fez um conto, por exemplo, sobre um sujeito que joga dinamite em uma festa. Tinha uma criatividade muito grande. Ele tirava história de onde não havia história. Naquela época, não existia tanta violência. Ele tem uma frase longa e um domínio muito grande da língua portuguesa. Tanto que ele foi escolhido para a Academia Brasileira de Letras”

O volume Doze contos escolhidos, da Confraria dos Bibliófilos, reúne narrativas sobre onças, emboscada, mortes, absurdos burocráticos: “Vou vender o meu apartamento, antes que seja tarde”, afirma o narrador do conto Uma questão de tranquilidade: “Sou legítimo senhor e possuidor dele, na boa forma da lei, em cartório, o preto no branco, com traslado de escritura definitiva e testemunhas. Mas isto não quer dizer nada. Ou melhor: apenas quer dizer que poderei perdê-lo a qualquer momento, depois de haver comprado com tão grandes sacrifícios”.

Apesar de toda a relevância, não deixou rastro em nenhuma editora. Herberto Sales publicou sete livros de contos: “Os contos dele são originais, não se parecem com nada do que você leu. Ele trabalhou como presidente do Instituto Nacional do Livro e escreveu um conto muito bom sobre o nonsense da burocracia. É sobre um personagem que vai retirar uma certidão e se envolve em uma situação absurda”.

Herberto nasceu em Andaraí, cidadezinha do interior da Bahia. Estudou no Colégio Antonio Vieira, em Salvador, mas foi reprovado no quinto ano. Voltou a Andaraí e tentou sobreviver com os mais variados ofícios. Vendeu lenha e matou porcos. Mas não tinha vocação e desistiu do comércio até ser aprovado em um concurso de Cartório. Com isso, teve tempo para se dedicar à leitura dos clássicos. Aos 24 anos, publicou Cascalho, que mereceu de Alceu Amoroso Lima o seguinte elogio: “o último espécie do romance nordestino de trinta”.

Em 1961, publica o segundo romance, Além dos Marimbus, sobre o ciclo da madeira, que mereceu muitos elogios da crítica: “Um livro que vou ler a vida toda”, afirmou Guimarães Rosa. Mas Herberto só estrearia no conto em 1966, com o volume Histórias ordinárias, em alusão às Histórias extraordinárias, de Edgar Allan Poe. Salles leu mais de 200 narrativas curtas para chegar à seleção dos 12 contos escolhidos: “Ele tem uma fina ironia e um impressionante domínio da linguagem”, enfatiza José Salles.

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