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Correio Braziliense

Livros sobre mulheres dominam a programação da Bienal neste sábado

Com livros sobre mulheres, a argentina Selva Almada e a brasileira Clara Averbuck participam da 4ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura


postado em 18/08/2018 06:50 / atualizado em 18/08/2018 13:29

Selva Almada resgata casos de assassinatos de que ela se lembra em Garotas mortas(foto: Vale Fiorini/Divulgação)
Selva Almada resgata casos de assassinatos de que ela se lembra em Garotas mortas (foto: Vale Fiorini/Divulgação)
Andrea Danne, 19 anos, apunhalada enquanto dormia. Maria Luisa Quevedo, 15 anos, estuprada e estrangulada. Sarita Mundin, 20 anos, encontrada morta à beira de um rio. A escritora argentina Selva Almada ficou um tempo com essas histórias na cabeça antes de escrever Garotas mortas. Especialmente a história de Andrea Danne, original da mesma cidade da autora, Entre Ríos, ao norte de Buenos Aires. Quando menina, Selva ouvira falar do assassinato. Depois vieram outros, muitos outros.

Tantos que, em outubro de 2016, espantadas com a brutalidade do assassinato da adolescente Lucía Perez, drogada, violentada e assassinada em Mar del Plata, as argentinas pararam o país em uma greve de uma hora. Foram mais de 200 mulheres assassinadas entre janeiro e outubro daquele ano. No Brasil, no mesmo ano, o número passa de 800. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), o Brasil ocupa o quinto lugar em países com maior número de feminicídios no mundo. Quando olha para esses números, Selva, que divide mesa com o jornalista Pedro Dória hoje na 4ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura, se repete a mesma pergunta “por que matar uma mulher exclusivamente pelo fato de ser mulher?”. E nunca encontra resposta. Dessa inquietação recorrente, nasceu Garotas mortas.

Escrito de forma documental, mas muito afetivo e com recursos da ficção, o livro conta a história de três feminicídios ocorridos na Argentina nos anos 1980. A autora vasculhou em registros oficiais documentos de investigação, reportagens de jornal e empreendeu, ela mesma, uma pesquisa que incluiu dezenas de entrevistas com testemunhas, familiares, amigos e conhecidos das vítimas para reconstituir os últimos passos das três mulheres e para refletir sobre o fato de os crimes nunca terem sido solucionados. Ela escreveu Garotas mortas, único de seus oito livros traduzidos no Brasil, um pouco para lidar com a perplexidade. “Porque há uma sucessão de casos desse tipo que fui vendo na imprensa, acumulando-se, muitas vezes sem resolução, onde se apresentava a história da vítima e ela acabava sendo julgada, buscando-se argumentos que explicariam sua morte, em vez de se perguntar por que um homem mata arbitrariamente uma mulher e por que, como sociedade, naturalizamos isso”, aponta.

O julgamento da vítima foi uma das coisas que assustou Selva durante a pesquisa para o livro que ela chama de “romance de ficção”. “Me interessava que fosse documental, porque é também uma espécie de manifesto do que eu acredito em relação ao tema, é uma tomada de decisão política. E me interessava também pela memória das meninas. Queria que ficasse bem claro para o leitor que essas meninas existiram, que não eram personagens de ficção, que tudo que se conta ali aconteceu e acontece diariamente”, avisa a autora.

Julgamento foi algo que também causou perplexidade em Clara Averbuck, autora de Máquina de pinball, Eu quero ser eu e Toureando o diabo. Em agosto de 2017, ela denunciou ter sido vítima de estupro de um motorista do Uber. Na internet, foi questionada sobre a veracidade da denúncia e acusada de ser responsável pela violência. “Foi uma violência e outra violência na internet, mais um reflexo da sociedade doente e misógina na qual vivemos”, lamenta. “Avalio como algo corriqueiro e muito triste que tomou uma grande proporção por eu ser uma mulher com voz ativa. Acontece todos os dias com muitas mulheres e ninguém se importa, pior, ainda as culpam ou duvidam da violência, como aconteceu comigo. Eu não sou especial, sou apenas mais uma vítima de violência.”

Criadora de personagens que têm “gana” de viver, mulheres independentes que não se encaixam nos padrões “de voz baixa e perna fechada”, e uma das autoras do site feminista Lugar de mulher, ela participa hoje da Bienal na mesa Da internet à página escrita. Clara começou a escrever na internet. “Sempre foi um meio que proporcionou liberdade de formatos diversos”, garante. Em 2016, recorreu ao Catarse para o financiamento coletivo de Toureando o diabo, seu livro mais recente. Camila é uma de suas personagens recorrentes, uma espécie de alterego que aparece em vários livros e que não faz concessões.
 

Programação

Da internet à página escrita
Com Clara Averbuck e Alice Oseman
Sábado, às 11h, no Centro de Convenções Ulysses Guimarães
Entrada franca
 
Jornalismo e história
Com Selva Amada e Pedro Dória
Sábado, às 16h30 no Centro de Convenções Ulysses Guimarães
Entrada franca
 

Três Perguntas / Selva Almada

O Brasil tem um dos maiores números de feminicídios do mundo. O que, na sua opinião, leva uma sociedade a esse estado?
A raiz da violência de gênero sempre é cultural: na América Latina, na maioria dos nossos países, a cultura misógina e patriarcal dá permissão para matar. Os homens veem a mulher como um objeto de sua propriedade, da qual podem dispor inclusive tirando-lhe a vida simplesmente porque sim. Em nossas sociedades predomina a cultura do estupro (da qual pouco se fala, porque é um tabu): a violência de gênero está naturalizada. Como disse Rita Segato, cada vez que um homem assassina uma mulher, ele está advertindo todas as outras. É preciso reverter essa cultura. Temos que revisar a maneira como estamos criando nossos homens, temos que revisar e colocar em questão esses padrões misóginos. Enquanto não o fizermos, as estatísticas seguirão sendo assustadoras.

Falamos o suficiente desses fatos?
Na Argentina, há alguns anos, falamos um pouco mais deste tema. Ele está na agenda dos meios de comunicação e das políticas de estado, mas, muitas vezes, de maneira deficiente: os meios não têm um protocolo para tratar dos feminicídios e, muitas vezes, o que fazem é seguir alimentando preconceitos (por exemplo, colocando em questão o julgamento da vida e do comportamento da vítima). E o Estado fica em campanhas e políticas sem o reforço, por exemplo, de profissionais especializados. Os serviços de ajuda à mulher não contam com os meios materiais para fornecer uma solução efetiva ou apoio à mulher que denuncia. Há leis maravilhosas, com a Lei do Feminicídio, sancionada em 2012, mas que não é cumprida.

A oralidade dos seus personagens é algo que se destaca nos seus livros, mesmo quando não é ficcão. Isso é importante?
Eu gosto muito de trabalhar com a matéria da língua oral, incorporada em meus textos, transformá-la em poéticas. Não há uma intenção documental, e sim, sobretudo, poética. Como soa uma palavra, que música, que ritmo ela toma em um relato escrito. Gosto de encontrar isso como leitora e de trabalhá-lo como escritora. Quando li Meu tio o Iauaretê, de Guimarães Rosa, foi uma comoção para mim. Acredito que esse relato definiu também meu trabalho com a oralidade. 

 
Três Perguntas/ Clara Averbuck

Clara Averbuck denuncia em seu livro violência sofrida por ela,
Clara Averbuck denuncia em seu livro violência sofrida por ela, "reflexo da sociedade doente e misógina na qual vivemos" (foto: Maria Ribeiro/Divulgação )
Como foi a experiência do Catarse em Toureando o diabo? 
Foi bem ruim. Meu orçamento foi malfeito e eu fiquei com um rombo na vida. Não foi culpa do modelo, mas do meu projeto mesmo. Para mim não funcionou, porque precisava de uma organização e força tarefa muito maior do que eu imaginava. Tive uma esperança de que houvesse uma forma de não ter que participar de grandes esquemas, já que, pela via do mercado, o autor fica apenas com 10% do preço de capa de sua própria obra, mas, infelizmente, eu não tenho essa paciência de ser autora, editora, fornecedora, distribuidora e tudo mais. Voltei a publicar com editoras e, talvez, mais pra frente e com um projeto mais elaborado, tentarei criar a minha própria para publicar outras mulheres. Mas bem no futuro. Hoje eu me preocupo mais em criar e escrever, coisa que as outras etapas do processo editorial atrapalham demais.

Qual o lugar da literatura escrita por mulheres hoje? 
Mulheres escrevem um monte. O que acontece é que muitas delas desistem antes mesmo de enviar o original para a editora, ou pior, antes mesmo de mostrar para alguém. As mulheres não são encorajadas a falar e se expor, a mostrar suas ideias, seus pensamentos. A mudança é bem mais profunda do que simplesmente as editoras notarem as mulheres, mas é claro que, ao ler e ver mais mulheres nas prateleiras, isso vai encorajar novas autoras a mostrar seus trabalhos. Eu mesma criei uma oficina de escrita criativa apenas para mulheres tentando criar autoras mais seguras e com força pra peitar essa ideia tão entranhada de que mulheres devem se envergonhar de suas histórias e suas criações.

Que extensão tem o feminismo na literatura? 
Feminismo é um movimento político e social. Eu sou uma escritora de ficção, não escrevo livros de sociologia ou teoria. Comecei a escrever quando era adolescente e não pensava muito nisso. Aliás, nem pensava nisso, mas eu fui criada pra ser a mulher que eu sou mesmo, que fala e que não se encaixa no conceito de voz baixa e perna fechada. Minhas personagens são mulheres independentes e com ganas de conseguirem o que querem, mas eu não pensava nelas como feministas quando as concebi, inclusive meus primeiros livros reproduzem machismo em vários momentos. Agora sim eu penso, digamos, de forma feminista ao criar uma situação ou ao conceber uma personagem, como foi o caso da Ira, do Eu Quero Ser Eu, uma jovem adolescente que questiona o tempo todo o que está aprendendo sobre ser mulher e como uma garota deve se portar. 

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