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Correio Braziliense

'NY é só aparência', diz Mutarelli, que lança livro ambientado na cidade

Autor de 'O cheiro do ralo' e 'O natimorto', Lourenço Mutarelli é um dos convidados da 4ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura, onde lança 'O filho mais velho de Deus e/ou livro IV'


postado em 19/08/2018 06:30 / atualizado em 19/08/2018 13:57

(foto: Divulgação)
(foto: Divulgação)
Quando voltou de Nova York depois do convite para participar do projeto Amores expressos, há 11 anos, Lourenço Mutarelli sofreu um bloqueio criativo. Precisava entregar aos organizadores uma sinopse de cinco páginas com o enredo e os nomes dos personagens, coisa impossível para um autor cujas histórias se moldam à medida que são escritas.

Na época, Mutarelli até escreveu um romance, mas ficou muito ruim e, num consenso, autor e editores resolveram arquivar. Há cerca de quatro anos, finalmente livre de sinopses e burocracias, o paulistano mergulhou na história desse personagem de vários nomes e trajetória um tanto medíocre. O filho mais velho de Deus e/ou livro IV, sobre o qual ele fala hoje na 4º Bienal Brasil do Livro e da Leitura, em mesa dividida com Ronaldo Bressane (veja programação abaixo), é o oitavo romance do autor de O cheiro do ralo e O natimorto.

A mesa Fora do seu quadrado é também uma forma de lembrar as múltiplas facetas de Mutarelli. Quadrinista, ator, diretor de cinema, roteirista, dramaturgo, professor e escritor, ele é o que Sergio Leo, curador da Bienal, identifica como um multi-instrumentista. Durante o período que passou em Nova York pelo Amores expressos , começou também a escrever esboços em cadernos. “São muito diferentes as coisas que faço, mas elas têm um lugar comum, que tem a ver com um ponto de concentração. Elas têm esse bebedouro que são meus cadernos, onde vou jogando, colando, escrevendo, misturando as ideias. Qualquer coisa que eu for fazer, vou folhear meus cadernos e beber ali”, avisa.

Curiosamente, é a história de um quadrinista desiludido com a metrópole o centro do alucinante Escalpo, romance mais recente de Bressane, com quem Mutarelli divide a mesa. Curiosamente porque a cidade é um ponto importante nos dois livros e uma espécie de catapulta para O filho mais velho de Deus. Mutarelli detestou Nova York. Não gostava antes de ir, e não gostou do que viu. Preferia ter ido para Beja, em Portugal, ou para qualquer cidade brasileira com uma praça e pessoas “de verdade”. “Para começar, é um shopping center. Uma cidade muito artificial, que não é de verdade. Os valores que eles admiram são as coisas que acho mais desprezíveis. Qualquer lugar das Américas ou da Europa é muito mais interessante”, garante. “E São Paulo e Rio se inspiram demais lá, no pior que tem lá.”
 

MacGyver 

O estranhamento dos valores e do modo de vida está na narrativa do novo romance. O personagem não é de Nova York, mas se muda para lá em determinado momento. Vive da lembrança de uma paixão frustrada e credita a parte mais interessante de sua vida ao fato de ter estudado com o ator que interpretava MacGyver na série dos anos 1990. Um dia, se apaixona por uma reptiliana. Uma réptil travestida de humana.

As inserções bizarras da literatura de Mutarelli sempre podem incluir um reptiliano e é a essa classe de personagens que ele se apega em O filho mais velho de Deus. A ideia veio de um documentário sobre sereias veiculado em um canal a cabo. Mutarelli achou absurda toda a narrativa, mas quase acreditou na existência das mulheres-peixes e ficou com vontade de escrever algo do gênero. “Pensei ‘pô, que legal isso de pegar uma narrativa, de pegar qualquer coisa absurda e transformar em uma narrativa’. Foi meu ponto de partida, porque acho reptilianos mais ridículos que sereias. É a mais ridícula de todas essas teorias, uma coisa na qual não consigo acreditar e esse era meu desafio, tentar botar alguma possibilidade nisso”, conta. “E tem essa coisa muito americana.”

Mutarelli descreve o protagonista como mediano e desprezível. “Acho que ele resume muito o ser humano e o homem, como a gente se prende a coisas que não têm muito valor para tapar um vazio que é muito grande. Ele se apega a coisas muito pequenas e fica girando em torno disso, das frustrações, do vazio. Mas ele vai melhorando quando conhece a reptiliana. Tem a ver com amor, você conhecer alguém que tem um universo diferente do seu e tentar se aproximar, se abrir àquilo.”
 

Três Perguntas para  Lourenço Mutarelli

Sua narrativa sempre tem um certo desencanto com o ser humano, mas esse livro tem até um fiapinho de esperança. Por quê?
Acho que a esperança vem de onde vem minha esperança, que é dos amigos. É uma grande vingança a gente estar cercado de pessoas de que a gente gosta, de pessoas com as quais a gente pode beber e rir junto. Meus livros têm tido um final mais solar. Tem essa coisa de ele esperar alguém que não vai voltar e, para ele, isso não importa. É uma revolta mesmo, de esperar mesmo que não volte. Acho que é uma postura que tem a ver comigo, de querer algumas coisas, mesmo sabendo que elas não são possíveis.

Vingança contra o quê?
Dou muita aula e falo muito para meus alunos que minha vingança é estar bem. É uma vingança contra essa impossibilidade. As coisas são difíceis demais e é muito fácil a gente não estar bem. E tenho ficado bem. Meus livros me ajudam muito, meu trabalho me ajuda muito. De cada livro eu saio melhor. Acho que a vingança é meio por aí, é estar bem.

O que te incomoda em Nova York? 
Quando começou o projeto (Amores expressos), pedi para ir pra Beja, uma cidadezinha no Alentejo (Portugal), uma cidade pequena. Mas tinha que ir para um lugar mais glamouroso. Nova York é um lugar de aparência, de pessoas bem-sucedidas. Wall Street, Times Square, as grandes peças que eles fazem, tudo é descartável, aquela coisa mais barata e sem valor mesmo, feito para a massa. É um lugar de aparência. Eu não gosto de aparência. Não tem nada ali que me atraia, de verdade, tirando os sebos ou uma ou outra coisinha. Não sei se Beja é a mais verdadeira, mas eu amo Portugal, é um lugar de que gosto muito mesmo. Ah, tem muitos lugares verdadeiros. Berlim, por exemplo, acho um lugar incrível.
 

Programe-se

Sexualidade em questão na literatura
Com João Silvério Trevisan, Alexandre Vidal Porto e Tatiana Nascimento. Neste domingo (19/8), às 16h30, no Centro de Convenções Ulysses Guimarães. Entrada franca.
 
Fora do seu quadrado
Mesa com Lourenço Mutarelli e Ronaldo Bressane. Neste domingo (19/8), às 10h, na 4ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura, no Centro de Convenções Ulysses Guimarães. Entrada franca.  

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