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Correio Braziliense

Cena Contemporânea 2018 traz aos palcos espetáculos com conotação política

Maior festival de teatro da cidade, apresenta peças que discutem direitos em todas as esferas. Cena Contemporânea tem início na terça-feira


postado em 20/08/2018 07:10

Tartufo-me é readaptação do clássico de Molière(foto: Objeto Sim/Divulgação)
Tartufo-me é readaptação do clássico de Molière (foto: Objeto Sim/Divulgação)

Com a hashtag #dequeladovocêestá e uma forte conotação política, a 19ª edição do Cena Contemporânea tem início na terça-feira (21/8) e traz um total de 30 espetáculos nos quais questões contemporâneas invadem a dramaturgia. Não é um detalhe e, sim, um recorte assumido pelo curador Alaor Rosa para um momento em que o país está mais engajado do que nunca na reflexão política. “Você está em Brasília, capital do país, com todas as questões políticas e sociais, uma cidade extremamente violenta, excludente, então, se você quer falar de teatro, de mundo, de população, de direitos individuais, não teria como ser diferente”, avisa. “A gente está trabalhando desde o ano passado a hashtag #preconcteitozero e, este ano, incluímos uma outra que é #dequeladovocêestá, exatamente por causa de tudo que vem acontecendo na política e na economia”.

Por essa razão, o festival será aberto na terça com a performance Ouvidoria, da gaúcha Luciana Paz, na Esplanada dos Ministérios. Conduzida pelo slogan “fala que eu te escuto”, a performance começou a coletar material na região central de Brasília na última quinta e funciona como uma espécie de ouvidoria montada na Rodoviária. É, segundo o curador, uma tentativa de colocar os espectadores diretamente em contato com um produto artístico em construção, fabricado com o que ele chama de “ansiedade à população”. “Por estarmos em ano eleitoral, todas as peças têm um viés que defende direitos individuais, direitos das minorias, direitos da mulher e direitos políticos”, garante Alaor, curador do Cena nos últimos quatro anos. Este ano, com patrocínio do Banco do Brasil e Claro, apoio do Sesc e do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) e recursos do Fundo de Apoio à Cultura e da Lei de Incentivo à Cultura do Distrito Federal, o Cena conta com R$ 1,2 milhão, quase o mesmo valor da edição de 2017.

Ancorada na ideia de que teatro não é apenas entretenimento, mas também um ato político, a curadoria selecionou sete espetáculos internacionais, 14 nacionais e nove de Brasília. Além da performance no centro da cidade, a peça Instabilidade perpétua, estreia solo da atriz carioca Soraya Ravenle, abre a programação amanhã à noite. O monólogo baseado em livro de Juliano Garcia Pessanha reúne cenas sobre a instabilidade humana dirigidas por quatro diretores diferentes, incluindo Júlia Bernat, filha de Soraya.

O Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) e o Teatro Garagem serão a base do festival no Plano Piloto, mas é nas cidades do Distrito Federal que ele vai ocupar a maior parte da agenda. Os Sescs do Gama, Taguatinga e Ceilândia terão ocupação constante e, este ano, haverá também apresentações no Recanto das Emas, no Itapoã e em São Sebastião. É um compromisso dos idealizadores levar o teatro para a periferia, numa tentativa de ampliar público.

Além disso, a escassez de espaços no Plano Piloto, com o Teatro Nacional fechado para reforma há quatro anos, e o Espaço Cultural da 508 Sul ainda em fase de organização de pauta, os palcos alternativos acabam por salvar o festival. Algumas estreias, inclusive, foram reservadas para esses palcos. “Desde que voltamos para fazer os Sescs de Taguatinga e Gama, todos os anos eles extrapolam o número de público”, aponta Alaor. “Atualmente, os melhores espaços de teatro na cidade estão no Gama e em Ceilândia. A gente vive essa crise da falta de espaços públicos. O que a gente tem visto é um descaso com a cultura, com a educação, o tempo todo. Então, a gente tenta levar esse tipo de espetáculo para as cidades que não têm nenhuma estrutura, como São Sebastião, Itapoã e Recanto das Emas.”

(foto: Thiago Sabino/Divulgação)
(foto: Thiago Sabino/Divulgação)
 

» TRÊS PERGUNTAS PARA ALAOR ROSA


O Cena está mais político que no ano passado?
Acho que sim, as escolhas foram bem mais nesse sentido de tentar contribuir politicamente com tudo isso que vem acontecendo. O teatro pode ser uma ferramenta muito esclarecedora, porque longe de o teatro querer ditar as coisas, ele quer colocar os assuntos na ordem do dia para que possam ser discutidos de maneira abrangente e para que as pessoas possam tirar suas próprias conclusões. O Cena vem para dar uma contribuição nessa discussão de tentar colocar para as pessoas que é muito importante que elas pensem por si próprias e não precisem de padres e pastores para dizer o que elas têm de fazer. E muito menos cair na lábia da grande maioria dos políticos, que usam tudo isso para ludibriar, enganar e obter voto.

Qual o papel do teatro nesse engajamento político? Como atingir pessoas que não são do nicho?
Acho que as artes, de modo geral, são  instrumentos que podem fazer uma revolução no ser humano mais rapidamente. Por ser tête a tête, tem um papel fundamental para a formação do indivíduo. A pessoa que consome teatro e que está atento às questões discutidas pelo coletivo tem muito mais chance de decidir corretamente na hora de eleger esse ou aquele candidato. A arte é o caminho mais curto para transformar e esclarecer o ser humano. Procuro sempre me pautar pelas questões nacionais e mundiais do ser humano em transformação. Busco contribuir para que o processo de transformação seja um pouco mais rápido, porque tudo é muito lento. Grandes filósofos dizem que uma ideia, para chegar na base da população, leva de 80 a 100 anos.

Como ir além dos nichos de pessoas que consomem teatro? Ir para a periferia foi uma tentativa de expandir esse público? 
É exatamente isso. É fundamental olhar para esse novos públicos, esses novos olhares, e trazer quem já está instrumentalizando de alguma forma pela educação, pela cultura, para que possam aprimorar e qualificar esse olhar crítico perante a vida, a política, a religião e tudo o mais que envolve o dia a dia de uma pessoa.

Alguns destaques do Cena Contemporânea 2018


Tartufo-me
Direção: Tércio Silva, Amazonas
A adaptação do clássico de Molière fala sobre poder, religião e manipulação do povo para atingir objetivos políticos e econômicos. “O Amazonas é um estado que quase não vem ao Cena. A gente teve um olhar muito abrangente nessa edição, porque temos Amazonas, Ceará, Recife, Bahia. Tentamos dar uma representatividade brasileira para que essas questões levantadas nos estados que possam ser mostradas”, explica Alaor Rosa.

Lili Marlene – Um musical
Direção e texto: Fause Haten, São Paulo
Lili é um homem, neto da atriz Lili Marlene, e é sobre a história desse personagem que o musical de Haten se debruça. Rejeitado, ele foge de casa aos 13 anos para, aos 30, se tornar sacerdote nos Estados Unidos. O diretor pesquisou temas como abusos físicos, sexuais e psicológicos para montar o espetáculo.

Tom na fazenda
Texto: Michel Marc Bouchard. Direção: Rodrigo Portella
Homofobia é o tema da peça, que acompanha Tom, um publicitário que vai ao funeral do companheiro e descobre que a família do morto nada sabia sobre sua homossexualidade.

Salve Malala! conta a história de uma menina que queira ir à escola(foto: Felipe Stucchi/Divulgação)
Salve Malala! conta a história de uma menina que queira ir à escola (foto: Felipe Stucchi/Divulgação)
Salve Malala!
Cia. Leche, São Paulo
Educação é o elo entre Brasil e Paquistão nessa montagem inspirada na menina que levou um tiro do Taleban porque queria estudar. Entrevistas com estudantes sobre as escolas brasileiras pautaram a construção dos personagens Yan e Sofia, que vivem em uma aldeia cujo rei é contra a educação para meninas. A peça ganhou o Prêmio São Paulo de Incentivo ao Teatro Infantil e Jovem 2017.

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