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Correio Braziliense

Conheça espetáculos do Cena Contemporânea que representam temas atuais

Espetáculos do Cena Contemporânea 2018 contemplam temas atuais, que vão da imigração à truculência contra a própria arte


postado em 22/08/2018 07:30

Como o próprio nome do festival indica, o Cena Contemporânea tem como característica representar a atualidade. Dos 30 espetáculos selecionados para a 19ª edição, pelo menos sete são capazes de representar alguns dos principais temas que pretendem ser abordados  nos 13 dias de festival, assuntos como imigração, intolerância e os diferentes tipos de relações humanas. O objetivo é suscitar debates, tocar os espectadores e cumprir um dos papéis do teatro, o de transformação.

(foto: Objeto Sim/Divulgação)
(foto: Objeto Sim/Divulgação)

Ramal 340: Sobre migração das sardinhas ou porque as pessoas 
simplesmente vão embora (quarta e quinta, às 19h; Teatro Plínio Marcos, 
Funarte — Eixo Monumental; não recomendado para menores de 16 anos)
A peça do Coletivo Errática nasceu de uma pesquisa de linguagem com dramaturgia autoral e processos colaborativos sobre os movimentos humanos no mundo: imigrações e emigrações. “Basicamente do questionamento: por que as pessoas saem de um lugar e vão para outro? Esse movimento constante que nos inquietava muito”, lembra Francisco Gick, responsável pela dramaturgia da peça, que tem direção de Jezebel de Carli (nome por trás de Br Trans). Ramal 340 chega ao Cena apenas alguns dias após a tensão na fronteira entre Brasil e Venezuela em Pacaraima (RR) e pretende debater, de certa forma, isso. “É um momento bem apropriado (para a discussão). Nos traz um pouco dessa inquietação”, completa. Para a criação da montagem, o grupo pesquisou situações reais, como a Partição da Índia, em 1947, e o clássico Odisseia, de Homero. Lançada em 2015, a peça acompanha a história de seis pessoas espalhadas no espaço e no tempo, mas ligadas pelo desejo de se movimentar. “A gente chega a essa história que abarca seis pessoas de lugares diferentes do mundo, mas que estão se colocando em trânsito no mundo. É um convite para que o público pense esse lugar estranho que tem para viver junto, de acolher as diferenças”, explica.

(foto: Fernanda Chemale/Divulgação)
(foto: Fernanda Chemale/Divulgação)

•  Ícaro (quinta, às 20h, no Teatro Newton Rossi Ceilândia; sexta, às 20h, 
no Teatro Paulo Autran Taguatinga; sábado, às 20h, Teatro Paulo Gracindo Gama; e domingo, às 21h, no Teatro Sesc Garagem; não recomendado para menores de 16 anos)
A história da vida do ator Luciano Mallmann, do interior do Rio Grande do Sul, foi a inspiração para que ele escrevesse e protagonizasse o monólogo, em cartaz desde 2017. “Um dia, treinando tecido (acrobático), acabei caindo e sofrendo uma lesão medular que me deixou em uma cadeira de rodas. A partir daí, tive muita consciência de que se eu não produzisse a minha história, ia ser mais difícil (voltar a atuar)”, revela. “Eu era cadeirante, mas nunca fui militante da acessibilidade e inclusão. Minha forma era viver e fazer quem convivesse comigo ver a necessidade. Mas eu estava com vontade de atuar e trabalhar”, conta. Assim, Mallamann chegou ao texto do monólogo, em que, sozinho no palco, interpreta seis cenas, cada uma com um personagem diferente sob direção de Liane Venturella. “Todos têm a deficiência, mas são personagens comuns a todo mundo, que abordam os relacionamentos humanos, como de pais e filhos e amorosos, a gravidez, a vontade de morrer, o preconceito e a resiliência. A peça faz com que as pessoas acabem se identificando com personagens que estão na cadeira de rodas. A gente construiu um produto artístico sobre um tema revelante, onde o meu trabalho como ator é o mais evidente”, classifica.

(foto: Humberto Araújo/Divulgação)
(foto: Humberto Araújo/Divulgação)

•  Domínio público (sexta e sábado, às 21h, no Auditório 1 do Museu Nacional da República — Esplanada dos Ministérios; classificação indicativa livre)
No ano passado, Elisabete Finger, Maikon K, Renata Carvalho e Wagner Schwartz foram centro de polêmicas e censura envolvendo suas artes. Maikon K foi acusado de ato obsceno por estar nu dentro de uma bolha para a performance de DNA de DAN, em frente ao Museu Nacional. Renata Carvalho teve a peça O evangelho segundo Jesus, rainha do céu, censurada em algumas ocasiões por ter o papel de Jesus interpretado por uma pessoa transgênero. Schwartz viu a performance La Bête viralizar na internet como um ato de pedofilia quando uma criança tocou nele. A mãe da pequena, Elisabete Finger, sofreu uma avalanche de acusações pelo fato. Os ataques sofridos pelos quatro deram origem ao espetáculo Domínio público. No palco, o quarteto utiliza um dos ícones da história da arte, a Mona Lisa de Leonardo da Vinci, para debater as diferentes narrativas artísticas ao longo do tempo. Os quatro artistas estiveram envolvidos na criação, texto e performance. “Domínio público é uma resposta muito clara e calma a toda essa truculência que a arte vem sofrendo no Brasil, com proibições de peças, de perseguição política e ideológica. É um trabalho que merece ser visto porque ele fecha dois últimos anos do Cena e coloca a arte como instrumento fundamental de transformação”, analisa Alaôr Rosa, curador do Cena.

(foto: Objeto Sim/Divulgação)
(foto: Objeto Sim/Divulgação)

Tijuana (dias 29 e 30, às 20h, no Sesc Gama;  dia 31, às 20h, no Sesc Taguatinga; 1º e 2 de setembro, às 21h, no CCBB; não recomendado para menores de 15 anos)
Desde 2003, a companhia de teatro mexicana Lagartijas tiradas al sol investiga a trajetória da democracia mexicana numa série de 32 espetáculos, intitulada Democracia no México 1965-2015. Faz parte da série o espetáculo Tijuana, dirigido e estrelado por Gabino Rodríguez, que traz a trupe de volta ao Cena Contemporânea. Para este espetáculo, Gabino viveu como um personagem numa fábrica em Tijuana, cidade do México que faz fronteira a oeste com os EUA. “Tijuana é a primeira cidade da fronteira com San Diego, nos EUA. Isso faz com que a economia de lá esteja atrelada à estadunidense. O efeito disso em Tijuana é muito forte, porque as cidades estão muito próximas, dá para ir a pé”, conta Gabino, em entrevista ao Correio.

(foto: Objeto Sim/Divulgação)
(foto: Objeto Sim/Divulgação)

•  Casco azul (dias 29 e 30, às 21h, no CCBB; não recomendado para menores de 12 anos)
A companhia chilena Teatro amplio foi criada em 2013 com a proposta de levar aos palcos temas da atualidade, com uma pegada histórica e crítica. É o que acontece em Casco azul, segundo espetáculo da trupe escrito por Santiago Sanguinetti, dirigido por Antonio Altamirano e estrelado por Pablo Manzi, Juan Pablo Miranda, Rodrigo Soto e Nicolas Zarate. No palco, o grupo leva uma reflexão sobre os chamados capacetes azuis, soldados da ONU que atuam em zonas de conflito. Em Casco azul, quatro homens que estão em missão no Haiti temem pela vida e, ao mesmo tempo, tentam entender as razões do povo. “Casco azul fala dessa ocupação das forças sobre o Haiti, que dá um olhar não tão bacana”, diz o curador do Cena Contemporânea, Alaôr Rosa.

(foto: Éden Barbosa/Divulgação)
(foto: Éden Barbosa/Divulgação)

Pra frente o pior (dias 30 e 31, às 21h, no Teatro Sesc Garagem; não recomendado para menores de 18 anos)
Da companhia Inquieta Cia, do Ceará, a montagem mostra o encontro de seis corpos como uma só massa amorfa, interpretados pelos performers Andréia Pires, Andrei Bessa, Geane Albuquerque, Gyl Giffony, Lucas Galvino e Wellignton Fonsenca. Na primeira vez, eles surgem como em uma tragédia. Na segunda, como uma festa. A montagem é fruto de um processo criativo desenvolvido com o coreógrafo Marcelo Evelin com colaboração dramatúrgica de Thereza Rocha, intitulado “Um corpo em final de festa”. “É uma coisa bem difícil de conseguir acessar, porque ele (o espetáculo) fala dessa apatia, dessa impotência que as pessoas têm de sair daquele círculo vicioso e começar a circular outras coisas”, analisa o curador do Cena.

(foto: Paula Pietro/Divulgação)
(foto: Paula Pietro/Divulgação)

Lo único que necesita una gran actriz (1º e 2 de setembro, na sala 
Adolfo Celi, da Casa d’Itália; não recomendado para menores de 18 anos)
O diretor Damián Cervantes, da cia mexicana Vaca 35, partiu de uma experiência emocional em cima do trabalho de Jean Genet, para compor Lo único que necesita una gran actriz. No palco, Mari Carmen Ruiz e Diana Magallón vivem num quarto muito pequeno — a escolha de espaços mínimos, como a Adolfo Celi, faz parte da estética. Ali, elas dividem todas as emoções: alegrias, tristezas, revoltas. Os temas abordados em Lo único que necesita una gran actriz são variados, indo de assédio moral, exploração, humilhação — fatores, para Genet, inerentes ao ser humano. “Há uma crítica da nossa própria condição de artistas que navegam entre a precariedade e a burguesia”, diz Damián.

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