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Correio Braziliense

Escritor africano vem a Brasília falar sobre romance "Os pescadores"

Chigozie Obioma participa da Bienal do Livro e da Leitura neste sábado (24/8)


postado em 25/08/2018 06:30

(foto: Niklas Halle'n/AFP )
(foto: Niklas Halle'n/AFP )


O escritor Chigozie Obioma acaba de voltar de Manchester, na Grã-Bretanha, onde foi assistir uma adaptação de seu romance, Os pescadores, para o teatro. Ficou tocado com a reação da plateia: lágrimas escorrendo pelos rostos e gente fungando aqui e ali. Obioma não sabe ao certo o porquê, mas o livro emociona. Talvez o fato de os protagonistas serem crianças, irmãos que se afastam e se aproximam em um ambiente enraizado nas tradições, mas também sujeito às pressões contemporâneas sobre um continente castigado pela desigualdade e pela exploração. “Às vezes, quero acreditar que é o poder do laço fraterno, no qual as pessoas se reconhecem, e, às vezes, imagino que pode ser a maneira como Benjamin conta a história – associando fenômenos estranhos com objetos familiares”, diz o autor, quando pensa na emoção que o livro desperta nos leitores. Ele participa hoje da 4ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura com a mesa África e muitas Áfricas, na qual vai falar sobre literatura africana, especialmente a nigeriana, que, há algumas décadas, oferece ao mundo alguns dos melhores livros produzidos no continente.

Obioma nasceu em Akure, no Oeste da Nigéria, e foi nas lembranças e vivências da infância que pescou esse romance, um fenômeno literário traduzido em 27 países e vencedor de cinco prêmios, além de indicado ao Man Booker Prize de 2015. Ele vem de uma linhagem que tem Chinua Achebe, Wole Soyinka (Nobel de Literatura) e Chimamanda Adichie (vencedora do Commonwealth Writer´s Prize). Aos 32 anos, hoje radicado nos Estados Unidos, onde dá aulas de literatura e escrita criativa na Universidade de Nebraska-Lincoln, Obioma observa esse fenômeno com curiosidade. Ele aponta que a Nigéria não é um país de leitores. Ao contrário. “Em geral, ler é um ato agonizante na Nigéria. Há ameaças de renascimento aqui e ali, mas, frequentemente, as pessoas têm muitas dificuldades financeiras. Se você for pobre, comprar livros ou até ir a bibliotecas (se houver alguma) é um luxo. Na maior parte do tempo, as pessoas estão pensando em sobreviver”, diz o autor, que tem um segundo romance, An orchestra of minorities, programado para ser lançado em janeiro de 2019.

Sobre Os pescadores, ele conta que teve a ideia da história ao receber um telefonema do pai, em 2009, quando morava no lado turco da ilha de Chipre. Ao ouvir as lembranças paternas de como alguns de seus 11 irmãos costumavam brigar na infância e se tornaram melhores amigos na vida adulta, Obioma sentiu saudades. E começou a imaginar esses irmãos cujos laços são abalados por uma profecia. “Comecei a pensar na fraternidade e sobre o que significa você amar um parente. Terminei com essa imagem de quatro irmãos e comecei a pensar no que aconteceria se algo de fora quebrasse essa irmandade, esse laço. E me veio a ideia de um profeta louco”, conta.

Boa parte dos personagens do romance vieram da própria família de Obioma. Como o pai do autor, o do livro trabalha em um banco e a mãe, como a do escritor, é vendedora. A linguagem, ele constrói com base nas três línguas mães: o igbo, o iorubá e o inglês. São as matrizes sob as quais nasceu e cresceu. Da literatura, as referências são variadas. Se os clássicos em inglês têm forte presença na formação do autor, os africanos definem as questões que o guiam. “Eles deixaram uma impressão muito forte durante minha infância”, avisa. Gente como Chinua Achebe e seu A flecha de Deus, “um romance angustiante e arrebatador”, o Wole Soynka de The trials of brother Jero (“O julgamento do irmão Jero”) e o Daniel O. Fagunwa, cujo Ògbójú d?? nínú Igbó Irúnmal?? Obioma leu no original, em iorubá.

Aparentemente, há uma grande geração de escritores na Nigéria. Além de você, temos Chimamanda Adichie, o Nobel Wole Soyinka, o clássico Chinua Achebe. E você gosta de lembrar que a Nigéria é um país que não lê. Como explicar uma produção literária tão intensa e reconhecida em um país que não lê?
Boa pergunta. Sempre falo de maneira geral. E, em geral, ler é um ato agonizante na Nigéria. Na maior parte do tempo, as pessoas estão pensando em sobreviver. E parte desse instinto de sobrevivência gravita em torno da religião. Logo, entre os nigerianos que não leem, quando leem, eles tendem a preferir livros religiosos e livros sobre “como fazer”. Isso não quer dizer que não haja uns poucos que vão contra a corrente. Então, você sempre vai ter nigerianos que leem e escrevem. Mas gostaria de lembrar que alguns dos nigerianos que você citou não cresceram na Nigéria. Eles foram, em parte ou totalmente, educados fora de lá, em locais onde ler tem apelo, e assim se tornaram quem são hoje. E também é preciso pensar em termos de escala. A Nigéria é, provavelmente, o sexto maior país do mundo em termos de população, atrás do Brasil. Acho que são 180 milhões de pessoas. Se você pensar nos escritores nigerianos com reconhecimento internacional, eles são poucos, talvez uns 20 no máximo. Então, comparado com um país como Estados Unidos, artistas nigerianos são algo escasso.

Como Os pescadores está conectado com sua própria história?
Eu queria escrever um tributo ao crescimento, a essa coisa de ter muitos irmãos. Quando entrei para a universidade, tive uma epifania: descobri que não tinha amigos. Eu não precisava ter amigos no meio de tantos irmãos. Isso fez com que eu os valorizasse mais ainda, especialmente quando me mudei para o Chipre. Essa foi uma das razões pelas quais eu decidi escrever sobre fraternidade e laços entre irmãos.

Você vive hoje nos Estados Unidos. Como essa mudança afetou sua percepção em relação a ser um cidadão africano?
Como eu retorno à Nigéria com frequência, umas duas vezes este ano, viver nos Estados Unidos me fez ter mais interesse em ajudar meu país e outros países africanos a se desenvolver. Eu realmente acredito que podemos fazer isso. Eu me sinto profundamente deprimido quando penso que a região está se esvaziando quando nós saímos para poder crescer e por causa das dificuldades. Esse é meu sentimento sobre viver uma diáspora.

Como você acha que temas como racismo e desigualdade devem aparecer na literatura?
É claro que as pessoas devem escrever as histórias que quiserem. O que eu sempre falo é que sou contra a escrita dogmática. Em um tempo no qual as pessoas são levadas a acreditar que seu principal objetivo é “mudar o mundo”, nós corremos o risco de destruir o mundo com uma busca exagerada do efeito “mudança”. Podemos acabar mudando até as coisas boas, e para pior. Então, em essência, escrever o que você sente que é verdade para você, mais do que ter essa agenda de “mudar o mundo”, é melhor. E o leitor vai reconhecer.

Qual o seu projeto literário? Sobre o que você quer escrever?
Eu sempre penso que meu primeiro objetivo é criar arte: o que quer dizer que quero criar uma realidade similar ao que é codificado como experiência humana. Felizmente, a arte pode entreter. Eu também quero registrar a história da civilização Igbo no Oeste da África e usar isso como uma maneira de inscrever minhas ideias sobre como podemos desenvolver nosso povo. Acredito que a fonte de nossa salvação repousa na compreensão de quem nós somos e quero fazer meu melhor para apontar essa direção.

Como o idioma igbo e iorubá são importantes para você?
São minhas línguas de nascimento, assim como o inglês. Cresci falando os três, atribuindo a cada uma funcionalidade. Como os irmãos de Os pescadores. Inglês era a língua da leitura, da escrita e da comunicação formal. Iorubá era a língua da comunicação local entre as pessoas em Akure. Igbo, a língua da família e das comunicações mais profundas. Eu ainda vejo essas línguas dessa forma, apesar de hoje falar turco também. Mas turco é uma língua estrangeira, sempre adormecida, e solicitada apenas quando realmente necessária.
 

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