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Correio Braziliense

Cena Contemporânea tem nove espetáculos de Brasília; apenas um inédito

Peças do DF ganham espaço no Cena Contemporânea, como a inédita Encerramento do amor. Conheça um pouco da dramaturgia brasiliense


postado em 26/08/2018 06:45

 Encerramento do amor é a única estreia da produção brasiliense no festival(foto: Diego Bressani/Divulgação)
Encerramento do amor é a única estreia da produção brasiliense no festival (foto: Diego Bressani/Divulgação)

 
A seleção de espetáculos do Cena Contemporânea 2018 contemplou nove montagens de Brasília, que têm sido apresentadas desde a última terça-feira no DF. As obras foram escolhidas por um time de curadores, formado por artistas e professores, que buscou dar espaço para peças que estivessem em projeção na cena local. Até por isso, apenas um espetáculo,  Encerramento do amor,  estreia no festival —  o restante já foi encenado em outras oportunidades na capital federal ao longo do ano.

“Um dos critérios (da seleção) é que (o espetáculo) tenha estreado e que possa mandar o vídeo, se inscrever e que tenha crítica, release e tudo pronto. Então, isso acaba selecionando espetáculos que já estrearam e que estão nesse circuito candango durante o ano. Mas talvez seja uma coisa que a gente possa repensar e tentar aumentar esse número de estreias, porque, hoje em dia, a gente já conhece os coletivos, já sabe a qualidade de cada um, em que patamar cada um está desenvolvendo seu trabalho”, analisa Alaôr Rosa, curador do Cena Contemporânea.

Encerramento do amor é uma versão brasiliense da obra Clôture de l’amour, de Pascal Rambert, vencedora do francês Grand Prix de Littérature Dramatique, em 2012. A ideia de fazer uma adaptação local veio da atriz Ada Luana, do grupo Setor de Áreas Isoladas. “É um espetáculo francês que até já teve duas montagens no Brasil, no Rio de Janeiro e em São Paulo. A Ada tinha muita vontade de montar e chamou a mim e ao (ator) João Campos. Foi ela quem agilizou todo o movimento da peça”, conta Diego Bresani, diretor da versão brasiliense.

Ada Luana e João Campos interpretam um casal que fala sobre o fim do relacionamento. Em formato de monólogo, a peça começa com a fala do personagem de João e depois com a de Ada. O início pelo personagem masculino é intencional. “É o término de um relacionamento heterossexual, no qual quem começa falando é o homem e o público pode identificar certos comportamentos masculinos, machistas, certas reflexões e afirmações que estão relacionadas ao gênero masculino. Ela é a última a falar e vem rebatendo todas essas declarações machistas. Tudo isso de uma maneira bem sutil. Eles discutem o amor, o que é amar alguém tanto tempo e se desprender, e também falando da força da palavra que é dita em uma discussão de relação”, explica Bresani.

Debates atuais

Como o nome do festival diz, a maior parte dos espetáculos do Cena Contemporânea contemplam debates atuais e um grande exemplo disso é a montagem Autópsia — A continuação — Atos III e IV. Lançada em Brasília em março deste ano com encenações em Taguatinga, Sobradinho e no Centro Cultural Banco do Brasil, a peça é a sequência de Autópsia — Atos I e II, com base em textos do escritor, ator e diretor Plínio Marcos, que morreu em 1999.

A primeira montagem data de 2011 e surgiu de uma disciplina da Faculdade Dulcina de Moraes discutindo violência, criminalidade e a realidade brasileira. “Dentro dessa loucura toda que o país está vivendo, houve um desejo de seguir a pesquisa para dois novos atos. Primeiramente, a gente nem pensou em dois atos”, explica o diretor Jonathan Andrade.

Desta vez, os textos de Plínio Marcos escolhidos para inspiração da obra foram A mancha roxa, Barrela, Balada de um palhaço, Homens de papel e Oração para um pé de chinelo. “Dentro do universo dessas obras e de toda a realidade do país que está ainda mais latente hoje, acabou que a gente chegou ao universo prisional e à realidade dos catadores de lixo da Estrutural”, conta Andrade.

O grupo Sutil Ato fez laboratório com detentas e recicladoras, que se tornaram cocriadoras da peça, e decidiu mudar drasticamente a montagem até chegar a Autópsia — Atos III e IV. “Esse desejo de continuidade se dá porque a gente precisava tocar um pouco mais o dedo na ferida. Esse espetáculo é uma desconstrução profunda, porque os atos são documentais, tem de fato as vozes dessa parcela invisibilizada”, revela.

O Ato III aborda o sistema carcerário, enquanto o IV traz a realidade dos recicladores do, agora desativado, lixão da Estrutural. “Há uma provocação, um murro, um grito, que é a digital da Autópsia, de uma realidade pelas fibras de Plínio Marcos, que é uma inspiração de todo o processo, que agora ganha uma roupagem autoral”, completa o diretor.

Após exibição dos Atos I e II, Autópsia está de volta ao Cena com Atos III e IV (foto: Diego Bresani/Divulgação)
Após exibição dos Atos I e II, Autópsia está de volta ao Cena com Atos III e IV (foto: Diego Bresani/Divulgação)


Teatro de rua

Da seleção do Cena, três montagens brasilienses representam o teatro de rua. São elas: Inka Clow Show, Édipo rei — O rei dos bobos e Mateus da Lelé Bicuda. Os espetáculos estão sendo encenados nas regiões administrativas de Brasília em locais inusitados, como as Feiras Permanentes das cidades.

Criado em 2015, Édipo rei — O rei dos bobos é um trabalho que surgiu da concepção e direção de Denis Camargo, fruto de uma pesquisa na pós-graduação da Universidade de Brasília (UnB). “Desenvolvi em 2015 para ter material para análise dos procedimentos cômicos da tragédia e da relação com o espectador”, afirma Camargo.

No ano passado, com o apoio do Fundo de Apoio à Cultura (FAC), a peça entrou em circulação e até hoje teve mais de 30 apresentações. A produção é livremente inspirada na tragédia de mesmo nome, de Sófocles, com humor e musicalidade. “Minha proposta era essa absorção desse material, que é grego, com muita paródia musical para aproximar do carnaval brasileiro e, assim, do público”, completa. Com duas horas de peça, a montagem conta com palhaços e retrata o mito com ajuda da comédia e da música.

Colaborou Nahima Maciel


SERVIÇO

Édipo rei — O rei dos bobos
• CEF Dra Zilda Arns (Qd. 378, Cj. L — Itapoã). Em 27 de agosto, às 19h30. Com Denis Camargo, Simone Marcelo, Hugo Leonardo, Lupe Leal, Gustavo Gris, Herbert Costa, José de Campos, Luiz Alfredo Vannini, Ana Luiza Bellacosta, Maria Garcia, Mariana Neiva, Pedro Jorge, Lorena Matos, Luiza Martins e Paulo Gomes. Direção: Denis Camargo. A entrada é franca. Não recomendado para menores de 14 anos. IFB — São Sebastião (AE 2, Bairro São Bartolomeu). Em 28 de agosto, às 19h30. Com Denis Camargo, Simone Marcelo, Hugo Leonardo, Lupe Leal, Gustavo Gris, Herbert Costa, José de Campos, Luiz Alfredo Vannini, Ana Luiza Bellacosta, Maria Garcia, Mariana Neiva, Pedro Jorge, Lorena Matos, Luiza Martins e Paulo Gomes. Direção: Denis Camargo. A entrada é franca. Não recomendado para menores de 14 anos.

Autópsia — A continuação — Atos III e IV
• Teatro Sesc Newton Rossi (Ceilândia). Ato III, em 28 de agosto, às 20h. Ato IV, em 29 de agosto, às 20h. Do Grupo Sutil Ato com Giselle Ziviank, Ivan Zanon, Jeferson Alves, Maria Eugênia Félix, Micheli Santini e Pedro Ribeiro. Direção: Jonathan Andrade. Entrada franca. Não recomendado para menores de 18 anos. Teatro Plínio Marcos (Funarte). Atos III e IV, em 31 de agosto, às 19h. Entrada a R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia). Assinantes do Correio pagam meia-entrada. Não recomendado para menores de 18 anos.

Encerramento do amor
• Teatro Sesc Paulo Autran (Taguatinga). Em 29 de agosto, às 20h. Com Ada Luana, João Campos e Taís Felipe. Direção: Diego Bresani. Teatro do CCBB (SCES, Tc. 2). Entrada a R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia). Assinantes do Correio pagam meia-entrada. Não recomendado para menores de 14 anos. Em 31 de agosto, às 21h. Entrada a R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia). Entrada a R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia). Assinantes do Correio pagam meia-entrada. Não recomendado para menores de 14 anos.

Mais espetáculos do DF

Copo de leite
• Teatro Sesc Paulo Gracindo (Gama). Hoje, às 20h. Da Cia. (Ex)ordinária de Teatro com Gabriela Correa e Lucélia Freire. Direção: Gustavo Gris. A entrada é franca. Não recomendado para menores de 16 anos.


Inka Clown Show
• Feira Permanente de São Sebastião. Hoje, às 10h. Da Cia. Circo Rebote. Direção: Atawalpa Coelho. A entrada é franca. Classificação indicativa livre.


Mateus da Lelé Bicuda
• Feira Permanente de São Sebastião. Hoje, às 12h. Do grupo Mamulengo Presepada. Direção: Chico Simões. A entrada é franca. Classificação indicativa livre. Lar dos Velhinhos Maria Madalena. Em 28 de agosto, às 9h. Do grupo Mamulengo Presepada. Direção: Chico Simões. A entrada é franca. Classificação indicativa livre. Lar dos Velhinhos Bezerra de Menezes. Em 29 de agosto, às 14h30. Do grupo Mamulengo Presepada. Direção: Chico Simões. A entrada é franca. Classificação indicativa livre.


Sonhos de uma noite de verão
• Teatro Sesc Newton Rossi (Ceilândia). Em 2 de setembro, às 20h. Do Grupo Celeiro das Antas com Elisa Carneiro, Felix Saab, Kelly Costty e Rodrigo Lelis. Direção: José Regino. A entrada é franca. Não recomendado para menores de 18 anos.

*As peças Cria, de Caísa Tibúrcio e Nara Faria, e Os beatniks em psicose, do Grupo Novos Candangos, foram encenados entre sexta e sábado da semana passada.
 
 

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