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Correio Braziliense

Peça do francês Serge Nicolai faz homenagem a Bergman

'A Bergman affair' adapta romance publicado nos anos 1990 e faz parte da programação do Cena Contemporânea


postado em 27/08/2018 06:45

'A Bergman affair' estreia nesta segunda-feira no CCBB, pelo Cena Contemporânea(foto: Guido Mencari/Divulgação)
'A Bergman affair' estreia nesta segunda-feira no CCBB, pelo Cena Contemporânea (foto: Guido Mencari/Divulgação)

 

Anna é uma mulher presa em um mundo codificado, rígido e austero, um meio protestante no qual precisa se comportar conforme uma série de regras. No entanto, ela decide dar sequência a seus impulsos na esperança de encontrar a felicidade. Anna é casada com um pastor, Henryk, e tem um amante, Thomas. De Jacob, seu pastor-mentor, ouve conselhos que a conduzirão a um final um tanto catastrófico. A sinopse de A Bergman affair pode parecer simples, mas há uma terrível complexidade quando a peça sobe ao palco pelas mãos do diretor francês Serge Nicolai. Com estreia nesta segunda (27/8) no Cena Contemporânea, o espetáculo é uma homenagem aos 100 anos do cineasta Ingmar Bergman e uma adaptação do romance Confissões privadas, publicado pelo sueco em 1996.

 

Para o palco, Nicolai traz uma montagem que começou a tomar forma durante seu trabalho com o Théâtre du Soleil, do qual faz parte há mais de 20 anos. A manipulação de atores é a base do espetáculo, uma técnica que usou no palco sob a supervisão de Ariane Mouchkine, e que agora traz para sua estreia na direção. Eventualmente, e com algum improviso, os atores são manipulados por outros atores como se fossem marionetes.

 

O curioso é que não há um roteiro fixo para isso acontecer. Nicolai quer manter o elenco conectado ao presente e investido de uma certa liberdade. “Não tem realmente uma direção, há uma grande liberdade de ação dada aos atores porque, no fundo, eu devo poder vir também quando quero, quando sinto, e eles podem me chamar também”, explica o diretor, que evoca John Cassevetes como referência. “Seu método de trabalho era colocar tudo à disposição dos atores e deixá-los fazer enquanto a câmera capta o que acontece. No fundo, é o que fazemos.”

Espírito

 

O universo bergmaniano está presente, sobretudo, na introspecção de Anna e em sua experiência interior. “Bergman dizia que trabalhava sobre o infinitamente pequeno que é o ser humano, tentava desconstruí-lo como um cirurgião para tentar entender a intimidade do espírito humano. A manipulação intervém porque ela revela ao espectador essa anterioridade”, garante Nicolai.

 

Olivia Corsini, também do Théâtre du Soleil e companheira de Nicolai, interpreta Anna e assina a codireção da peça. É uma parceria que vem de longa data. O casal protagonizou o filme Olmo e a gaivota, documentário no limite da ficção, dirigido por Petra Costa e Lea Glob, sobre como uma gravidez afeta a relação de um casal de atores com o palco e na intimidade.

 

A escolha do livro de Bergman foi uma sugestão de Olivia. No início, Nicolai resistiu, mas acabou por mergulhar no romance, que é inspirado em um diário íntimo da mãe do cineasta sueco. “O título original é Confissão no privado, que é o termo protestante para a confissão, porque, para os protestantes, a confissão não se faz em um confessionário, se faz como se fosse uma discussão”, explica o diretor. “Sou cinéfilo e claro que fiquei tocado porque, em Bergman, temos Tchekov, tem Raymond Carver, têm os autores de que gosto como ator. Foi realmente um encontro e esse texto.”

 

Três perguntas para Serge Nicolai

 

Como nasceu A Bergman affair

Depois de fazer Macbeth no Théâtre du Soleil, decidi fazer uma pausa para montar os meus desejos. E meu primeiro desejo era continuar a forma artística que eu estava elaborando há alguns anos com a pedagogia que emprego no mundo inteiro em turnê com o Théâtre du Soleil, que consiste na manipulação dos corpos. Isso começou com um espetáculo que se chama Tambours sur la digue, no qual descobri, como ator, o trabalho de manipulação. Esse trabalho foi muito importante porque trabalhei com uma atriz que me manipulava e era dançarina de katakami. Ela fazia meus movimentos e eu cuidava da interpretação, é um trabalhamos realmente a dois.

 

A manipulação não é contínua e programada?

Não, ela não está em um roteiro. Há alguns pontos de encontro, mas não é obrigatório. Os atores, e eu também, estão sempre redescobrindo o presente, assim como o engenheiro de som, porque o som é muito importante. E aí entra o cinema, porque há um tratamento de som particular, nós tentamos trabalhar a sugestão emocional do som. E os atores estão o tempo inteiro improvisando porque são livres para colocar a música que quiserem. O espetáculo tem um esqueleto, que é vazio, e dentro podemos colocar o que quisermos. Então tentamos não fixar muito. O importante é que os atores fiquem perpetuamente presentes e não se sintam confortáveis em um desenho já traçado no qual eles têm menos liberdade de ação.

 

É preciso se conhecer bem e confiar uns nos outros para funcionar, não?

Exatamente. Por isso chamei pessoas que conheço há muito tempo. Gérard Hardy é um dos fundadores do Théâtre du Soleil, Olivia é minha companheira. Eu me cerquei de pessoas que conheço há 20 anos e trabalhamos em pequenas sessões para aprender a se conhecer e a ter confiança. E eles confiam extremamente em mim, porque, afinal, tenho uma responsabilidade. Precisamos realmente ter um entendimento e uma escuta, é realmente baseado na confiança e na escuta.

 

A Bergman affair

Direção: Serge Nicolai. Com Olivia Corsini, Stephen Szekely, Gérard Hardy e Andrea Romano. Hoje e amanhã, às 21h, no Teatro Sesc Garagem

 

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