Jornal Correio Braziliense

Diversão e Arte

Peça do francês Serge Nicolai faz homenagem a Bergman

'A Bergman affair' adapta romance publicado nos anos 1990 e faz parte da programação do Cena Contemporânea

Anna é uma mulher presa em um mundo codificado, rígido e austero, um meio protestante no qual precisa se comportar conforme uma série de regras. No entanto, ela decide dar sequência a seus impulsos na esperança de encontrar a felicidade. Anna é casada com um pastor, Henryk, e tem um amante, Thomas. De Jacob, seu pastor-mentor, ouve conselhos que a conduzirão a um final um tanto catastrófico. A sinopse de A Bergman affair pode parecer simples, mas há uma terrível complexidade quando a peça sobe ao palco pelas mãos do diretor francês Serge Nicolai. Com estreia nesta segunda (27/8) no Cena Contemporânea, o espetáculo é uma homenagem aos 100 anos do cineasta Ingmar Bergman e uma adaptação do romance Confissões privadas, publicado pelo sueco em 1996.

Para o palco, Nicolai traz uma montagem que começou a tomar forma durante seu trabalho com o Théâtre du Soleil, do qual faz parte há mais de 20 anos. A manipulação de atores é a base do espetáculo, uma técnica que usou no palco sob a supervisão de Ariane Mouchkine, e que agora traz para sua estreia na direção. Eventualmente, e com algum improviso, os atores são manipulados por outros atores como se fossem marionetes.

O curioso é que não há um roteiro fixo para isso acontecer. Nicolai quer manter o elenco conectado ao presente e investido de uma certa liberdade. ;Não tem realmente uma direção, há uma grande liberdade de ação dada aos atores porque, no fundo, eu devo poder vir também quando quero, quando sinto, e eles podem me chamar também;, explica o diretor, que evoca John Cassevetes como referência. ;Seu método de trabalho era colocar tudo à disposição dos atores e deixá-los fazer enquanto a câmera capta o que acontece. No fundo, é o que fazemos.;

Espírito

O universo bergmaniano está presente, sobretudo, na introspecção de Anna e em sua experiência interior. ;Bergman dizia que trabalhava sobre o infinitamente pequeno que é o ser humano, tentava desconstruí-lo como um cirurgião para tentar entender a intimidade do espírito humano. A manipulação intervém porque ela revela ao espectador essa anterioridade;, garante Nicolai.

Olivia Corsini, também do Théâtre du Soleil e companheira de Nicolai, interpreta Anna e assina a codireção da peça. É uma parceria que vem de longa data. O casal protagonizou o filme Olmo e a gaivota, documentário no limite da ficção, dirigido por Petra Costa e Lea Glob, sobre como uma gravidez afeta a relação de um casal de atores com o palco e na intimidade.

A escolha do livro de Bergman foi uma sugestão de Olivia. No início, Nicolai resistiu, mas acabou por mergulhar no romance, que é inspirado em um diário íntimo da mãe do cineasta sueco. ;O título original é Confissão no privado, que é o termo protestante para a confissão, porque, para os protestantes, a confissão não se faz em um confessionário, se faz como se fosse uma discussão;, explica o diretor. ;Sou cinéfilo e claro que fiquei tocado porque, em Bergman, temos Tchekov, tem Raymond Carver, têm os autores de que gosto como ator. Foi realmente um encontro e esse texto.;

Três perguntas para Serge Nicolai

Como nasceu A Bergman affair?

Depois de fazer Macbeth no Théâtre du Soleil, decidi fazer uma pausa para montar os meus desejos. E meu primeiro desejo era continuar a forma artística que eu estava elaborando há alguns anos com a pedagogia que emprego no mundo inteiro em turnê com o Théâtre du Soleil, que consiste na manipulação dos corpos. Isso começou com um espetáculo que se chama Tambours sur la digue, no qual descobri, como ator, o trabalho de manipulação. Esse trabalho foi muito importante porque trabalhei com uma atriz que me manipulava e era dançarina de katakami. Ela fazia meus movimentos e eu cuidava da interpretação, é um trabalhamos realmente a dois.

A manipulação não é contínua e programada?

Não, ela não está em um roteiro. Há alguns pontos de encontro, mas não é obrigatório. Os atores, e eu também, estão sempre redescobrindo o presente, assim como o engenheiro de som, porque o som é muito importante. E aí entra o cinema, porque há um tratamento de som particular, nós tentamos trabalhar a sugestão emocional do som. E os atores estão o tempo inteiro improvisando porque são livres para colocar a música que quiserem. O espetáculo tem um esqueleto, que é vazio, e dentro podemos colocar o que quisermos. Então tentamos não fixar muito. O importante é que os atores fiquem perpetuamente presentes e não se sintam confortáveis em um desenho já traçado no qual eles têm menos liberdade de ação.

É preciso se conhecer bem e confiar uns nos outros para funcionar, não?

Exatamente. Por isso chamei pessoas que conheço há muito tempo. Gérard Hardy é um dos fundadores do Théâtre du Soleil, Olivia é minha companheira. Eu me cerquei de pessoas que conheço há 20 anos e trabalhamos em pequenas sessões para aprender a se conhecer e a ter confiança. E eles confiam extremamente em mim, porque, afinal, tenho uma responsabilidade. Precisamos realmente ter um entendimento e uma escuta, é realmente baseado na confiança e na escuta.

A Bergman affair

Direção: Serge Nicolai. Com Olivia Corsini, Stephen Szekely, Gérard Hardy e Andrea Romano. Hoje e amanhã, às 21h, no Teatro Sesc Garagem