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Correio Braziliense

O árduo caminho até o pai da bossa-nova em 'Onde está você, João Gilberto'

'Onde está você, João Gilberto' traz depoimentos de nomes como Miúcha e João Donato


postado em 27/08/2018 07:00 / atualizado em 27/08/2018 08:47

A última vez que João Gilberto esteve num palco foi em 2008, ano em que a bossa nova completou 50 anos(foto: Ari Versiani )
A última vez que João Gilberto esteve num palco foi em 2008, ano em que a bossa nova completou 50 anos (foto: Ari Versiani )

 
Longe há quase uma década dos holofotes, João Gilberto, que nunca foi muito chegado a exposição, tornou-se alvo da obsessão de Marc Fischer, um alemão que veio ao Brasil obstinado a ouvir do próprio músico a canção Ho-ba-la-lá. Não conseguiu. Relatou a experiência no livro À procura de João Gilberto, publicado em 2011.

Em 2014, Georges Gachot, impressionado com o livro e com morte de Fisher, decidiu seguir o encalço do autor para chegar a Gilberto. O cineasta apreciador de música brasileira dirigiu Onde está você, João Gilberto?, documentário recém-lançado nos cinemas nacionais.

O filme dedica-se mais a Marc Fischer — que morreu antes de ter o livro lançado — do que ao músico brasileiro. Contribui, no entanto, para engrossar a áurea mitificada que paira em torno do pai da bossa-nova e para atiçar a curiosidade sobre a vida dele.

Juntam-se ao documentarista pessoas que foram próximas ou que trabalharam com Gilberto — ilustres como Miúcha, João Donato, Marcos Valle e Roberto Menescal contribuem para fazer um retrospecto de seu trabalho para o entendimento de sua forte persona.

Isolamento


Miúcha vê Onde está você, João Gilberto? como um respiro para a imagem dele. Não à toa. “No meio de tanto vodu que fazem em cima do Gilberto, finalmente aparece uma coisa leve a respeito”, desabafa em entrevista ao Correio Braziliense a cantora com quem o bossanovista foi casado. Ela se indigna com o fato de que “foi necessário um alemão para prestar essa homenagem”.

Antes, uma excentricidade, a reclusão de João Gilberto, hoje, aos 87 anos, tornou-se uma necessidade. Associada à solidão a que sempre esteve habituado, juntam-se os problemas de saúde — a filha Bebel Gilberto chegou a pedir sua interdição pela suposta incapacidade de assinar documentos — e de finanças — agravados, entre outras razões, pelo cancelamento de turnê depois de já ter recebido parte do cachê em 2011.

Miúcha diz que Gilberto a visitou nas últimas semanas e que mantém contato regular. Reclama da predominante imagem negativa atribuída a ele. Diz-se que enlouqueceu, faliu, isolou-se, que está muito magro e frágil demais para sair de casa; verdade ou não, para Miúcha, pouco é celebrada sua importância para a música brasileira, que deve a ele a invenção da bossa-nova, um dos maiores cartões postais do Brasil no mundo. Miúcha acrescenta que o cantor tem novas composições e que tenta convencê-lo a liberá-las, sem muito sucesso.

“Sempre foi uma pessoa muito escondida, muito reservada, muito sozinha. Não é coisa nova”, conta João Donato, que atribui o isolamento à “personalidade dele”, “sempre foi muito solitário”. Antigo parceiro habitual de Gilberto, Donato não vê o músico há cerca de 20 anos. No início do distanciamento gradual, ainda tentava comunicá-lo vez ou outra. “Não tento mais. Ele parou de atender a mim e a outras pessoas, deixei de telefonar”.  

Além de contribuir com depoimentos, Donato participou da escolha das músicas que foram para o documentário. “Mostrei opções para Gachot e, depois, ele fez a seleção final”. Músicas do João Gilberto, como não podiam faltar, ressoam ao longo do documentário, que também inclui novos trabalhos de Donato, como canções do álbum Donato elétrico, de 2016, com participação do grupo Bixiga 70.
 
O documentário Onde está você, João Gilberto? conta com depoimentos de Miúcha e de João Donato.(foto: Ari Versiani )
O documentário Onde está você, João Gilberto? conta com depoimentos de Miúcha e de João Donato. (foto: Ari Versiani )
 

Para além do convívio

Foi graças a João Gilberto que Rosa Passos trocou o piano pelo violão. A então menina baiana de 11 anos elegeu o músico como mestre. Anos depois, Gilberto a elegeria herdeira da bossa-nova. Chegou a ser chamada de “João Gilberto de saia”, rótulo que não a agrada. “Aprendi muito com ele, mas já tenho minha assinatura, minha forma de cantar, de compor, de me apresentar”, conta a musicista, a quem Gilberto chama por “flor”.

Rosa guarda extremo carinho por ele e se lembra dos últimos contatos, como a vez em que Gilberto lhe telefonou em 2006, quando a baiana gravou seu disco Rosa. “Ele ligou para me desejar sorte na apresentação” diz, revelando a emoção que sentiu no momento. Antes, em 2004, ela ligou para avisá-lo do disco que gravara em homenagem a Amoroso, um dos maiores clássicos dele. “Que maravilha flor, que você vai fazer esse disco”, teria dito um feliz João Gilberto.

A distância não a incomoda. “Eu gostaria apenas que ele ficasse bem, não tenho um desejo de reencontrá-lo. Às vezes que o encontrei, foram de muito amor, muito carinho. Guardo no meu coração”, conta, sem querer comentar sobre as polêmicas recentes. “Nesta altura da vida dele, ele merece apenas respeito nosso”.

Saudade

“Na língua alemã também tem a palavra saudade: Sehnsucht”, diz o diretor francês Georges Gachot que pergunta a quase todos os seus entrevistados: “Qual é sua saudade?”, em referência à música mais célebre do grande compositor, Chega de saudade. “A minha saudade ficou em Berlim”, diz no filme, em referência a Fischer. 

*Estagiário sob a supervisão d e Severino Francisco


Duas perguntas para Georges Gachot

No filme, você procura encontrar Marc Fischer enquanto procura João Gilberto. Por que resolveu documentar essa busca e essa continuação da missão dele?

Interessante dito dessa forma, “querer encontrar Marc Fischer”, porque realmente tem uma coisa de querer encontrar uma pessoa que não está vivendo mais. Entrar no mundo dele, ler o livro e tentar entender o que ele pensava, tentar refazer o caminho, entrar na cabeça, no mundo, o pensamento durante a pesquisa. Descobri que havia morrido pouco antes do lançamento e fiquei muito abalado com isso. O filme foi um presente para ele.

De que veio sua admiração pela  música brasileira?

Antes de fazer filme sobre música brasileira, fiz muitos filmes sobre música clássica. Cresci dentro desse mundo, até o momento em que assisti ao show de Maria Bethânia no Festival de Jazz Montreux. Para mim, foi uma revelação que mudou minha vida completamente. Até então eu nunca tinha ouvido música brasileira. Só João Gilberto. Acho João Gilberto o músico mais clássico do Brasil inteiro. Me tocou muito, porque foi uma mistura entre jazz, música clássica. Foi outra mistura. Uma cozinha que eu não conhecia antes (risos).

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