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Correio Braziliense

Lobão lança disco duplo e tem show marcado em Brasília para novembro

No álbum duplo de 25 faixas, o maior dos malditos em atividade na cena musical do país reúne hits de uma década de ouro da discografia nacional


postado em 28/08/2018 06:35 / atualizado em 28/08/2018 22:55

Acompanhado pela banda Eremitas da Montanha, o músico Lobão está lançando o disco
Acompanhado pela banda Eremitas da Montanha, o músico Lobão está lançando o disco "Antologia Politicamente Incorreta dos Anos 80 pelo Rock" (foto: Anatole Klapouch/Divulgação )
 
Ele está ficando velho, cada vez mais doido varrido. Roqueiro brasileiro com cara de bandido. Uma ameaça de atentado e um pedido para que lhe respeitem a “caducagem”. Afinal, “essa vida é muito louca e loucura pouca é bobagem”. Os versos iniciais da Antologia Politicamente Incorreta dos Anos 80 pelo Rock, novo disco de Lobão, soam em parte como um singelo pedido de desculpas pelas incontáveis polêmicas, recentes ou mais remotas, e também como um alerta de que a artilharia está longe de acabar. No álbum duplo de 25 faixas, o maior dos malditos em atividade na cena musical do país reúne hits de uma década de ouro da discografia nacional, oferecendo-lhes arranjos vigorosos e criativos em companhia da entrosada banda Eremitas da Montanha.

Recém-chegado ao clube dos sexagenários, João Luiz Woerdenbag Filho, mais conhecido como Lobão, pela primeira vez na carreira solo investe em um lançamento não autoral. O projeto é decorrente do livro quase homônimo, no qual o músico e escritor disseca a produção fonográfica dos anos 80 e vasculha as entranhas do pop rock nacional. Se a ideia inicial era esculhambar um período que tanto incomodava o autor, o desenvolvimento dos capítulos acabou apontando em outra direção. Lobão se viu comovido com a qualidade lírica das letras, reconsiderou posicionamentos – inclusive em relação a antigos desafetos, como Hebert Vianna – e decidiu regravar algumas canções, imprimindo roupagem musical personalista.

O resultado é um poderoso disco de rock ‘n’ roll, com solos de guitarra eloquentes, sonoridade impactante, timbres, distorções, arranjos e ritmos contundentes. A voz de Lobão aparece mais grave do que nos anos 1980, mas ainda com a força e a identidade esganiçada que sempre a caracterizaram. A banda arregimentada, Os Eremitas da Montanha, oferece apoio preciso e criativo, com Armando Cardoso na bateria, Augusto Passos no baixo, Felipe Faraco nos teclados e Christian Dias na guitarra.

A Antologia Politicamente Incorreta dos Anos 80 pelo Rock também pode ser considerada um acerto estratégico nos rumos da carreira do velho Lobo.  Em 2016, envolto em debates acirrados e ferrenha militância durante o tempestuoso período político que conduziu ao impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, o músico lançou o disco O Rigor e a Misericórdia, no qual gravou praticamente sozinho os instrumentos de todas as 11 faixas. A obra virtuosa, no entanto, não emplacou turnê e a agenda de shows do compositor atravessou uma fase esvaziada, algo que parece modificado desde o lançamento do novo projeto. Em Brasília, aliás, Lobão e os Eremitas da Montanha desembarcam em novembro. 

A nostalgia que os anos 80 despertam em um vasto público do país, além de novas gerações que descobrem o poder de obras de compositores como Cazuza e Renato Russo, são o trunfo de Lobão nesta nova empreitada, fazendo reabrir portas que há anos se fechavam para ele. Recentemente, o músico conseguiu generoso espaço de 20 minutos para tocar ao vivo no Domingão do Faustão, um dos campeões de audiência da Rede Globo, onde Lobão não aparecia há quase duas décadas. 
 
A voz de Lobão está ainda mais grave do que na década de 1980(foto: Anatole Klapouch/Divulgação )
A voz de Lobão está ainda mais grave do que na década de 1980 (foto: Anatole Klapouch/Divulgação )
 

Guitarras setentistas em primeiro plano

No livro que escreveu sobre o tema, Lobão ataca os produtores musicais que impuseram um padrão chinfrim ao rock dos anos 80, com guitarras escamoteadas, abuso de sintetizadores e baterias eletrônicas, entre outros apegos a modismos sonoros. Na gravação das 25 faixas da Antologia Politicamente Incorreta, o músico trata de fazer um acerto de contas com a história e apresenta a própria versão do período que o consagrou como um dos principais criadores de hits do país, ressaltando o encontro entre letras de grande força poética e execução musical de excelência dentro da estética do rock. 

De uma forma simplificada e didática, o novo disco pode ser dividido em quatro categorias básicas de canções: rocks pauleiras, sucessos dançantes, baladas melódicas e algumas experiências criativas, características que por vezes também se misturam numa única composição. No primeiro grupo, entram faixas como Orra meu, de Rita Lee, Geração Coca-Cola, da Legião Urbana, Eu Não Matei Joana d'Arc, da Camisa de Vênus, Nós Vamos Invadir Sua Praia, do Ultraje a Rigor, Até quando esperar, da Plebe Rude, e Pânico em SP, dos Inocentes. Nessas faixas, é possível observar citações a Led Zepplin e Jerry Lee Lewis, como na introdução de bateria, logo no início do disco, e no piano freneticamente ritmado em diversos trechos, além da definição de um conceito clássico de rock, com distorções e timbres de guitarra típicos dos anos 70, mas com qualidade sonora digital do século 21.

Entre os destaques para embalar a festa flashback dos anos 80, entram Vítima do Amor (Blitz), Nosso Louco Amor (Gang 90), Leve Desespero (Capita Inicial), Louras Geladas (RPM), Núcleo Base (Ira!), Toda forma de poder (Engenheiros do Hawai) e Esfinge de estilhaços, do próprio Lobão. Nesse grupo de canções, os arranjos de órgão, ora gravados por Lobão, ora por Felipe Faraco, e as variações rítmicas da bateria de Armando Cardoso dão clima ideal para o baile. 

Autor de inúmeras baladas de sucesso ao longo da carreira, Lobão seleciona para a coletânea dos anos 80 as clássicas Certas Coisas (Lulu Santos/Nelson Motta), Primeiros Erros (Kiko Zambianchi), Dias de Luta (Ira!), Eu sei (Legião Urbana), Virgem (Marina Lima), Somos quem podemos ser (Engenheiros do Hawai), O tempo não para (Cazuza) e Lanterna dos Afogados (Paralamas do Sucesso). Os violões de dedilhado requintado de Lobão, acompanhados pela lisérgica slide guitar de Christian Dias, são o charme essencial dessas faixas. 

Por fim, as curiosidades criativas ficam por conta de Planeta Água (Guilherme Arantes), na qual Lobão introduz violas ao melhor estilo sertanejo; Quase um segundo (Paralamas do Sucesso), interpretada com grande intimismo ao som de voz e violão; Vida Bandida (Lobão/Bernardo Vilhena), com todos os instrumentos regravados agressivamente pelo titular do álbum; e Azul e amarelo (Lobão/Cazuza/Cartola), em que revisita parceria histórica e inusitada. Completam a obra de 90 minutos as participações especiais do lendário Luiz Carlini, guitarrista que deu o tom aos primeiros trabalhos da carreira solo de Rita Lee, Roger (Ultraje a Rigor) e Regina Lopes (esposa e empresária de Lobão).


Entrevista com Lobão


Os anos 80 foram marcados pelas mortes de Cazuza, enato Russo e Raul Seixas. Hoje, aos 60 anos, como é olhar para trás e se perceber sobrevivente desse período tão intenso da cena roqueira do Brasil? 
Eu tenho horror dos anos 80 por todas essas perdas, pela perseguição política, pela perseguição policial e pela qualidade horrorosa dos meus discos. Toda vez que ouvia os discos, era aquela decepção. Não havia autonomia sobre o que eu produzia, pois era tudo modificado no estúdio. Era minha grande agonia. Foi uma epopeia atravessar essa década com cenário todo contra: imprensa, gravadoras, festivais e o “coronelato da cultura”. Não era fácil. Mas, durante a escrita do livro, percebi que foi uma época muito rica para o cancioneiro popular brasileiro.

Fale sobre o processo de formatação da banda Eremitas da Montanha. Qual foi o critério para seleção dos músicos?
Parte da banca vem tocando comigo há bastante tempo. O Armando Cardoso, que considero um dos melhores bateristas do Brasil, me acompanha há 10 anos. O Guto Passos está comigo há quatro anos. Foi ele quem me apresentou o Christian Dias, guitarrista carioca de um power trio de rua chamado Astro Venga, e o Felipe Faraco, tecladista gaúcho e professor de produção musical, que tocou como baixista do Júpiter Maçã. O critério era excelência musical e ter os mesmos interesses estéticos musicais, além de ser gente fina, senão a gente não consegue conviver.

Tem sido mais difícil ensaiar e internalizar músicas que não são de sua autoria?
Para mim é mais difícil, porque não sou intérprete. Ainda tenho que decorar uma papelada de letras, pois, após encerrar as gravações, passei três meses remixando todo o material no meu estúdio caseiro, onde o resultado ficou melhor. Apenas a partir de maio voltei a estudar o repertório, que, no momento, está 98% introjectado. Ainda preciso fazer uma cola durante os shows. Mas a banda está um espetáculo, tem sonoridade própria, com uma unidade muito forte.

Por que alguns personagens de destaque dos anos 80, como Raul Seixas e Titãs, não entraram no disco?
Eu procurei músicas com as quais eu me identificava. Eu não gravei Titãs, mas gravei Inocentes, que é a matriz dos Titãs. O Raul Seixas aconteceu nos anos 70, diferentemente da Rita Lee, que surgiu nos anos 60 com os Mutantes, marcou os anos 70 com o Tutti-Frutti, e abriu os anos 80 com Roberto de Carvalho. O marco do Raul nos anos 80 foi “Plunct Plact Zum”, quando ele já estava zureta. Tinha sido massacrado, ele não é um cara dos anos 80. A grande obra do Raul, o esplendor dele, está nos anos 70.

Nos anos 80, alguns dos seus hits apresentavam solos de saxofone, mas nos trabalhos mais recentes esse instrumento não aparece. Por quê?
Eu acho o som do saxofone horroroso, parece hino de motel, detesto. Mas o meu amigo de infância Zé Luiz é um ótimo saxofonista, então eu tinha de aturá-lo desde Cena de Cinema. Era uma condescendência em prol da minha amizade e pela admiração ao Zé. Mas eu morro de vergonha.

Sua esposa, Regina Lopes, participa do novo disco na gravação de alguns vocais. Qual é o papel dela no gerenciamento da sua carreira?
Estamos juntos há 27 anos. Ela não tinha muito interesse no começo, mas eu precisava de um empresário em um momento em que não confiava em mais ninguém. Ela foi aprendendo, tomando conta das coisas e se apropriando do lugar dela, fazendo excelentemente bem.

No passado recente, você esteve envolvido em debates e militância política. 
Isso provocou prejuízos à sua agenda de shows. Como você tem lidado com essa situação?
 Isso não é um problema. Fiz música contra o Sarney, contra o Collor. Eu atraio paixões e ódio, porque sou muito eu. Essa liberdade é invejável. Mas eu fui me tornando cada vez mais versátil e hoje sou best-seller com quatro livros. 

Ouça a entrevista 

https://soundcloud.com/leonardo-meireles-166527431/lobaoentrevista-novo
 

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