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Correio Braziliense

Violeiros de raiz são a expressão de um Brasil interiorano

Música dos violeiros da cidade narra causos e casos com simplicidade e sofisticação


postado em 02/09/2018 06:30 / atualizado em 31/08/2018 16:46

Volmi Batista: 'Desvirtuaram o nome sertanejo para um tipo de música que não define a cultura sertaneja'(foto: Luiz Fernandes/Divulgação)
Volmi Batista: 'Desvirtuaram o nome sertanejo para um tipo de música que não define a cultura sertaneja' (foto: Luiz Fernandes/Divulgação)


Autenticidade é uma ideia importante para todo violeiro. Lealdade, também. Combinadas, as duas fornecem um norte do que é a música caipira de raiz, coisa que muito violeiro se apressa em explicar ser diferente do sertanejo. A viola caipira é coisa séria no Centro-Oeste. Segundo o produtor Volmi Batista, um dos fundadores do Clube da Viola de Brasília, o Distrito Federal está em terceiro lugar quando se trata de atuação de músicos caipiras — vem atrás de São Paulo e Minas Gerais.

"Brasília contempla todas as tendências que hoje são características da música caipira”, avisa. Se há nomes como Roberto Corrêa, Badia Medeiros e Zé Mulato & Cassiano, conhecidos nacionalmente e embaixadores da música caipira produzida na região, há também uma enorme quantidade de músicos menos conhecidos que tocam pra frente a história da viola contemporânea", afirma Volmi.

De acordo com os registros do Clube da Viola, fundado há 25 anos para reunir artistas e promover apresentações, o DF tem hoje cerca de 20 duplas caipiras, uma orquestra de violas e, pelo menos, 20 "violeiros solteiros", que não atuam em dupla. Essa última, aliás, é tema polêmico. Há quem não veja na dupla uma necessidade, mas há quem não enxergue a autenticidade da produção caipira de outra forma. “Dupla é pior do que casamento, porque uma distorção no casamento, uma pequena desavença, com um carinho você resolve. E o parceiro, você tem que dar as voltas nos problemas com mais sabedoria e jeito”, explica Zé Mulato, há 40 anos e 18 discos na estrada da viola caipira ao lado do irmão, Cassiano.
 
Luiz Rocha criou o programa 'Brasil caipira' há 35 anos(foto: Antonio Carlos Locateli/Divulgação)
Luiz Rocha criou o programa 'Brasil caipira' há 35 anos (foto: Antonio Carlos Locateli/Divulgação)
 

Idelbrando Calazancio, violeiro desde menino, até nem acha assim tão necessário um parceiro, embora tenha formado com o primo, Denilson Barcellus, a dupla Idelbrando & Barcellus. “Não precisa, necessariamente, ter a dupla. Existem uns tabus de que música caipira tem que ser a dois, alguns conservadores defendem isso, mas não tem”, avisa o músico e compositor.

Pé no sertão


Definir a música caipira de raiz é algo que os violeiros levam muito a sério. “Desvirtuaram o nome sertanejo para um tipo de música que não define a cultura sertaneja. O que hoje está massificado como sertanejo é, na verdade, um resgate da música romântica dos anos 1960 e de maneira nenhuma representa o sertanejo. Deveria ser um crime essa comparação, sertanejo é quem tem um pé no sertão”, lamenta Volmi.

Luiz Rocha, matemático que, há 35 anos, criou o programa Brasil caipira, é categórico: “Não deixo sertanejo aqui não, só música caipira de raiz, com viola e voz. Tenho nojo dessas músicas que falam em bebida, caminhonete e motel. A música caipira é história cantada, tem começo, meio e fim”. Ao longo das três últimas décadas, o Brasil caipira já passou por várias emissoras. Está, atualmente e de maneira provisória, na CNT e deve estrear, ainda este mês, na TV Brasil.

Segundo Rocha, já passaram por lá mais de 12 mil duplas de todo o país. Ele gosta de explicar que o gênero não tem “religião e não faz distinção, é uma história voltada para a família”. Compositor, Rocha tem mais de 40 músicas gravadas por duplas de todo o país, mas nunca as deixa cantar essas composições no programa para não parecer que quer tirar vantagem.

Badia Medeiros(foto: Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press - 10/12/11)
Badia Medeiros (foto: Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press - 10/12/11)
 
 
Idelbrando Calazancio já foi empresário e dono de fábrica de laje, mas hoje só toca mesmo a viola. Começou tocando violão, aos 11 anos, e, graças à participação nas folias, acabou por descobrir a viola. É uma história comum no meio: boa parte dos violeiros passou a infância perambulando pelas folias de reis, festas do divino e celebrações de catira, ambientes nos quais o instrumento costuma ser um dos protagonistas.

Presidente do Clube da Viola desde o ano passado, Idelbrando acredita que o dinheiro ofusca o vasto mundo da viola caipira. “Nós, violeiros, temos poder aquisitivo mais limitado que esses meninos do sertanejo universitário”, diz. “E outra coisa que estragou bastante foi o Mazzaropi, que colocou o caipira como um bobão, o Jeca Tatu tirou dos violeiros o brilho que tinham”, garante. Mesmo assim, é um mundo que persiste e resiste.

Mariano, da dupla Macedo & Mariano, é mais flexível quando se trata da discussão em torno da autenticidade. Se muitos músicos defendem que, para ser caipira, só pode entrar voz e viola, ele lembra que há outras raízes e possibilidades. Formado em cinema, o violeiro escreveu dois roteiros de documentários sobre a história do gênero. Os filmes nunca foram produzidos, mas Mariano tirou algumas conclusões das pesquisas realizadas para produzir o material. “É um pouco complicado rotular o que é e o que não é música caipira”, diz. “Muitos violeiros dizem que é só a música tocada com viola mas, nas minhas pesquisas, vi que não, que tem sanfona, rabeca, violão, cavaquinho.”

Mariano conheceu Macedo em rodas de viola e cantoria. Os dois formaram a dupla há 13 anos e, desde então, gravaram o disco Conversando com a viola. Este mês, eles iniciam um projeto de seis shows em estações de metrô do DF. Nascido no Plano Piloto, há 37 anos, Mariano não cresceu no meio rural nem entre as festas de folia e do divino, embora sempre tenha passado férias na roça, na casa da tia, em Niquelândia. Ele faz parte de uma leva de violeiros de vivência mais urbana, como o próprio Roberto Corrêa, Renato Teixeira e Almir Sater. “É um estilo que chamamos de regional, que fala do sertão e com uma pegada mais urbana, são caipiras com conhecimento mais amplo de música”, explica Volmi Batista.

Intimidade violeira

 
Nascido e criado no mundo caipira, Badia Medeiros, 78 anos, é um dos nomes mais importantes da viola no Centro-Oeste. Original de Unaí (MG), hoje morador de Formosa, começou a tocar o instrumento aos 8 anos. "Meu pai dava ponto na folia", conta. "E ele tinha uma viola que não tocava. Fiquei interessado, perguntava sobre aquela violinha lá pendurada." Surpreso com o interesse do menino, o pai mandou um compadre afinar o instrumento e o entregou a Badia. A intimidade surgiu rapidamente.

Um dia, um conhecido passou pela casa e decidiu levar o menino para tocar nas folias. Badia subia num banquinho, viola em mãos, e acompanhava a festa. Ia na garupa do cavalo do amigo do pai. Aos poucos, à viola ele acrescentou o violão, a sanfona e o acordeão. Mas profissionalizar mesmo, com carteirinha da Ordem dos Músicos, só em 1995, depois de um show ao lado de Roberto Corrêa em São Paulo. "Aquilo deu certo", lembra. "Depois, já viajei o Brasil inteiro."

Hoje, são quatro discos gravados e alguns prêmios notáveis, como o Renato Russo, em 1998, e uma seleção para o programa Rumos Itaú Cultural 2000, que resultou no disco Cartografia Musical Brasileira da Região Centro-Oeste. Também participou do CD Sertão ponteado, fruto de pesquisa de Roberto Corrêa e Juliana Saenger e premiado com o Rodrigo Melo de Franco, em 1999. Com Corrêa, aliás, foram muitas parcerias e participações em shows. A mais recente foi na semana passada, quando Badia subiu ao palco da Caixa para acompanhar o amigo no show O violeiro
 

Três perguntas/Zé Mulato

 
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)

Como você define a música caipira de raiz?

A gente prefere que seja chamada de caipira justamente pra não se misturar, porque é uma música que a gente respeita, gosta e, modéstia à parte, faz com uma certa desenvoltura. Então, o nome que colocaram nessa outra coisa que chamam de sertanejo não tem explicação nem na gramática, porque nada é sertanejo sem derivar de sertão. Até no português está errado isso aí. Se você perguntar pra eles se uma vaca dá leite pra trás ou pra frente eles nem sabem. O nome sertanejo é muito pesado pra eles. E a música realmente sertaneja, que a gente chama de caipira pra não ter mistura, é uma música que preza a história, a moral e, principalmente, a poesia. Nossas melodias são, normalmente, o mais original possível, porque temos muito a ver com os passarinhos, cantamos mais por paixão do que por visão monetária.

Houve, de uns anos para cá, um renascimento da música caipira? Por quê?

O que é realmente raiz, alicerce, base, não cai. Pode cair a parede, a aderência pode cair, mas o que é alicerce firme não cai. Então, mesmo o povo que tentou se chamar de moderno tá sendo obrigado a recorrer à música de raiz pra fazer alguma coisa que seja chamada de qualidade. Temos muto jovem bom de instrumento, estamos em falta é de criadores. Compositores que façam algo inovador na música caipira. Isso tá um pouco em falta.

Música caipira de raiz tem espaço no DF?

A primeira música que chegou aqui foi justamente a caipira. Assentou sua base, seu alicerce aqui. E tudo que veio depois foi uma tentativa de parecer com o que disseram que era bom. Apesar de o espaço ser bem menor, porque o descartável é muito mais fácil de apresentar, assim como também soma mais forte, a música caipira aqui é muito firme. Essa música tem sido base pra muita coisa e nós levamos o nome de Brasília e do DF pra todo canto que a gente vai.
  

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