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Correio Braziliense

Wilson Moreira deixa legado para cultura negra, samba e Brasil em geral

Carioca, que morreu na quinta-feira, era um dos maiores compositores da música brasileira


postado em 08/09/2018 07:00

A genialidade na composição marcou a trajetória de Wilson Moreira (foto: Vivian Ribeiro/Divulgação)
A genialidade na composição marcou a trajetória de Wilson Moreira (foto: Vivian Ribeiro/Divulgação)

“Ele está no panteão dos grandes compositores e melodistas do Brasil e do mundo”. Assim João Cavalcanti, que esteve 16 anos à frente da banda Casuarina, define o cantor e compositor carioca Wilson Moreira, que morreu na noite da última quinta-feira em decorrência de um câncer no rim. Moreira deu entrada no Instituto Nacional do Câncer, em Vila Isabel, no Rio de Janeiro, naquele dia para tratar de problemas renais e não resistiu. Ele travava uma batalha contra a doença há 10 anos, quando foi diagnosticado com um câncer na próstata que acabou por se alastrar.

Nascido no bairro de Realengo, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, Wilson Moreira teve contato com a música a vida inteira. Foi um caminho natural para o menino nascido em família de jongueiros e tocadores de caxambu. Em 1955, ele esteve na fundação da ala dos compositores da escola de samba Mocidade Independente de Padre Miguel e fez seu primeiro samba-enredo para a agremiação: a faixa Bahia, uma parceria com Ivan Pereira. Anos mais tarde, passou pela ala de compositores da Portela, onde também fez história e conheceu parte dos parceiros musicais.

Wilson Moreira era um dos grandes compositores da música brasileira. Só com o parceiro Nei Lopes escreveu mais de 400 canções, entre elas Goiabada cascão, Coisa da antiga e Senhora liberdade. Durante sua trajetória, viu suas músicas serem entoadas por nomes importantes do samba, como Candeia, Alcione, Beth Carvalho, Martinho da Vila, Dona Ivone Lara, Dudu Nobre, Clara Nunes e Zeca Pagodinho, e também nas vozes de artistas de outros gêneros musicais, como Zélia Duncan, Sandra de Sá, Djavan e Elza Soares.



“Infelizmente, Wilson Moreira, como muitos outros, não tem e não teve em vida o reconhecimento que merecia. Acho que quando se fala do Wilson Moreira, não se fala só de um grande sambista, mas de um dos maiores compositores do Brasil. Ele fazia canções basicamente por intuição e com um conhecimento mapeado na música e na sensibilidade humana”, revela João Cavalcanti, que diz ter tido Moreira como uma das maiores referências e nortes na carreira musical. “Ele vai fazer muita falta, pela pessoa que era, por ter superado tanta coisa. Ele era um exemplo de superação, um cara muito doce, muito pleno. Não conheço ninguém no samba que não goste dele”, completa.

História na música

O cantor brasiliense Khalil Santarém, da banda Filhos de Dona Maria, que se apresentou e gravou com Wilson Moreira, defende que o compositor deixa uma herança para a cultura popular brasileira. “Acredito que a música também é uma forma muito importante de registro da nossa história. Wilson Moreira passou por várias épocas do samba e, apesar de não ter estado presente com seu nome nas manchetes, compôs para muita gente e esteve muito ativo desde a década de 1960”, afirma. E ainda completa: “Ele contou uma história muito bacana, tanto da cultura negra, que certamente era sua maior influência, quanto do samba e das manifestações brasileiras. Acho que ele sempre falou tanto do Brasil urbano como do rural, além das religiões de matrizes africanas, que estavam muito presentes em suas músicas”, completa.

Um dos álbuns mais clássicos do compositor, A arte negra de Wilson Moreira e Nei Lopes (1980), mostra exatamente essa influência africana. O disco ficou marcado, como o próprio título diz, por exaltar a arte do povo negro e por ter canções que se tornaram clássicas no repertório dos dois compositores, como Gotas de veneno, Senhora liberdade, Samba do Irajá, Candongueiro e Gostoso veneno.

Relação com Brasília

Apesar da saúde debilitada há alguns anos e de, por conta disso, preferir se apresentar apenas no Rio de Janeiro,  chegou a estar em Brasília em 18 de maio de 2015, em, talvez, uma das segundas-feiras mais lotadas do Espaço Cultural Clube do Choro, no Eixo Monumental. Ao lado da banda brasiliense Filhos de Dona Maria, interpretou algumas de suas composições clássicas e dividiu histórias de uma trajetória de 60 anos na música.

Wilson Moreira em apresentação em 2015 no Clube do Choro, em Brasília(foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)
Wilson Moreira em apresentação em 2015 no Clube do Choro, em Brasília (foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)


“Foi um momento incrível e especial. Além de cantar bastante coisa do repertório dele, foi um momento em que se sentiu à vontade para contar histórias, falar do processo de composição das músicas. Sem dúvidas, foi uma noite especial para quem trabalhou ou assistiu”, lembra com carinho o cantor Khalil Santarém. Ele teve a honra da dividir os vocais com Moreira no disco Todos os prazeres, lançado pela banda em 2016, na faixa Tia baiana, escrita pelo compositor especialmente para os candangos.



Antes, Wilson Moreira já havia feito história em Brasília com duas apresentações no bar Feitiço Mineiro, no projeto Gente do samba.  Ele também esteve ao lado de Nelson Sargento, Noca da Portela e Carlos Elis, em 2011, para reivindicar a criação de uma lei de aposentadoria dos compositores na Câmara dos Deputados.

Repercussão

“Wilson Moreira, o mundo agradece por ter tido a honra de ser testemunha de sua criatividade. Descanse 
em paz professor”
Emicida, cantor

“Grande mestre do samba, nos deixou, aos 81 anos. Mas nos deixou também a beleza de sua música e sua poesia: Viva, Wilson Moreira!!”
Chico Pinheiro, jornalista

“Quando parte um artista como Wilson Moreira, todos nós perdemos. Que continuemos a lembrar do grande melodista, da pessoa mais doce e generosa que já passou por aqui. Muita luz no seu caminho, Mestre”
Teresa Cristina, cantora

Diretas 
Em 1983, Brasil vivia sob a égide da ditadura militar quando milhares de brasileiros se concentravam em ruas e praças de grandes cidades do pais, reunidas pelo movimento Diretas Já!. Uma das músicas que eram ouvidas, embalando a manifestação era Senhora liberdade, de Wilson Moreira e Nei Lopes, na voz de Zezé Motta. Trecho da letra diz: "Abre as asas sobre mim/ Oh senhora liberdade/ Eu fui condenado/ Sem merecimento/ Por uma paixão/ Violenta emoção/ Pois amar foi meu delito / Mas fi um sonho bonito..."

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