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Correio Braziliense

Mestre do contrabaixo, Jorge Helder, concede entrevista ao Correio

O músico cearense, que iniciou a carreira em Brasília, é parceiro de Chico Buarque no bolero 'Casualmente'


postado em 08/09/2018 06:45

(foto: Marisa Porto/divulgação)
(foto: Marisa Porto/divulgação)


Em meio a apresentação do show Caravanas, no final da semana passada, no auditório master do Centro de Convenções Ulysses Guimarães, antes de interpretar Casualmente, Chico Buarque chama a atenção para Jorge Helder. Tinha uma razão para isso: além de baixista da banda, o músico cearense, que iniciou a carreira em Brasília, é parceiro dele nesse bolero. Um dos instrumentistas mais requisitados da MPB, Jorge trabalha com Chico desde 1993, tendo participado — desde então —, da gravação de discos e de shows do cantor e compositor carioca, pelo Brasil e exterior.

A parceria teve início em 2006, quando fizeram juntos Bolero blues, registrada no CD Carioca. Em 2011, os dois compuseram Rubato, marcha-rancho incluída no repertório do álbum Chico. Jorge adianta que Casualmente, a terceira parceria deles será, também, uma das faixas do seu primeiro disco solo, que pretende lançar em janeiro do próximo ano.

Embora tenha morado na cidade por apenas cinco anos, entre 1981 e 1986, o baixista participou ativamente da vida artística da cidade naquele período: estudou na Escola de Música, formou no grupo Artimanha, participou, várias vezes, do Concerto Cabeças, e acompanhou as cantoras Cássia Eller, Zélia Duncan e Rosa Passos. Desde então, tem estado ao lado de Rosa em estúdios e nos palcos; e, recentemente, inaugurou com ela uma parceria ao comporem Inocente blues.


Entrevista com Jorge Helder

Mais de três décadas depois de deixar Brasília, onde, vindo de Fortaleza, morou durante cinco anos, que lembranças guarda da cidade?

Minhas melhores lembranças de Brasília estão ligadas à música. Estudei na Escola de Música, onde tive como mestre Tony Botelho, e fiz grandes amigos, entre os quais Paulo André Tavares, Beth e Jaime Ernest Dias e Lula Galvão e Elenice Maranesi. Participei do Madrigal e integrei a Brasília Popular Orquestra.

No período de 1981 a 1986, como foi sua atuação na cena musical brasiliense? 
Embora à época, estivesse em gestação o que viria a ser conhecido como Rock Brasília, sempre fui ligado à música popular brasileira e ao jazz. Toquei no Concerto Cabeças em muitos lugares, entre os quais, Sala Funarte e Amigos. Na noite, conheci Renato Vasconcelos, Renato Matos, Alfredo Paixão. Acompanhei Cássia Eller, Zélia Cristina (Duncan) e Rosa Passos; e, com Toninho Maia, Rênio Quintas, Vidor Santiago e Ademar Boca, formei o grupo instrumental Artimanha.

Com Rosa Passos, a relação musical mantém-se até hoje. Como avalia esse encontro?
Comecei acompanhar a Rosa quando ela cumpriu temporada no Amigos, na 105 Norte. Foi ela quem me apresentou à música de Tom Jobim, João Gilberto, Ella Fitizgerald e Sarah Voughan, artistas por quem tinha admiração. Eu 1991, já morando no Rio de Janeiro, participei da gravação de Curare, o primeiro CD dela.

Quando chegou ao Rio, em 1986, começou a trabalhar de imediato?
Já tinha alguns contatos e, ao chegar no Rio, passei a trabalhar com a Sandra de Sá e a acompanhar Zélia Duncan e Emílio Santiago. Mas fazia também shows instrumentais com músicos como Luiz Eça e Hélio Delmiro. Certa vez, em 1990, estava tocando no Rio Jazzz Club, que existia no antigo Hotel Meridien, no Leme, quando fui procurado pelo Jaime Álem, que me convidou para fazer parte da banda de Maria Bethânia.

Lembra do primeiro projeto de Bethânia do qual tomou parte?
Minha estreia, trabalhando com Bethânia, foi no show comemorativo dos 25 anos de carreira dela, no Canecão, que excursionou pelo Brasil — com passagem por Brasília e apresentado na Sala Villa-Lobos — e pela Europa. Desde então, tenho participado de quase todos os discos dessa grande cantora. Shows com ela, fiz menos. Nos palcos, quando não a acompanhei, é porque estava envolvido com trabalhos de outros artistas.

Você também acompanhou Caetano Veloso. Recorda-se qual foi o momento?
No intervalos dos projetos com Chico e Bethânia costumo tocar com outros artistas. Com Caetano, participei de projetos como Fina estampa (1995), Livro/ Prenda minha (1997) e A foreign sound (2004). Com o show Prenda minha estive com ele na turnê pela Europa, Estados Unidos e Japão.

Ney Matogrosso foi outro cantor que contou com o seu contrabaixo. Em qual o show?
Acompanhei Ney entre 2000 e 2001, no show em que ele interpretava músicas do Cartola, que gerou CD e DVD gravados ao vivo. É um show inesquecível!

Chico Buarque, porém, é a sua prioridade?
Desde o Paratodos, tenho estado com Chico em todos os discos e shows: As cidades (1998), Carioca (2005) e, agora, Caravanas (2017). Esses discos foram levados para o palco e Chico fez longas turnês, inclusive no exterior; sempre comigo na banda.

E a parceria com ele, como surgiu?
Vejo isso como um processo natural, por nossa convivência. A primeira música que compomos foi Bolero blues, gravado por ele no Carioca. Depois, a marcha-rancho em 3x4 Rubato, que entrou no repertório do Chico. Casualmente, nossa terceira canção, eu havia composto para o meu disco, mas Chico decidiu incluir esse bolero no Caravanas. Obviamente, fiquei grato e orgulhoso pelo gesto dele.

O que representa para você ter essa relação profissional e de amizade com um dos maiores nomes da cultura popular brasileira?
Tenho incontáveis motivos para celebrar esse encontro com Chico. Pode parecer surpreendente, mas só nos encontramos com frequência quando participo dos projetos dele, nas gravações dos discos e nos shows. Ele é muito tranquilo, bem-humorado e ri bastante das brincadeiras que faço nos bastidores. A parceria com o Chico é um presente que ganhei na vida. Isso não tem preço.

Em que fase está a gravação de seu primeiro disco?
Esse meu disco virou uma novela, pois estou gravando há oito anos. Demorei por alguns motivos, mas, principalmente, financeiro. Está na fase final e tem a participação de grandes músicos. Eles queriam participar de forma gratuita, mas fiz questão de pagar o cachê de cada um. Serão 10 faixas e posso adiantar três que estão no repertório: Casualmente, Inocente blues, interpretada por Rosa Passos; e Dorivá, que fiz em homenagem a Dorival Caymmi, na voz de Dori Caymmi.

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