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Correio Braziliense

Livro de Adalberto Vilela analisa casas feitas por Lelé Filgueiras

Em todas as residências, Lelé explora a luminosidade, a ventilação e os aspectos ecológicos


postado em 09/09/2018 06:33

Página do livro A casa na obra de João Filgueiras Lima, Lelé, de Adalberto Vilela(foto: Editora UnB/Reprodução)
Página do livro A casa na obra de João Filgueiras Lima, Lelé, de Adalberto Vilela (foto: Editora UnB/Reprodução)
Nos últimos dias de vida, Oscar Niemeyer dizia que Lelé Filgueiras era o maior arquiteto brasileiro. Ele conseguiu aliar tecnologia, estética, invenção e funcionalidade. A arquitetura que desenvolveu na rede de hospitais Sarah é uma referência internacional. Lelé faz parte de uma geração que colocava o conhecimento e o talento a serviço dos projetos de interesse público. Mas ele tinha uma singularidade: fazia alguns projetos de casas, a maioria para presentear aos amigos. No entanto, ele utilizava as residências como campo de experimentação.

É essa vertente da produção do arquiteto que é analisada por Adalberto Vilela no livro A casa na obra de João Filgueiras Lima, Lelé. O livro teve origem em pesquisa desenvolvida pelos professores da UnB Geraldo Nogueira e Sylvia Ficher, entre setembro e agosto de 2001, sobre a arquitetura residencial de Brasília. Adalberto canalizou o interesse em um projeto de mestrado, que se transformou em livro.

Ao abordar a produção residencial do Lelé, ainda pouco explorada — apesar do trabalho pioneiro da professora Cláudia Estrela — e de menor visibilidade, Adalberto procurou mostrar que esses projetos na verdade são a expressão da própria trajetória do arquiteto. “Apesar de parecerem um capítulo à parte no conjunto da obra do Lelé, essas casas refletem em boa parte as pesquisas conduzidas pelo arquiteto no campo do espaço construído, da geometria da edificação e de seus componentes, dos materiais e das técnicas construtivas”, comenta Adalberto.

A casa do doutor Aloísio Campos da Paz é construída sobre a pedra, a de José da Silva Netto sobre o tijolo e a de Roberto Pinho sobre o aço. Em todas as residências, Lelé explora a luminosidade, a ventilação e os aspectos ecológicos. Nesta entrevista, Adalberto fala sobre as lições de arquitetura de Lelé.

Entrevista com Adalberto Vilela

As casas que Lelé desenhou foram presentes a amigos. Lelé dizia que elas precisavam expressar a personalidade dos moradores. Como isso se manifesta nos projetos das casas?
Em sua maioria eu diria que sim, Lelé projetou a maioria das casas para pessoas próximas. Não significa que ele não tenha feito projetos encomendados por clientes fora do seu círculo de amizades, como a casa José da Silva Netto (1973-76), em Brasília. Com o passar do tempo,  eles se tornaram amigos, mas no começo foi uma proposta feita por um grande empresário a um arquiteto que despontava no mercado de Brasília naquela época. Sobre essa questão de imprimir na casa a personalidade do morador, eu acho que há um certo romantismo. É claro que há certas particularidades que remetem ao estilo de vida de cada um deles, como na casa do Mario Kertész (1977), em Salvador, que possuía no andar de baixo uma sala reservada para as reuniões políticas; ou na forma como a residência Roberto Pinho (2007-08), em Brasília, foi organizada para atender aos anseios do morador e de sua família, privilegiando a vista magnífica do cerrado.

Para além do romantismo, o que é importante nestas experiências?
Em todo caso, não podemos ignorar o fato de que Lelé, para além das preocupações em atender de maneira eficiente ao programa de necessidades dessas casas, também fazia desses projetos uma oportunidade para testar novas tecnologias, com resultados construtivos e estéticos bastante distintos.

Lelé fez uma casa de pedra, de tijolo e de aço. Como ele explorava os materiais?
Como eu disse antes, essa diversidade construtiva e de materiais observada nos projetos residenciais do Lelé é reflexo da disponibilidade e do momento profissional em que se encontrava o arquiteto. Lelé, antes de se envolver com a industrialização da argamassa armada e posteriormente do aço, projetou e executou edificações empregando outros materiais, como a pedra, o tijolo cerâmico e o concreto, pré-moldado ou moldado em loco. O caso da primeira residência construída para o médico-cirurgião Aloysio Campos da Paz (Brasília, 1969) é bem representativo. Situada às margens do Lago Paranoá, a casa foi erguida a poucos metros da lâmina d’água usando as pedras encontradas no local. O próprio Lelé se encarregou de orientar “a montagem” da casa, que acabou incorporando uma rocha no meio da sala de estar, tal qual fez Oscar Niemeyer na famosa Casa das Canoas (1952), no Rio de Janeiro.

Qual a singularidade e a originalidade das casas de Lelé em relação à arquitetura predominante nos lagos Sul e Norte?
Lelé fez parte de uma geração de arquitetos construtores cujas carreiras foram definitivamente marcadas pela experiência de Brasília. O impacto dessa “escola ao ar livre” na formação de nomes como Milton Ramos, Nauro Esteves, Lelé, dentre outros, levou a uma prática que, embora estivesse orientada para seguir os preceitos canônicos do modernismo, não se eximia da orientação singular no plano da construção do objeto arquitetônico. Nesse sentido, eu diria que as casas projetadas por esse grupo de profissionais se destaca por suas qualidades estéticas, tectônicas, e no uso consciente dos materiais.

Como Lelé explorou a luminosidade, a ventilação e a relação com a natureza nas casas que construiu?
A preocupação de Lelé com os condicionantes ambientais (sobretudo iluminação natural, ventilação e controle da temperatura) aparece desde cedo nos primeiros projetos do arquiteto. Na residência César Prates (1961), por exemplo, erguida no Lago Sul em Brasília, Lelé criou um muro de alvenaria de pedra que delimita toda a fachada sul da edificação. Esse muro possuía um sistema de gotejamento permanente em sua face voltada para a sala de estar, de onde a água escorria pelas pedras como se dali brotasse naturalmente, auxiliando na manutenção da umidade do ar no interior da residência, especialmente nos meses de seca em Brasília.

Essa preocupação foi incorporada aos projetos de hospitais?
A partir do envolvimento de Lelé com projetos hospitalares, que se inicia com o Hospital Regional de Taguatinga (1968), a integração com a natureza e a incorporação do verde nas áreas internas passa a tomar uma outra proporção. Lelé faz dessa prática uma verdadeira premissa arquitetônica. Essas soluções bioclimáticas empregadas em sua arquitetura, seja nos edifícios privados, seja nos públicos, foram se modificando ao longo das décadas, chegando a um alto grau de desenvolvimento com a Rede Sarah de hospitais de reabilitação.

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