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Correio Braziliense

Com inovações no formato, Festival de Brasília começa na sexta-feira

Novidades no formato e contorno de problemas estruturais, o 51º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro aporta no Cine Brasília, seguindo as pistas de um país em crise e sob transformações


postado em 10/09/2018 09:38 / atualizado em 10/09/2018 11:20

Bloqueio é um dos filmes concorrentes, ao tratar da crise estrutural dos transportes pelas rodovias do país(foto: Thaís Vidal/CB/D.A Press)
Bloqueio é um dos filmes concorrentes, ao tratar da crise estrutural dos transportes pelas rodovias do país (foto: Thaís Vidal/CB/D.A Press)


Pode muito bem soar como um aperitivo a participação dos filmes Sol alegria e Os sonâmbulos no 51º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, que começará na próxima sexta-feira, com abertura reservada a convidados, e que se estenderá até 23 de setembro, no Cine Brasília. Ambos estão em mostras paralelas, mas chegam encharcados pelos ingredientes centrais do banquete cinematográfico regularmente servido pelos diretores que, com seus filmes, tinindo de novos, competem pelos troféus Candango. Integrado ao segmento Festival dos Festivais (que dará a chance aos brasilienses acompanharem parte da safra de cinema valorizada em eventos de 2018), Sol alegria destaca o veio político da mostra, ao fabular sobre freiras militantes e ativistas armados coexistentes num país com junta militar instaurada no poder. Os sonâmbulos (da mostra Caleidoscópio) revela os resquícios de existências críticas num eterno estado de exceção.

"A Caleidoscópio está justamente entre as novidades. Com ela, criamos um espaço de competição alternativo para títulos extremamente instigantes e autorais. Além disso lutamos pela instituição dos prêmios Leila Diniz e Zózimo Bulbul. É um desafio dar conta da multiplicidade de propostas do festival, sempre em crescimento", observa o diretor artístico Eduardo Valente. Na seleção dos filmes em competição, temas do momento, entre os quais os conflitos estruturais e financeiros que resultaram na greve dos caminhoneiros, em maio passado (tema de Bloqueio); as prisões de mulheres, durante a existência da ditadura nacional (Torre das donzelas) e desdobramentos de questões sobre identidade e gênero, caso dos longas Luna e Bixa Travesty.

Eduardo Valente, diretor artístico do evento:
Eduardo Valente, diretor artístico do evento: "É um desafio dar conta da multiplicidade de propostas do festival, sempre em crescimento" (foto: Arquivo Pessoal)

Luna, do diretor mineiro Cris Azzi avança ainda, com narrativa que expõe a formação da sexualidade, na juventude, tendo como anteparo modelos e interação de relações via internet. Azzi, um dos concorrentes a troféu Candango, conta parte dos métodos empregados para dar credibilidade às situações do filme. "Uma arte educadora me ajudou a encontrar 15 jovens da mesma idade das personagens e a gente conversou abertamente sobre questões que são tocadas no filme. Quase a totalidade das meninas demonstraram problemas sérios com o universo masculino. Brotaram relatos de casos de assédio, violência, estupro e abandono. Isso tinha que atravessar o filme", comenta.

Na formatação da mostra competitiva do Festival de Brasília, diretores despontam remexendo em assuntos do passado, mas que reluzem atualidade, diante de suas consequências, como é o caso de Los silencios, de Beatriz Seigner. "Enquanto escrevia o roteiro, acompanhei de perto os tratados de paz na Colômbia relacionados a conflitos armados. A assinatura deles trouxe sensação de alívio, num marco histórico. Na sequência, surgiu a pergunta: você pode perdoar o assassino de um familiar?", observa. A comoção da realizadora esteve associada à capacidade de perdão dos colombianos. Ela argumenta que, mesmo na dificuldade extrema, "a coexistência pacífica" fundamenta o avanço da sociedade, junto com a coragem que essa demanda.

'Torre das donzelas': filme assinado por Susanna Lira revê as condições de mulheres presas durante o período da ditadura(foto: Reprodução/CB/D.A Press)
'Torre das donzelas': filme assinado por Susanna Lira revê as condições de mulheres presas durante o período da ditadura (foto: Reprodução/CB/D.A Press)

Temas quentes

Logo no primeiro fim de semana do Festival de Brasília, a mostra Onde Estamos e para Onde Vamos apresenta um painel poderoso sobre questões como impunidade relacionadas a crimes de feminicídio e viradas políticas feitas na calada da noite, além de expor mecanismos de controle do Estado sob o indivíduo e investir em crises micro, caso da falta de moradia, que se avolumam em escala macro.

"Brasília traz sempre um festival quente", opina Kiko Goifman (codiretor do documentário Bixa travesty), que completa: "Depois de rodar muitos festivais no exterior, não existe melhor lugar para estrear aqui do que na capital. Temos um festival em que o público se manifesta de forma veemente nas sessões e na premiação. Os debates são fervorosos e trazem muitas questões políticas, que nos interessam bastante. Não se trata daquela calmaria água com açúcar, muito frequente".

Kiko Goifman, codiretor de 'Bixa travesty', prevê temperatura quente para o evento(foto: Cia de Foto/Divulgação)
Kiko Goifman, codiretor de 'Bixa travesty', prevê temperatura quente para o evento (foto: Cia de Foto/Divulgação)

Injetando inovação, desponta a mostra Caleidoscópio, que terá como sede das exibições o Museu da República, e abrigará um segmento competitivo do festival integrado por cinco filmes mostrados para o público e um corpo de jurados internacionais, associados aos festivais de Cannes, Berlim, Roterdã e Cartagena. Virando páginas de dramas e alegrias bastante atuais, o Festival de Brasília não deixará ainda de honrar legados de diretores atrelados à construção da memória cinematográfica nacional. Meio século depois de apresentado no evento, o longa Lance maior (de Sylvio Back), estrelado por Regina Duarte e Reginaldo Faria, volta a ser projetado em sessão especial. Atuante desde os primórdios do cinema nacional, e por mais de 50 anos, Humberto Mauro, em filme homônimo, ganha a homenagem em documentário feito pelo seu sobrinho-neto André di Mauro.
 
 

Três perguntas // Sara Rocha, diretora executiva do evento 

Diretora do evento, Sara Rocha, responde perguntas sobre o festival(foto: Rodrigo Viana/Secult)
Diretora do evento, Sara Rocha, responde perguntas sobre o festival (foto: Rodrigo Viana/Secult)
 

 
Como contornarão a crise, com as obras do metrô em frente ao Cine Brasília (EQS 106/107), que abriga o evento?
Além de uma campanha de mobilidade — para que as pessoas abram mão dos carros e busquem alternativas —, teremos 500 vagas de estacionamento, na 906 Sul, com seguranças no local e um transporte até o Cine Brasília, a cada meia hora, entre as 18h e as 2h. O estacionamento acomoda três vezes mais veículos do que o Cine Brasília. Num aplicativo de transporte alternativo, teremos a opção de os usuários obterem R$ 15 de desconto em corridas associadas à participação no Festival de Brasília. O mecanismo poderá ser usado duas vezes a cada dia do evento. Além disso, vamos estimular a carona solidária e o uso de bike, com as pessoas concorrendo a kits promocionais. Não teremos carros parados, em frente ao cinema.

O festival caminha para uma evolução? Quais seriam as apostas da organização?
Numa das frentes, estamos fortalecendo associações para solidificar o ambiente de mercado. Ampliamos a ponte de internacionalização. Teremos representantes de mais de 30 empresas de ponta. Haverá oficinas, clínicas e master classes. Um minicurso de fotografia com Affonso Beato (que trabalhou com Glauber Rocha e Pedro Almodóvar) também está confirmado. Aaron Mendelsohn, professor de Los Angeles, trará dicas de roteiro. Pitchings abertos, com participação de público e de potenciais compradores de projetos audiovisuais, também acontecerão. Integrantes de comissões de festivais como os de Cannes, Roterdã, Berlim e Cartagena tomarão parte de atividades, como a exibição de filmes às vias de finalização e da mostra Caleidoscópio voltada a fitas de inovação autoral.

Que conteúdo está nos filmes do evento?
O festival traz uma grande amostragem da produção brasileira, de forma geral. Temos visto a multiplicação de obras com conteúdo politizado e que estão presentes na grande peneira representada pelo Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Além da competitiva, isso transparece nas seleções paralelas chamadas de Arte da vida e Onde Estamos e para onde Vamos, que misturam biografias de artistas e ressaltam momentos conturbados do país.

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