Publicidade

Correio Braziliense

Ícone do rock, Nico, tem sua vida retratada em cinebiografia

Diretora italiana Susanna Nicchiarelli narra os anos de Nico pós-Velvet Underground e mergulha em uma trajetória sofrida


postado em 10/09/2018 09:37

Cena do filme 'Nico': ela se tornou um mito do rock nos anos 1960(foto: Supo Mungam Films/Divulgação)
Cena do filme 'Nico': ela se tornou um mito do rock nos anos 1960 (foto: Supo Mungam Films/Divulgação)


Nico se tornou um mito do rock dos anos 1960, quando subiu ao palco para cantar com o Velvet Underground. No entanto, foram poucas as vezes em que isso aconteceu. No famoso disco da banana, cuja capa é criação de Andy Warhol, ela participa em quatro faixas. Em três — Femme fatale, I’ll be your mirror e All tomorrow’s parties — faz a voz principal e, em Sunday morning, o vocal de apoio. E foi tudo que Nico gravou com o Velvet. Por isso, fez bastante sentido, anos mais tarde, quando ela declarou que sua carreira começava após o encontro com o grupo de Lou Reed e John Cale. É nesse período da vida da alemã Christa Päffgen que o filme Nico, 1988 se concentra.

Exibida no último Festival do Rio e agora em circuito nacional, a cinebiografia da italiana Susanna Nicchiarelli não quer mostrar o ícone (Nico vem de um anagrama da palavra "icon") que fascinou Warhol, Reed e toda uma geração, e sim uma artista dona da própria linguagem e pouco preocupada com o que a indústria quer fazer dela. É emblemática a resposta da personagem a um jornalista, durante uma entrevista, momento importante do longa: "odeio a palavra 'comercial'. Não me preocupo muito com o público. Não quero que todos gostem de mim."

 

Nico é uma artista dona da própria linguagem e pouco preocupada com a indústria(foto: Supo Mungam Films/Divulgação)
Nico é uma artista dona da própria linguagem e pouco preocupada com a indústria (foto: Supo Mungam Films/Divulgação)

Nico não gostava nem de ser chamada pelo apelido. Preferia Christa, seu nome de batismo, e considerava os discos solos, pós-Velvet, o início real de sua carreira. Ao jornalista que a interroga no filme, ela explica que havia cantado apenas três músicas com a banda e que seu trabalho consistia em tocar tamborim no fundo do palco. É a dinamarquesa Trine Dyrholm quem interpreta a cantora e o faz de maneira notável. Nem ela nem Nicchiarelli estavam preocupadas com qualquer semelhança física, o que acaba por dar mais consistência às imagens e à interpretação.

O que importa, no papel, é transmitir a força e a tormenta dessa mulher, que passou boa parte da vida lidando com o vício em heroína, a alienação parental que fez com que os avós obtivessem a guarda de seu filho com Alain Delon (que nunca reconheceu o menino) e uma carreira solo marcada por shows fracassados em inferninhos dos anos 1980 que incluíam turnês clandestinas em países socialistas do leste europeu. "Foram os melhores anos da Nico, anos nos quais ela estava mais no controle de sua própria vida e ciente do valor de sua arte", explica Nicchiarelli, em entrevista ao Diversão & Arte.

A artista morreu em 1988, na Espanha, onde passava as férias(foto: Supo Mungam Films/Divulgação)
A artista morreu em 1988, na Espanha, onde passava as férias (foto: Supo Mungam Films/Divulgação)

Também é Trina quem canta, acompanhada de uma banda de rock progressivo. A opção de evitar as gravações originais ajudou a atriz dinamarquesa a construir a interpretação. A voz grave, ela tem, e a atitude passa longe de uma simples imitação. A diretora, também autora do roteiro, evita o quanto pode o Velvet Underground e as menções aos namorados famosos da artista. Há uma cena em que ela canta All tomorrow’s parties durante ensaio para show em Paris, mas há tanta raiva contida em Trina que percebe-se não ser um momento, digamos, agradável. Na mesma sequência, durante uma entrevista, ela admite as tentativas de suicídio do filho e o não reconhecimento da paternidade, mas o nome de Delon nunca é citado. O único a realmente ser mencionado como alguém importante e relevante para a artista é Jim Morrison, que a incentivou a escrever os próprios sonhos e investir na carreira solo. "A vida dela foi algo muito complexo, foi relativamente longa se comparada com a de muitos músicos de sua geração, que morreram antes dos 30, e interessante também, porque ela é desconhecida da maioria do público", diz Nicchiarelli.

Nico morreu em 1988, em Ibiza, onde passava férias com o filho, Christian Aaron, conhecido como Ari. Na época, havia deixado a heroína e se tratava com metadona. Saiu para andar de bicicleta, teve uma parada cardíaca ou uma insolação por conta do calor e das roupas que usava para cobrir o corpo machucado pelas drogas, bateu a cabeça e morreu.

 

 

Três perguntas // Susanna Nicchiarelli

 

O que emocionou você na personagem?
A ironia com a qual ela falava sobre seu passado, afastando o mito, fazendo piada. Fiquei emocionada também com seu relacionamento com o filho, o amor profundo que os unia, apesar de todas as dificuldades.

Como você lida com a música no filme? Por que não usar as gravações originais?

Porque as sequências musicais são cenas do filme nas quais a atriz tem que atuar, por isso eu também precisava de uma atriz que pudesse cantar e representar as mudanças emocionais e o envolvimento das performances de Nico. Eu também não gostava da ideia de a atriz mover sua boca e a voz de Nico sair. Seria muito fake, muito amarrado ao passado. Eu queria contar a história da minha própria Nico, reinventá-la e, para isso, eu tinha que reinventar a sua música também.

O que você queria de Trina Dyrholm especificamente?
Eu queria alguém que tivesse a força de Nico, sua presença, sua ironia. Eu não queria uma atriz que parecesse fisicamente com a Nico, não estava preocupada com semelhança.

 

 

 

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade