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Correio Braziliense

Filme coloca em xeque posturas do historiador de cinema Bernardet

Documentário A destruição de Bernardet, sobre um dos mais importantes nomes do cinema brasileiro, destaca a figura de um intelectual diante de sua própria trajetória


postado em 11/09/2018 06:52 / atualizado em 11/09/2018 06:40

Jean-Claude Bernardet: múltiplo, nos bastidores do cinema(foto: Espaco Filmes/ Divulgação)
Jean-Claude Bernardet: múltiplo, nos bastidores do cinema (foto: Espaco Filmes/ Divulgação)

 
Não é de hoje que o crítico e analista da história do cinema brasileiro Jean-Claude Bernardet enfrenta condições físicas limitadoras — além de soropositivo, vem perdendo a visão — sempre com espírito aguerrido e superação instigante. Aos 82 anos, o belga radicado desde a juventude no Brasil duela publicamente com uma resistência criativa, que gerou a participação em sucessivos filmes de arte nacionais. É essa personalidade, um dos grandes nomes do cinema nacional, que encabeça o documentário A destruição de Bernardet, atualmente em cartaz na cidade. O filme propõe a implosão de série de preceitos que no imaginário de muitos acompanhariam um intelectual.

Tratando abertamente de velhice, Bernardet não faz ressalvas quanto ao misterioso (e futuro) encontro com a morte. “Não tenho medo da finitude. Temos que ser realistas, em primeiro lugar, e ver que a realidade é assim. E, em segundo lugar, nunca me deixo ser considerado vítima”, enfatiza. Essa franqueza dá espaço para o debate e para que uma autoridade (em cinema) possa ser questionada. É o que destaca A destruição de Bernardet (de Claudia Priscilla e Pedro Marques).

Despojado, Bernardet se desprende da imagem do autor do clássico livro Brasil em tempo de cinema (1967), obra que resultou de dissertação criada, em parte, na bancada de estudos de cinema da Universidade de Brasília (UnB), em que foi professor. “Eu sempre fui acessível. Os outros é que me acham o difícil. Ainda hoje acontecem coisas que me deixam pasmado: ‘Eu sou um ser humano, pera aí, hein...’”, ressalta.

Entre jogos cênicos e dados verídicos, o documentário A destruição de Bernardet expõe a dinâmica que leva o crítico à atual plenitude. “Não posso dizer plenitude, por eu estar ficando cego. Este é o caminho que escolho: vivo o presente e olho sempre para a frente. Mesmo que meus olhos não enxerguem muito longe”, brinca.


PONTO A PONTO / Jean-Claude Bernardet


O quase “não”
Resisti a participar de A destruição de Bernardet por achar que seria um filme convencional, à base de depoimentos meus e de outros para me elogiarem; o que é coisa que detesto. Mudei de ideia quando vi o filme do Pedro Marques e da Cláudia Priscilla sobre Laerte (Vestido de Laerte, de 2012). Vi que havia outras maneiras de tratar de personalidade, com pesquisa de linguagem e ironia. Seria terrível, para mim, ter um filme apenas elogioso a meu respeito. Um crítico, um aluno, um professor para dizer “ele foi muito importante, nos anos 1970, 1980” — isso eu não suportaria.


Um mero espectador
Vou ao cinema para ver principalmente filmes brasileiros. Frequentemente com alguém que me dê algumas informações complementares. Confundo personagens, não vejo muito as expressões dos atores, a não ser que esteja em primeiríssimo plano. Há uma limitação indiscutível. Qualquer impressão que eu emita decorre da minha condição que é a de ter a visão degradada em mais ou menos 60%. Fica difícil eu emitir maiores opiniões sobre um filme.


Autocrítica
Crítico comigo, em relação ao que fiz no cinema e como ator. Tenho dificuldades com minha imagem e com minha voz. Para mim, o momento mais intenso vem com a gravação de um filme. Quando o filme fica pronto; assisto uma, duas vezes, e ele já pertence ao passado. Estou num momento intenso, por encontrar desafios. Não sendo ator profissional, tudo para mim é novidade. Sendo razoavelmente tímido, atuar diante das pessoas exige esforço e controle sobre mim. No filme A destruição de Bernardet, descobri inúmeras possibilidades. Fiz até hoje filmes irrelevantes, em sua maioria, ainda que tenham sido importantes para mim. O filme atual funcionou muito bem no exterior. É um filme, no fundo, sobre a longevidade e o envelhecimento.


Arte: luxo ou lixo?
Um dos grandes filmes recentes que vi foi Histórias que nosso cinema (não) contava, de Fernanda Pessoa. Como trata de pornochanchada, ninguém quer saber — a cultura, aliás, tem horror a isso. Meus amigos dizem que ouviram falar deste filme, mas ninguém foi ver. Por trás do filme, há uma montagem excelente e se percebe uma grande pesquisa. Mas é melhor assim: deixar de escanteio para não prejudicar a “cultura culta”. É um escândalo, mas é isso que acontece. Enquanto isso, filmes como As boas maneiras (de Juliana Rojas e Marco Dutra) são bastante discutidos; ainda que seja um título muito medíocre. Ele encerra praticamente dois filmes em um — com estilos discrepantes — o primeiro (a primeira parte) se aguenta, enquanto o outro é uma merda.


Eleição já
Acho que precisamos nos interessar e votar. Que a política esteja degradada e que todos são bandidos não passam de argumentos da direita para desestimular o eleitor a discutir. Há problemas de unificação de candidato no campo progressista. Estão todos espalhados. No campo político recente, me interessei muito pelo filme O processo. A diretora Maria Augusta Ramos é de Brasília e estudou até música na UnB.


Longe do baú
Olha, se for para deixar claro o quanto há invenções no documentário A destruição de Bernardet, tenho que dizer que eu não como borboletas todos os dias (como se vê numa imagem do filme). As 127 fitas citadas, e que guardariam minha memória de vida, não existem. Não armazeno meu passado. Não tenho nem as fotos da trajetória que ocasionalmente as pessoas me pedem. Meu arquivo está na Cinemateca Brasileira (São Paulo). Se o material tiver algum interesse, e acho que ele tem — por haver minhas correspondências com o Glauber Rocha, por exemplo, digo que “tem muita coisa”. Interessa meu arquivo, mas na medida em que ele pode se tornar público. Ele pode auxiliar estudantes, pesquisadores.


Fellini
A ferramenta da minha inserção na cultura foi a seguinte: quando publiquei um texto sobre o filme A doce vida, nos anos 1960. Dele, veio muita, muita repercussão. Foi reproduzido em vários veículos e fui chamado para um monte de debates. Mas percebi que um leitor que me interessava, meu leitor em potencial, não leria o texto: era Federico Fellini (diretor de A doce vida). Caí em mim: “Cara, se você continuar a fazer comentários de filmes italianos, suecos, de Bergman — você está perdido”. Buscava uma interlocução com área de criação, de produção e com o público leitor. Investi na área social em que vivia. Crítica não é só análise e avaliação — é uma atuação cultural. Tomei posições claras, até mesmo agressivas, em determinados momentos queria mesmo era defender uma política cultural.


Cinema candango
O curso de cinema da UnB foi iniciado em 1965. Começou no calendário normal e foi até mais ou menos novembro. Depois, voltei em 1968, passada uma greve. Finalmente, voltei com maior frequência por causa do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Hoje, não gosto tanto de algumas coisas da cidade — a questão de não ter lojinhas, de ter que fazer tudo de carro. Não era isso que se apresentava para a gente nos anos 1960. A cidade era nova; então, eu me lembro perfeitamente da minha esposa Lucila Ribeiro (professora falecida há 25 anos) e Paulo Emílio Salles Gomes (o fundador do Festival de Brasília) quando saíamos, à noite, para ver a cidade em seus diversos aspectos.


Professor
Muitas vezes, fizemos greve na UnB, que era bem respeitada. Mas, no fundo, queríamos dar aula e pesquisar. Então, tanto estudantes quanto professores se encontravam. Cheguei a dar aulas às 22h, fora do horário das atividades normais. Não furávamos a greve, mas encontrávamos uma sala para projetar documentários, estudar e discutir. Tudo aquilo era muito importante para a gente. Era um momento muito, muito intenso para a cidade. A concepção de professor repassada pelo Darcy Ribeiro era de que nosso lugar não era o de se limitar, fechado em departamento. Precisávamos nos articular com o ensino médio, no qual dávamos aulas, e com a cidade. Tinha uma sala de cinema na W3 Sul em que Paulo Emílio e eu projetávamos filmes, propúnhamos palestras. Isso foi feito, depois, também pelo Vladimir Carvalho.

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