Publicidade

Correio Braziliense

Exposição leva ao Itamaraty a trajetória de Nelson Mandela como ativista

Mostra foi idealizada pelo Museu do Apartheid de Joanesburgo


postado em 12/09/2018 06:00

(foto: Internet/Reprodução)
(foto: Internet/Reprodução)

É cheia de simbolismos a exposição Centenário Mandela, que desembarca nesta quarta-feira (12/9), no Palácio do Itamaraty, para contar a trajetória de uma das figuras públicas mais celebradas quando se trata de luta por direitos humanos na segunda metade do século 20. Boa parte das bandeiras levantadas por Nelson Mandela durante mais de seis décadas de batalha contra a segregação racial estão longe de ser uma conquista livre de ameaças. Com isso em mente, Christopher Till, curador do Museu do Apartheid de Joanesburgo (África do Sul), idealizou a mostra para celebrar o centenário e um conjunto de valores constantemente ameaçados. “O mundo tem se tornado muito polarizado, sexista e racista. E, no aniversário de 100 anos de Mandela, sua mensagem, que é universal, volta à tona. A exposição é um chamado para lutar contra as coisas contra as quais Mandela lutou”, diz o curador.

Till acredita que tornar conhecida a trajetória do ativista pode ajudar a recuperar seus ideais em um mundo cada vez mais dividido e marcado por extremismos. Mandela nasceu em julho de 1918, em uma família nobre do povo Thembu, tribo do interior da África do Sul, e em um período em que as regras coloniais incluíam a segregação racial como parte importante dos mecanismos de dominação. A luta contra o racismo e o preconceito começou cedo, quando ele decidiu trocar o interior por Joanesburgo e mergulhar na revindicação dos direitos dos negros.

A busca pela igualdade era um ideal difícil de atingir em uma sociedade na qual dois milhões de brancos oprimiam oito milhões de pessoas provenientes de diversas etnias. Mandela formou-se em direito em uma universidade reservada para negros. O apartheid ainda não estava instalado, mas toda a sua base já estava em funcionamento. Formado, o nobre thembu tornou-se um símbolo de mudança ao liderar o primeiro escritório de advogados negros da África do Sul.


Choque cultural


Em Joanesburgo, longe da nobreza tribal que o educou para ser um líder e na lida com o direito que sempre beneficiava os brancos, Mandela se deparou com as desigualdades geradas pelo racismo. Também se aproximou do Congresso Nacional Africano (CNA), que passou a integrar na década de 1940 e cuja mentalidade subserviente ajudou a mudar. Único partido representante dos negros do país tolerado pelos brancos, o CNA cresceu e virou um centro de combate, mas teve suas forças minadas quando o Partido Nacional, representante da minoria branca, ganhou as eleições de 1948 e impôs o regime do apartheid.

Painéis de fotos e textos integram a montagem(foto: Instituto Brasil África)
Painéis de fotos e textos integram a montagem (foto: Instituto Brasil África)


Mandela fez muito barulho nesse cenário e virou o nome no qual uma população oprimida e torturada passou a apostar o futuro. Advogou em causas difíceis e desempenhou importante ativismo antes de passar 27 anos preso, depois de uma condenação à prisão perpétua. Foi libertado em 1990, quando ainda vigorava o apartheid, extinto apenas em 1994.

Na exposição, a vida de Mandela foi dividida em seis partes — a pessoa, o camarada, o líder, o prisioneiro, o negociador e o homem de estado —, organizadas com fotos e vídeos que ajudam a relembrar os pontos mais importantes da vida do líder. Agraciado com o Nobel da Paz, ele se tornaria presidente do país em 1994, dando início ao fim do apartheid.


Momento propício


Christopher Till idealizou a mostra que pretende resgatar a mensagem original de Mandela(foto: Instituto Brasil África/Divulgação)
Christopher Till idealizou a mostra que pretende resgatar a mensagem original de Mandela (foto: Instituto Brasil África/Divulgação)
Para Christopher Till, trazer a exposição para o Brasil em um momento de eleições polarizadas é também uma maneira de relembrar a importância dos ideais de Nelson Mandela. “O mais importante é a correlação entre as histórias da África do Sul e do Brasil”, explica Till. “Há elementos similares entre a história de Nelson Mandela e a história do Brasil, como a escravidão e o passado colonial, que, no meu país, levaram ao apartheid. A mensagem de Mandela, depois de passar 27 anos na cadeira, era de reconciliação, de inclusão e de reconstrução. Essa mensagem foi perdida, não só no meu país, mas no mundo.”

Quando olha para a África do Sul dos dias de hoje, Till reconhece que ainda há uma imensa lacuna. “Ficamos eufóricos durante uns oito anos, queríamos deixar o passado para trás, mas não fizemos isso. Trouxemos tudo conosco, tanto as práticas políticas quanto as práticas de negócios. Descobrimos que não nos tornamos o país que queríamos ser. E agora temos que descobrir como nos tornar a nação que desejávamos. Precisamos nos reengajar, e a sociedade civil precisa se inspirar nessa figura que foi Mandela”, diz.

Centenário Mandela
Visitação até 4 de outubro, no Palácio do Itamaraty, de segunda a sexta, visitas às 9h, 10h, 11h, 14h, 15h, 16h e 17h. Sábados, domingos e feriados, 9h, 11h, 14h, 15h e 17h. Para agendamentos: visita@itamaraty.gov.br ou 2030-8051. Classificação indicativa livre.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade