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Correio Braziliense

Beatriz Seigner fala sobre 'Los Silencios', filme do Festival de Brasília

A obra, que integra a mostra competitiva do Festival, mostra história de mulher colombiana que luta para criar os filhos após o desaparecimento do marido


postado em 15/09/2018 09:43 / atualizado em 15/09/2018 09:57

(foto: Divulgação)
(foto: Divulgação)

Aplaudido em pé por mais de três minutos, na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes, o longa Los silencios está na disputa por prêmios Candango, no Festival de Brasília. Falado, em grande parte, em castelhano, o longa, exibido neste sábado (veja programação abaixo) examina a trajetória de Amparo (Marleyda Soto) que, saída de zona violenta colombiana que margeia o Rio Amazonas, com o peso do desaparecimento do marido (papel de Enrique Diaz), tem a responsabilidade de criar filhos com destinos repletos de fantasmas.

“O sentimento que guia a obra vem de ternura, dignidade, luto e luta. Mais do que indignação, acho que este é um filme de compaixão e transcendência”, observa Beatriz Seigner. Orçado em R$ 3,5 milhões, com respaldo de coprodução entre Brasil, França e Colômbia, Los silencios teve filmagens entre junho e julho de 2017. A fita avança em dados indígenas voltados à cosmogonia (preceitos que alinhavam a origem do universo).

“Sigo muito minha intuição, e deixo que meus personagens me guiem, me surpreendam e me revelem a si mesmos e onde querem chegar. Acho que o drama da mãe retratada, e de tantos imigrantes, é não apenas universal como é uma questão muito contemporânea na era globalização”, observa Beatriz Seigner.
 
(foto: Leonardo Mecchi/Divulgação)
(foto: Leonardo Mecchi/Divulgação)
 
 
Como se deu a construção da identidade dos personagens? Que ambiente compõe o filme e em que cidades filmaram?
Entrevistei mais de 80 famílias de colombianos vivendo no Brasil, especialmente na fronteira com o Amazonas, para construí-los. Vários dos personagens secundários vivem na Isla de La Fantasia, onde o filme se passa, como a Abuelita e o Presidente, e representam a si mesmos, com trajetórias emprestadas para o filme. A maior parte do longa é rodada na Ilha da Fantasia, que é localizado na tríplice fronteira, entre o Brasil, a Colômbia e o Peru. É uma ilha que surgiu há cerca de 25 anos, e fica quatro meses embaixo das águas, e oito meses sobre ela, povoada por imigrantes e fantasmas. O filme foi rodado em três etapas, para podermos capturar este movimento do rio.
 
Seu filme bebe da literatura fantástica, em alguma instância? É uma obra prioritariamente visual?
Meu trabalho bebeu mais dos relatos orais do que na literatura escrita, mas sem dúvida vivemos num continente fantástico, e isso está refletido no filme. Costumo ler muito, amo os clássicos como Tolstoi, Dostoiévski, Guimarães Rosa, e, no momento, tenho me debruçado sobre a literatura feita por mulheres, como Elena Ferante e Conceição Evaristo. Acredito que a força de meu cinema esteja mais nas situações em que meus personagens passam, que é tanto visual quanto sonora, do que nos diálogos, que costumo improvisar com os atores, para serem o mais natural possível. Gosto de falar com silêncios.
 
O Brasil descuida das relações sociais com nossos vizinhos latinos?
Acho que culturalmente o Brasil deveria se integrar mais à América Latina, deveríamos estudar espanhol como segunda língua nas escolas, e nos aprofundar na história de (Simón) Bolívar e das diversas culturas de nosso continente, pois vivemos situações, de fato, muito semelhantes em nosso processo de descolonização, como a necessidade de reforma agrária, de soberania com relação aos nossos recursos naturais, de proteção aos povos originários e à população negra, sumariamente executada na tal “guerra às drogas”, que nada mais é do que uma guerra à população mais vulnerável e historicamente excluída do nosso continente. Seguramente, se conhecêssemos mais nossos vizinhos, suas histórias e a riqueza de sua cultura, iríamos recebê-los e melhor integrá-los ao Brasil. A cultura, e o cinema, chamado de soft power, é uma das armas mais eficazes contra a xenofobia, e outras violências e preconceitos.

Como ressaltaram a luz e o magnetismo das imagens de um Brasil mais obscuro?
Com relação à linguagem e fotografia, três preceitos nos guiaram: toda violência que os personagens carregam consigo está fora de quadro, pois nos interessa muito mais como estas violências reverteram psiquicamente neles, do que vê-las em si. Temos muitas tomadas noturnas e cenas em que parte do quadro está mergulhado na mais profunda escuridão, com apenas uma lanterna, fogueira ou vela iluminando os personagens. Nestes espaços de escuridão trabalhamos o desenho sonoro para sentirmos aquilo que passa pelos personagens.
 

Mostra competitiva

Cine Brasília (EQS 106/107). Hoje, às 18h, com o curta Boca de loba (ficção, 19min, CE, 12 anos), de Bárbara Cabeça; e o longa Torre das donzelas (97min, RJ), longa-metragem documental de Susanna Lira. Às 21h, sessão com o curta Kairo (ficção, 15min, SP, 12 anos), de Fábio Rodrigo; e apresentação do longa Los silencios (ficção, 87min, SP, livre), de Beatriz Seigner. Ingressos, R$ 6. 

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