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Correio Braziliense

Festival de Brasília: especulação imobiliária é o mote de 'New life S.A.'

Filme brasiliense dirigido por André Carvalheira é o longa exibido neste domingo na mostra competitiva do festival


postado em 16/09/2018 06:30 / atualizado em 16/09/2018 10:15

'New life S.A.' fala de temas caros a Brasília em tom de crítica e sátira (foto: Machado Filmes/Divulgação)
'New life S.A.' fala de temas caros a Brasília em tom de crítica e sátira (foto: Machado Filmes/Divulgação)
Renovação. É nessa palavra-chave que se ampara não só a trama do filme brasiliense New life S.A., mas ainda o momento profissional do diretor pernambucano André Carvalheira, que mora em Brasília desde 1987. No corre-corre, entre vídeos institucionais, campanhas e publicidades, Carvalheira — que há 10 anos não dirigia um filme —, assume o voo solo de longa-metragem, apoiado por extensa carreira na direção de fotografia, em longas como O último cine drive-in. “Carvalheira eu assino só quando sou o diretor do filme”, brinca o autor de curtas como Toda brisa e Dia de folga, mais conhecido entre os colegas por Xará.

André Carvalheira define o tom do filme New life S.A. como algo sarcástico, em balança que equilibra densidade com tons cômicos e brincalhões. “O filme é político, sim; mas não no sentido genérico de que todo o filme seja. Ele traz, na verdade, uma mistura de gêneros: é um pouco político, um pouco suspense e tem ainda drama. O mote central aponta para certa impossibilidade e para sociedade corrompida”, observa. No filme, Carvalheira retoma parcerias com os roteiristas Aurélio Aragão e Pablo Gonçalo.

Em New life S.A., o ator Renan Rovida (conhecido pelo longa Arábia) interpreta um arquiteto idealista que tem como sogro Rubens (Murilo Grossi), um grande empresário que trama benefícios ao lado de Walter (André Deca), político, em plena campanha. A arte do planejamento, no filme, emplaca arcabouço crítico. “Expomos uma cidade construída sobre uma utopia, como acontece com um bairro descrito na narrativa, e que abraça uma nova sociedade. Nisso está a ideia original do que seria Brasília. Na construção da cidade, veio uma nova sociedade, uma nova capital. Isso se perde. A utopia da construção, no filme, também se choca. Aí está o aspecto político — com um choque na pegada do lado artístico. A idealização confronta com o concreto, com o real”, adianta o cineasta.


Cenas na cidade

Com orçamento de R$ 800 mil, possibilitado via FAC (Fundo de Apoio à Cultura), o longa, produzido por Alisson Machado, foi filmado há dois anos na capital. Uma vida encenada, dentro de rotina exageradamente feliz, está entre as imagens propostas pelo filme. Sem segredos, Carvalheira conta que apostou na representação do ridículo de algumas relações sociais. “O filme tem um olhar algo pessimista. Reflete nossa época, com o fantasma da corrupção. A concepção do bairro elaborado para o filme é feito com certo arranjo da tríade empresário, político e o judiciário. Uma trinca que a gente conhece bem”, revela Carvalheira, que diz ter apostado em sutileza e nuance.

Na ala de atuações femininas de New life S.A., há destaque para a dupla Catarina Accioly e Larissa Mauro, que interage dentro de um estande. “Trago uma brincadeira com as relações sociais. Além disso, papéis sociais são alvo de reflexão. O filme tem ainda um bom papel de juíza, na interpretação de Vanise Carneiro, que foi ainda preparadora do nosso elenco”, adianta.

Tão candango quanto brasiliense

Múltiplos prêmios para o colega Adirley Queirós em recentes edições do Festival de Brasília (com fitas como Branco sai, preto fica e Era uma vez Brasília), parecem animar André Carvalheira, que se vê numa geração de intersecção entre realizadores “mais candangos”, como André Luiz Oliveira e a leva consagrada que incluiu José Eduardo Belmonte, René Sampaio e André Luís da Cunha, e a facção mais jovem que trouxe Adirley Queirós e Iberê Carvalho. “Sou tanto candango quanto brasiliense, numa geração de realizadores mais tardios. Brasília, porém, é sempre meu porto”, analisa.

Iniciado na assistência de direção, há mais de 20 anos, André Carvalheira conta que, para o novo filme, depositou fichas no aproveitamento de locações internas, sem estúdio. Apesar de “superligado” na arquitetura da cidade, aproveitou muitas cenas de confinamento para o filme fragmentado e que flerta com diferentes gêneros.

O diretor pernambucano André Carvalheira:
O diretor pernambucano André Carvalheira:"Brasília é sempre meu porto" (foto: 400 Filmes/Divulgacao)


Ao lado do diretor de fotografia Krishna Schmidt, Carvalheira assistiu ao longa específico do chinês Jia Zhangke Um toque de pecado (2013), cheio de planos sequências grandes, uma das inspirações para as imagens de New life S.A., que, pelo prometido, alia uma aura pop e bucólica, calibrada de certa tristeza. “Oriento bastante, enquanto realizador; mas não sou centralizador. Delego muito. Não é à toa que eu esteja no cinema: para mim, a criação só é possível em conjunto. Dificilmente eu seria um pintor, um escritor, um poeta. Não tenho essa facilidade de criar sozinho — preciso do embate, da discussão e de pessoas”, conclui.

Mostra Competitiva

Cine Brasília (EQS 106/107). Hoje, às 21h, com os curtas Liberdade (SP, 25min, documentário) de Pedro Nishi e Vinícius Silva; Sempre verei cores no seu cinza (RJ, 18min, documentário) de Anabela Roque; além do longa New life S.A. (DF, ficção, 79 min, 14 anos), de André Carvalheira. Ingressos, R$ 6.
 

Os curtas da noite

Liberdade
• Documentário de Pedro Nishi e Vinícius Silva. No famoso bairro de São Paulo, orientais e africanos interagem, colocando em cena dificuldades e benesses do acolhimento de estrangeiros no Brasil.

Sempre verei cores no seu cinza
• Documentário de Anabela Roque. A partir da calamitosa situação da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), a mobilização de docentes e discentes é abalada por fatos como o assassinato de um dos fortes ativistas da voz LGBT na entidade.
 
 

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