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Correio Braziliense

Dos diretores de 'Café com canela', 'Ilha' estreia no Festival de Brasília

Longa baiano traz para a mostra competitiva a história de um rapaz da periferia que queria fazer um filme sobre a própria vida


postado em 19/09/2018 06:00

No longa Ilha, um rapaz da periferia sequestra um cineasta para fazer um filme(foto: Rosza/ Divulgação)
No longa Ilha, um rapaz da periferia sequestra um cineasta para fazer um filme (foto: Rosza/ Divulgação)

É muito simbólico o roteiro proposto pela dupla Ary Rosa e Glenda Nicácio em Ilha. No longa que marca a mostra competitiva desta quarta-feira (19/9) no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, Emerson é um menino da periferia que sequestra um cineasta famoso e o intima a produzir um filme. Na tela, o garoto quer ver desfilar a própria vida. O garoto vive em uma ilha, tem pouco acesso ao cinema, uma realidade nas periferias, mas é fascinado pela linguagem cinematográfica. O metafilme da dupla mineira que escolheu viver e produzir no Recôncavo Baiano traz questões que já mobilizaram o Cine Brasília.

Assinado pelos mesmos diretores, Café com canela, que acaba de chegar ao circuito comercial, conquistou o público no festival no ano passado e levou o prêmio de Melhor Filme no Júri Popular da 50ª edição. Na tela, protagonistas negros e uma história de afetos, de encontros e reencontros, cativou o público. Com Ilha, o afeto também está presente, mas é para a desconstrução dos personagens e a percepção da existência de diferentes pontos de vista para cada acontecimento que Ary Rosa chama a atenção.

Ele sabe que muitas metáforas e entendimentos diferentes vão surgir, mas o que a dupla quis foi dar voz e subjetividade para quem nem sempre as tem. Ou, se as tem, é visto de forma pejorativa ou por um olhar distanciado de alguém privilegiado. “Nossa ideia é justamente colocar o Emerson para protagonizar esse filme e guiar o filme da vida dele. A intenção de trazer esse cineasta de fora é justamente para ser apresentado para o espectador o contraponto. E aí, vai da experiência do espectador desconstruir aquela figura que, aparentemente, é um bandido, um sequestrador. É o que vive o personagem Henrique, o cineasta, que também vai desconstruindo essa ideia. Queríamos fazer esse contraponto, essa dialética entre os personagens”, avisa Rosa.

Não é intenção do filme, nem dos diretores, trazer para a tela qualquer tipo de questionamento político, embora saibam que algumas reflexões podem brotar dali. “As escolhas de fazer filme no interior, de ter um protagonismo negro, de ter uma representatividade e tantas outras escolhas, a gente entende que tenha essa repercussão política. Acho que Ilha está um pouco nesse lugar também. É um filme um pouco mais duro que Café com canela”, diz o diretor. Feito com um orçamento de R$ 800 mil, o longa só foi possível, segundo o diretor, graças aos arranjos regionais e às políticas de audiovisual que permitem acesso a fundos públicos.

(foto: Rosza/ Divulgação)
(foto: Rosza/ Divulgação)


Naturais de Minas Gerais e egressos do curso de cinema da Universidade Federal do Recôncavo Baiano, Rosa e Glenda moram em Cachoeira, a 110 Km de Salvador, e lá abriram a produtora Rosza Filmes, na qual também desenvolvem projetos educacionais. “Ilha é uma forma de dar continuidade a um trabalho que a gente vem desenvolvendo no interior da Bahia junto com outros profissionais que fizeram essa escolha de produzir cinema fora do eixo. Pra gente, é uma escolha bastante corajosa, que acaba tendo várias inquietações, mas é um tipo de cinema no qual a gente acredita e que a gente vem conseguindo fazer”, diz Glenda, que celebra o fato de haver maioria de diretoras mulheres nesta edição do festival. Além disso, há também muitas duplas na assinatura dos longas, outro fato a ser comemorado, segundo a cineasta. “Traz a possibilidade de questionar esse lugar da direção. Está tendo uma transformação também no corpo dos festivais”, acredita.

Mostra Competitiva
Cine Brasília (EQS 106/107). Quarta, às 21h, sessão com o curta Aulas que matei (ficção, 24min, DF, 12 anos), de Amanda Devulsky e Pedro B. Garcia; e apresentação do longa Ilha (ficção, 94min, BA, 16 anos), de Ary Rosa e Glenda Nicácio. Ingressos: R$ 12 e R$ 6 (meia)

Duas perguntas / Ary Rosa


Como nasceu Ilha?
Ilha fala sobre a história de um rapaz marginal no sentido de estar à margem, não no sentido pejorativo, que decide contar a história da vida dele e pra isso ele sequestra um cineasta do centro, do eixo. A partir desse encontro surgem os afetos, encontros e dores inerentes à vida. O filme nasce dessa vontade… a gente tinha acabado de gravar o Café com canela, então a gente estava muito com essa vontade de fazer um filme intimista, um filme menor, mas que falasse de cinema também com um viés, um ponto de vista nosso, do interior. De alguma forma, Glenda e eu montamos uma produtora no interior do Brasil, então a gente tem já essa perspectiva de também querer levar pra tela esse ponto de vista que a gente encontra a partir do lugar que a gente escolheu.

O que esse personagem do Emerson diz sobre o Brasil de hoje?
Muita coisa. É preciso contextualizar o filme, porque se não a gente fica querendo dar respostas para questões muito complexas que não necessariamente estão no filme como potência criadora, mas que viram uma potência para o espectador. O filme é roteirizado no período da maior turbulência política no Brasil, início de 2016, então, claro que traz uma dureza e um viés político, já que estava todo mundo dependente do lugar onde estava e do ponto de vista que tinha sobre o impeachment ou o golpe. Era um momento duro que parece que se mantém de alguma forma. Ou pior. Acho que o filme está no momento certo, com as eleições, a polarização. De alguma forma, ele dialoga com isso sem querer trazer muito julgamento. Não tem essa perspectiva de trazer uma coisa dada. Ele cumpre a função de ter um olhar político sobre um momento de forma metafórica. Essa Ilha é um pouco o Brasil, Emerson é um pouco muitos brasileiros.

Duas perguntas / Glenda Nicácio


Temas ligados ao social, ao afeto e ao cotidiano estão em Ilha e em Café com canela, mas você mesma já expressou a preocupação em não deixar que eles virem uma prisão. Como fazer isso? 
Fazer cinema é um ato muito político, principalmente se a gente pensa na nossa situação de produtores independentes de uma pequena produtora que faz cinema: só é possível fazer por políticas públicas. Essa reflexão política pauta nossa ação o tempo todo. Não tem como passar imune nem a gente tem o desejo de fazer isso. Não consigo pensar numa fórmula para não deixar que aprisione. É um ponto que faz parte de uma série de outras amálgamas. A gente tem um compromisso com o filme, com os personagens que escolhe desenvolver e se aproximar. Acho gostoso poder misturar essas questões que aparentemente permanecem tão em caixinhas.

Quem é esse brasileiro que vai dentro do Emerson?
A gente poderia ver o Emerson como todos esses meninos que estão um pouco à margem do que é concebido, do que é tradicional. Ele está fora do centro. É aquele que vive em situações inóspitas e precisa sobreviver, ressignificar as situações, dar e buscar sentido. O filme que fala de metalinguagem e atravessa muito essa coisa de cinema e educação. É um menino que se apaixona por cinema e não pode praticar aquilo no cotidiano. E vem a necessidade de falar de si nessa linguagem que, a princípio, foi negada a ele. É um personagem que tem muita vontade de fazer cinema, muita vontade da linguagem, e que aprende um pouco pelo empirismo e, sobretudo, pela falta.

Cena do filme 'Aulas que matei'(foto: PedroGarcia/Divulgação)
Cena do filme 'Aulas que matei' (foto: PedroGarcia/Divulgação)

Ambiente escolar
O curta Aulas que matei, que abre a mostra competitiva na noite de quarta-feira (19/9), explora o ambiente da sala de aula e da escola em uma situação na qual nem todos conseguem chegar a tempo. Dirigido por Pedro Garcia e Amanda Devulsky, o filme nasceu da vontade de falar sobre o ambiente escolar depois de oficinas realizadas em escola do Distrito Federal pela equipe do filme. “Eram oficinas que buscavam relacionar o exercício da produção de imagens com esse lugar da educação”, explica Amanda. “É um filme que quer olhar pra escola pelas relações que se constroem nesse ambiente e também para o que rompe ou impede essas trocas de acontecerem”, completa Pedro.

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