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Correio Braziliense

Confira a crítica de 'Bloqueio', exibido no Festival de Brasília

O longa 'Bloqueio' trata da greve dos caminhoneiros


postado em 20/09/2018 06:47 / atualizado em 20/09/2018 06:37

'Bloqueio' explora a paralisação dos caminhoneiros(foto: Thaís Vidal/CB/D.A Press)
'Bloqueio' explora a paralisação dos caminhoneiros (foto: Thaís Vidal/CB/D.A Press)

 

Uma metáfora preciosa do Brasil está estampada no documentário Bloqueio: uma massa convulsiva e desordenada se agrupa, numa BR — esperando, esperando. Mas o que eles pretendem e, mais do que aguardam, almejam? A reposta indecifrável e que desemboca no atual desgoverno do país, é perseguida pelo cinema aguerrido dos diretores Victória Álvares e Quentin Delaroche, que, em Bloqueio, defendem uma produção estabelecida nos estados de Pernambuco e do Rio de Janeiro.

Rodado em maio deste ano, Bloqueio explicita discurso de um estado de emergência. Com narrativa em Seropédica (RJ), especula sobre o dia a dia de manifestantes que prometeram, e, sim, fizeram o Brasil parar. Desmoralizado e desacreditado pela imensa parte dos entrevistados, o atual presidente é chamado, no mais leve dos descréditos, de “miserável”. Caminhoneiros, perueiros, taxistas e motociclistas rechaçam o chamado governo ladrão. O registro de um país na corda bamba traz personagens que se apropriam de símbolos nacionais como elementos utilitários (a bandeira vira espécie de agasalho, enquanto caixas de som, em carros, alternam de Marília Mendonça à parte do Hino da Bandeira).

“O caos já está instalado, e vai ficar pior”, vocifera um anônimo, no WhatsApp, confirmando o poder das correntes de comunicação efetiva, de norte a sul do Brasil, que como os caminhoneiros alertam, em coro, “é nosso”. Desnorteados, reclamam a posse, mas não sabem, sob nenhum ângulo, o que fazer com ele. Um grande acerto do longa é o de registrar o poder da mobilização física — há um trabalhador que alerta que apoio não é apenas engajar “hashtag” na internet — “luta não é no sofá”, reforça.

Organizar um entendimento sistemático sobre a calamidade perpetuada pela greve é uma tarefa hercúlea que, claramente, não tange os objetivos finais dos diretores Victória Álvares e Quentin Delaroche. Preferem exaltar recortes de todo o movimento, com direitos a apêndices hilários, pela vocação de piadista do brasileiro médio. “A Nasa tem que vir estudar a gente”, por exemplo, observa um dos caminhoneiros que monta, em malabarismo, um chuveiro improvisado, à margem da rodovia.

A paralisação abre leque para um verdeiro circo a céu aberto, com direito a sincretismo (bênçãos e milagres são solicitados, no acostamento da manifestação), pedidos regulares de intervenção militar, reconhecimento do uso de drogas, por parte dos motoristas profissionais, e reivindicações das mais inesperadas (como a liberação irrestrita do porte de armas). Na corrente pra frente, bem desajustada, há popular que defenda que “o ‘homem de bem’ não sofria na ditadura”. Com direito a expurgação de uma emissora de tevê de estrutura global da zona de conflito, por parte da horda, os cineastas aderem ao entendimento e à moderação operante mesmo entre os mais exaltados. Se cheira a pólvora, Bloqueio apreende, na verdade, o combustível de um justiçamento social profundo que, por pouco, não evaporou. Difícil, de verdade, entender que país seja esse.
 

 

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